Justiça

Se Governe: "A verdade vos libertará"

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Publicado em 24/04/2026, às 16h50   Foto: Divulgação   Thiago Dória

Não, eu jamais faria desta coluna um espaço para conversar sobre religião. Fiquem tranquilos. A frase do título, inclusive, está colocada aqui com o sentido inverso do que é normalmente usada. Não quero convencer ninguém a ouvir ou acreditar em nenhuma “verdade”; ao contrário, quero incentivar pessoas e empresas a sempre dizerem a verdade, de forma clara, objetiva e madura.

No dia 1º de abril, o Tribunal Superior do Trabalho publicou no seu Instagram a postagem "Mentir no trabalho pode sair caro", e elencou mentiras consideradas inofensivas que podem ocasionar rescisão por justa causa, como mentir no currículo, inventar a morte de um parente ou apresentar atestado médico falso. De fato, o contrato de trabalho exige a boa-fé das partes de maneira inequívoca, e todo empregador reage de maneira indignada a esse tipo de falsidade, mas será que as empresas estão preparadas para ouvir a verdade?

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Na minha percepção, nós, brasileiros, não somos pessoas de má-fé nem mentirosos contumazes, mas toleramos com excessiva naturalidade alguém que floreia ou omite certos detalhes de uma situação, com a intenção de contornar possíveis desavenças. À vezes preferimos fazer malabarismos para tentar evitar conflitos do que dizer sempre a verdade, doa a quem doer. E é por isso que as organizações têm certa dificuldades para cultivar a integridade e criar ambientes profissionais transparentes e responsáveis (accountable).

Do outro lado, a imaturidade que contamina grande parte das relações entre empregadores e empregados, agravada pelo ritmo frenético do Século XXI, faz com que o erro de um empregado seja tratado com mais rigor do que a mentira. Onde a cobrança do empregador é intensa (por vezes míope e hostil), a mentira vira arma de defesa da equipe contra os gestores do “Se errar está fora!” ou do “Eu quero é resultado, se vire!”. Agora imaginem os riscos gerados por um empregado que esconde uma falha grave na produção ou que adultera um documento para não ser despedido? Qual o tamanho do risco gerado por uma pessoa que sofre ou presencia um caso de assédio, mas prefere não denunciar para não “causar problema”?

Entre diretores, conselheiros e acionistas, a coisa fica ainda mais delicada, e dúvidas sobre conflitos de interesses geram graves suspeitas. Por exemplo: um alto gestor tem obrigação de informar a empresa se um parente seu (irmão, cônjuge, filho) tiver qualquer tipo de relação com um fornecedor ou concorrente. Se ele resolve se omitir e não dizer nada para não criar um “mal-estar desnecessário”, a descoberta desse fato gera um clima de desconfiança relevante o bastante para inviabilizar a sua permanência na organização. Por isso, essa mentirinha coloca em risco o andamento de todos os projetos e iniciativas a cargo desse gestor (ou dele dependentes), a sua reputação da empresa no mercado, e até mesmo a sua saúde financeira, já que a exclusão de um sócio pode demandar muito capital.

Os riscos gerados pelas mentiras são enormes e incontroláveis, e por isso é tão importante criar nas organizações um cenário positivo que incentive a verdade. Isso não tem nada a ver com permissividade, mas com escuta ativa, maturidade no trato das situações, e atitudes firmes contra qualquer tipo de mentira, venha de onde vier. Mais que isso: a empresa que quer ouvir a verdade sempre tem que dizer a verdade sempre, mas trataremos desse desafio na próxima semana.

Não, eu jamais faria desta coluna um espaço para conversar sobre religião. Fiquem tranquilos. A frase do título, inclusive, está colocada aqui com o sentido inverso do que é normalmente usada. Não quero convencer ninguém a ouvir ou acreditar em nenhuma “verdade”; ao contrário, quero incentivar pessoas e empresas a sempre dizerem a verdade, de forma clara, objetiva e madura.

No dia 1º de abril, o Tribunal Superior do Trabalho publicou no seu Instagram a postagem "Mentir no trabalho pode sair caro", e elencou mentiras consideradas inofensivas que podem ocasionar rescisão por justa causa, como mentir no currículo, inventar a morte de um parente ou apresentar atestado médico falso. De fato, o contrato de trabalho exige a boa-fé das partes de maneira inequívoca, e todo empregador reage de maneira indignada a esse tipo de falsidade, mas será que as empresas estão preparadas para ouvir a verdade?

Na minha percepção, nós, brasileiros, não somos pessoas de má-fé nem mentirosos contumazes, mas toleramos com excessiva naturalidade alguém que floreia ou omite certos detalhes de uma situação, com a intenção de contornar possíveis desavenças. À vezes preferimos fazer malabarismos para tentar evitar conflitos do que dizer sempre a verdade, doa a quem doer. E é por isso que as organizações têm certa dificuldades para cultivar a integridade e criar ambientes profissionais transparentes e responsáveis (accountable).

Do outro lado, a imaturidade que contamina grande parte das relações entre empregadores e empregados, agravada pelo ritmo frenético do Século XXI, faz com que o erro de um empregado seja tratado com mais rigor do que a mentira. Onde a cobrança do empregador é intensa (por vezes míope e hostil), a mentira vira arma de defesa da equipe contra os gestores do “Se errar está fora!” ou do “Eu quero é resultado, se vire!”. Agora imaginem os riscos gerados por um empregado que esconde uma falha grave na produção ou que adultera um documento para não ser despedido? Qual o tamanho do risco gerado por uma pessoa que sofre ou presencia um caso de assédio, mas prefere não denunciar para não “causar problema”?

Entre diretores, conselheiros e acionistas, a coisa fica ainda mais delicada, e dúvidas sobre conflitos de interesses geram graves suspeitas. Por exemplo: um alto gestor tem obrigação de informar a empresa se um parente seu (irmão, cônjuge, filho) tiver qualquer tipo de relação com um fornecedor ou concorrente. Se ele resolve se omitir e não dizer nada para não criar um “mal-estar desnecessário”, a descoberta desse fato gera um clima de desconfiança relevante o bastante para inviabilizar a sua permanência na organização. Por isso, essa mentirinha coloca em risco o andamento de todos os projetos e iniciativas a cargo desse gestor (ou dele dependentes), a sua reputação da empresa no mercado, e até mesmo a sua saúde financeira, já que a exclusão de um sócio pode demandar muito capital.

Os riscos gerados pelas mentiras são enormes e incontroláveis, e por isso é tão importante criar nas organizações um cenário positivo que incentive a verdade. Isso não tem nada a ver com permissividade, mas com escuta ativa, maturidade no trato das situações, e atitudes firmes contra qualquer tipo de mentira, venha de onde vier. Mais que isso: a empresa que quer ouvir a verdade sempre tem que dizer a verdade sempre, mas trataremos desse desafio na próxima semana.

Thiago Dória
Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas

Classificação Indicativa: Livre


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