Cultura
Publicado em 19/06/2026, às 12h37 - Atualizado às 13h46 Central do Brasil Camila Sales
Em um território de proporções continentais como o Brasil, a sétima arte (cinema) consolidou-se não apenas como entretenimento, mas como um pilar indispensável na construção de identidades e na eternização de memórias. De norte a sul, as produções nacionais funcionam como janelas para diferentes territórios, perspectivas e experiências que estruturam o país.
Nesta sexta-feira (19), celebra-se o Dia do Cinema Brasileiro, marco que remete a 1898, quando o italiano Afonso Segreto capturou as primeiras imagens em movimento da Baía de Guanabara. Em comemoração aos 128 anos do cinema nacional, o BNews selecionou cinco produções representativas das diferentes regiões do país, disponíveis gratuitamente por meio da plataforma Tela Brasil (acessível via gov.br). O acervo governamental reúne 555 títulos realizados entre 1910 e 2025, abrangendo desde animações e documentários até ficções reconhecidas em premiações internacionais.
JAMARY (2021) - Norte
Mistura fantasia e mitologia para acompanhar uma jovem que encontra o Anhangá. Utiliza o realismo fantástico para refletir sobre os impactos do desmatamento amazônico.
NA QUADRADA DAS ÁGUAS PERDIDAS (2011) - Nordeste
Acompanha Olegário, um sertanejo que desbrava a caatinga. Tendo apenas a natureza como fonte de alimento, ele precisa se adaptar para sobreviver às adversidades do ambiente.
DIAMANTES, OURO E ÍNDIOS DE MATO GROSSO (1941) - CENTRO-OESTE
Curta-metragem documental de 7 minutos que registra o garimpo no Rio Coxipó Açu e o contato de autoridades com os indígenas Umutinas durante uma visita ministerial.
A HORA DA ESTRELA (1986) - SUDESTE
Baseado na obra de Clarice Lispector, acompanha Macabéa, uma órfã nordestina que tenta sobreviver como datilógrafa na hostil cidade de São Paulo.
O QUATRILHO (1995) - SUL
Em uma comunidade de imigrantes italianos de 1910, dois casais decidem dividir a mesma casa para sobreviver, o que desencadeia paixões cruzadas e um drama romântico inesperado.
Nos últimos anos, as universidades federais brasileiras passaram a organizar de forma mais robusta a formação em Cinema e Audiovisual, refletindo o crescimento do setor e a demanda das plataformas digitais. Esse movimento tem gerado uma profissionalização notória e evidenciada por produções recentes como "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto", ambos com repercussão nacional no Oscar.
Na Bahia, por exemplo, o ensino superior tem se estruturado em duas frentes fortes:
UFBA: Oferece o curso como uma Área de Concentração dentro do Bacharelado Interdisciplinar (BI) em Artes. Após o primeiro ciclo, o estudante cursa em média três semestres focados, unindo a teoria e a prática estruturadas pela Faculdade de Comunicação (FACOM).
UFRB: Para quem busca a formação direta, o campus em Cachoeira oferece o bacharelado integral em Cinema e Audiovisual, avaliado com nota máxima no MEC.
O ingresso para as instituições federais ocorrerá via Enem (Sisu), agendado para os dias 8 e 15 de novembro de 2026. Além do circuito universitário, a capacitação tem sido descentralizada por iniciativas como a plataforma A Escult (cursos FIC e especializações), e projetos dirigidos pela SalCine, Coletivo 4 Produções e Funceb.
Apesar dos avanços, o Mapeamento da Estrutura de Formação Audiovisual no Brasil (Out/2025) aponta um gargalo regional preocupante: estados como AC, RR, RO, AP, TO, MA, PI e AL ainda não contam com nenhum curso superior na área oferecido por Universidades Federais.
Abaixo há o descritivo da quantidade de estudantes ingressantes e concluintes dos cursos: áudio e vídeo, cinema, licenciatura, jogos, multimídia, animação:
O foco é o futuro!
Celebrar os 128 anos da primeira filmagem no país não é apenas olhar para o registro pioneiro de Afonso Segreto na Baía de Guanabara, mas projetar o futuro de uma indústria que amadureceu de forma incontestável. A excelência técnica e o rigor artístico do nosso audiovisual já não são apenas promessas; são realidades atestadas por estatuetas nos maiores festivais do planeta e pela formação de uma força de trabalho cada vez mais qualificada em nossas universidades.
O próximo capítulo dessa história (ou a parte dois desse filme), portanto, não é sobre provar a qualidade das nossas narrativas, mas sim pavimentar os caminhos mercadológicos e estruturais para que elas cheguem, de fato, às salas, às escolas e à rotina da população. Afinal, as telas não servem apenas como vitrines para o mundo; elas são, antes de tudo, espelhos. E a nossa cultura só estará verdadeiramente protegida quando o grande público puder se sentar na cadeira do cinema ou no sofá, olhar para a tela e, finalmente, se reconhecer nela.
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