Cultura

Babilônia x Os dez mandamentos

Publicado em 06/04/2015, às 10h10      Alessandro Isabel

Não foi o beijo gay. Definitivamente, não foi. Estou muito longe de ser um analista de teledramaturgia, mas me habilito a afirmar que o insucesso da novela "Babilônia" não está no selinho do casal de lésbicas vivido por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. O declínio de audiência do folhetim das 21h da Rede Globo está no excessivo pessimismo, na visão dos autores, de como está constituída a família brasileira.

O país vive um dos períodos mais conturbados, com crise financeira, social e moral. Os telespectadores, cansados de respirar a realidade durante o dia, desejam chegar a noite, diante de seus filhos, e ver entretenimento. Ver tudo o que não viu durante o dia. Mas, o que tem sido observado no enredo da novela é uma mãe servindo de empresária sexual da filha, o filho que faz de conta para a mãe que é bem sucedido de maneira honestamente, quando, na verdade, está envolvido com tráfico de drogas, o político corrupto (redundância) que engana a família inteira, o empresário que passa o tempo todo planejando com a mulher como ficar ainda mais rico de maneira ilícita, a mulher traindo o companheiro com todos os homens que vê pela frente, etc... Beijo gay é o menos importante nesse pacote.

O que os autores estão mostrando não é o reflexo da família brasileira. Esse não é o reflexo da minha família. Onde está o núcleo cômico? Onde está a lição de superação? Onde está a emoção na trama? Cadê a mocinha e o mocinho? O sonho e o objetivo? A fórmula observar o mundo pelo olhar trágico perdeu o encanto. O elenco é um dos mais competentes, a produção de primeira, fotografia e edição de áudio e vídeo - impecáveis, mas falta enredo. Falta história... falta humanizar.

Na contramão da Babilônia vem Os Dez Mandamentos , da Rede Record. A empresa paulista tem incomodado a carioca. Embora o contexto da novela bíblica seja marcado por inveja, morte, traição, tem o diferencial de remeter ao passado. De mostrar como um dos grandes nomes do livro sagrado (Moisés) liderou uma nação e a levou para a libertação. Aí sim entra a superação, emoção, o sonho, objetivo, entra o ser humano. Com um elenco bem mais modesto, Os Dez Mandamentos consegue prender pela história.

O reflexo do embate entre "santo" e "pecador", segue no gráfico de audiência. Em números, "Moisés"  tem preocupado "Babilônia". Para tentar frear o declínio, os autores da Globo tem rediscutido os rumos da novela e reeditado a postura de cada personagem. A pressão por mudanças tem sido forte e nas próximas semanas retoques serão percebidos, por quem assiste. O discurso homofóbico cai por terra. A família, conservadora ou não, tem consciência da quebra de paradigmas quem tem se formado diante do assunto homoafetividade, mas, como tudo na vida, deve ser feita com parcimônia.

Vou deixar para os próximos capítulos o reflexo das mudanças. Como a Rede Globo conseguirá reconquistar o público, dar uma virada de mesa e assumir, de fato, que a família é composta por pessoas com problemas, mas, principalmente, com virtudes. Virtudes estas que devem ganhar, também, destaque em horário nobre.

Classificação Indicativa: Livre


Tags