Economia & Mercado

Trabalhadores têm segundo mês sem reajuste real

'Se a inflação não ceder, não há muito espaço para aumentos', diz professor  |  Folhapress

Publicado em 26/09/2018, às 07h45   Folhapress   Folhapress

Agosto foi o segundo mês consecutivo em que o trabalhador não conseguiu reajuste salarial real, isto é, acima da inflação, em negociações coletivas.

O reajuste mediano no mês passado foi de 3,6%, exatamente igual ao INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulado em 12 meses, apontam dados do Salariômetro da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

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"O último aumento real foi em junho. A partir daí, a inflação deu um salto e, como a crise continua, as empresas não conseguem absorver esse aumento nos custos e fica difícil para elas dar aumento real", explica Hélio Zylberstajn, professor da FEA-USP e coordenador do Salariômetro.

Zylberstajn observa que as últimas projeções da pesquisa Focus do Banco Central mantêm a perspectiva de um INPC acumulado em 12 meses mais perto de 4% nos próximos meses. "Se a inflação não ceder, não há muito espaço para aumentos reais", afirma.

Além do reajuste, que é a cláusula mais debatida no ano até agosto, representando 53,4% das negociações, e do piso salarial (48,9% das negociações), a pesquisa mostra o peso de articulações pela contribuição a sindicatos de trabalhadores: representaram 40,7% do total das negociações no ano.

"Isso é impacto da reforma trabalhista. A contribuição é mais negociada que adicional por hora extra, por exemplo", diz o professor.

O imposto sindical tornou-se facultativo após mudanças na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) a partir de novembro do ano passado. Mas foi apenas em junho deste ano que o STF (Supremo Tribunal Federal) bateu o martelo e validou o fim do recolhimento obrigatório.

Segundo a Fipe, aos poucos, o fluxo de negociações salariais fechadas volta ao normal.

No ano até agosto, acordos e convenções somavam 15.074, 30% abaixo do nível de 2017. Essa diferença, no entanto, já chegou a superar 70%, no acumulado até maio, por exemplo.

"Parece que empresas e trabalhadores estão conseguindo resolver suas questões, principalmente em relação à contribuição sindical", afirma Zylberstajn.

Das contribuições acertadas no ano, quase 29% são negociais --modalidade em que o valor é acertado no fechamento de acordos coletivos.

"Os números indicam que os sindicatos estão conseguindo concessões das empresas para colocar cláusulas que dão a eles essas contribuições", observa Zylberstajn.

Reportagem da Folha em junho mostrou que a vice-presidência do TST (Tribunal Superior do Trabalho) vinha estimulando, em acordos coletivos, sindicatos e empresas a imporem o desconto de meio dia da jornada dos trabalhadores como uma alternativa para irrigar o caixa de entidades de representação de categorias.

A chamada cota negocial foi criada em acordo coletivo da Vale e do STEFEM (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias dos Estados do Maranhão, Pará e Tocantins).

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