Economia & Mercado
Publicado em 10/04/2016, às 00h00 Luiz Fernando Lima (Twitter: @limaluizf
O presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Ricardo Alban, concedeu entrevista exclusiva ao Bocão News. Alban afirma que é preciso unificar o Brasil e que não se pode mais esperar para tomar decisões sob pena de mergulharmos o país numa crise profunda. O presidente da Fieb ressalta também que as federações não devem adotar, enquanto instituições, posições político-partidária. Confira:
Bocão News: presidente, o momento é extremamente crítico e o desemprego cresce, a inflação está crescendo. Qual a avaliação que a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) faz deste cenário? E qual o papel da entidade no sentido de propor saídas para esta crise?
Ricardo Alban: A situação política e, consequentemente, econômica está a pior possível. O mais grave dela é você constatar que a perspectiva não é vislumbrada. Nós não temos uma credibilidade hoje, um horizonte que possamos traçar e planejar e isto frustra qualquer tipo de condução, esse é o ponto pacífico. A FIEB, assim como toda a sociedade organizada hoje, está atrás de respostas, mas para você ter respostas é preciso estar convicto de que estão dispostos a ouvir, que estão dispostos a realmente discutir o assunto. No cenário político atual não se encontra uma ambiência para discutir realmente os temas necessários a serem discutidos.
Bocão News: Quais são estes temas?
Ricardo Alban: Nós precisamos sentar e discutir o tamanho do Estado efetivamente. Está claro, com o ciclo de baixa da economia, que explodiu o ajuste fiscal. Se aumentar mais a carga tributária, vai causar ainda mais recessão e o “efeito dominó” continua e nós teremos nova explosão do ajuste fiscal. Então precisa-se realmente discutir não só o desperdício que existe hoje em toda a estrutura pública desse país, a ineficiência, mas também o tamanho dela. E quando eu digo tamanho eu não digo só Poder Executivo, é toda estrutura do Estado. Quer seja Executivo, quer seja Legislativo, quer seja Judiciário. Nós falamos mesmo de algumas culturas que são não só ineficientes ou improdutivas, mas também são culturas de um tempo passado, um tempo até, podemos dizer, da ditadura militar. Nós temos a estrutura de Legislativo que foi montada numa época onde o conceito era de uma ditadura militar. O terceiro senador surgiu por conta de uma decisão da ditadura militar. Então nós temos coisas que precisamos modernizar. O Brasil comporta um estado deste tamanho e um estado desse tamanho consegue ser eficiente? Consegue ser produtivo? Ou nós precisamos ajustar de um modo geral? Como é que nós vamos poder viabilizar o setor produtivo? A Indústria, que obviamente é algo que nos atinge mais, mas no mundo inteiro não existe uma economia sustentável, uma economia que se fortaleça de uma forma sustentável sem uma indústria forte. Como é que o Brasil passou esse ano inteiro perdendo participação na indústria? Isso até certo ponto é normal, mas é normal numa estrutura de economia onde você tem um forte incremento da terceirização. Você começa a desagregar um monte de indicadores que seriam naturalmente do setor industrial e passa a ser de um setor de prestação de serviços, mas no fundo esses números estão dando um suporte a um crescimento da industrialização, como é o exemplo dos Estados Unidos. Mas aqui não, aqui nós vamos perdendo espaço, não por uma terceirização, não por uma especialização de um outro serviço, que saiu de dentro do conjunto da indústria. E qual é o exemplo maior que podemos dar nisso ao longo dos anos? Nós saímos de uma balança comercial de produtos manufaturados e chegamos a “cento e poucos” bilhões de dólares negativos, quer dizer, todo o poder aquisitivo, que é uma verdade que foi dado a uma boa parte da população que migraram da classe E para classe D, da classe D pra classe C, até 2014, está se perdendo. Não foi a indústria brasileira que foi beneficiada com isso, toda essa migração, todo esse poder de consumo foi para as indústrias do mundo inteiro, menos para a brasileira.
Bocão News: Por que?
Ricardo Alban: Porque na balança comercial nós temos R$ 110 bilhões negativos. Por que a indústria não cresceu? Onde estão os resultados da indústria? Isso aí é uma série de deficiências, não podemos dizer que é uma só, que é falta de empreendedorismo, que é falta de capacidade na indústria brasileira. Não. São custos do Brasil, sua reforma que é necessária, como previdência, como a trabalhista. É preciso dar estrutura. Porque a empresa com setores tão claramente identificados com alguns defeitos estruturais que nós temos sempre criam sérios problemas. A aviação civil é um exemplo típico, a indústria de aviação no Brasil não consegue durar muito tempo por uma série de deficiências estruturais que nós temos, esse é um exemplo. Agora mesmo estamos no caminho inverso. O Nordeste, por exemplo, falando regionalmente, foi a região onde proporcionalmente a renda foi melhor distribuída neste período, quer seja por ações sociais, quer seja porque tinha uma população com uma demanda muito grande. Agora, o processo reverso é verdadeiro. Nós vamos sentir mais que o resto do país, em termos de Sul e Sudeste, nós vamos, provavelmente, ter um impacto negativo sobre a economia, com um subemprego maior que lá, que o que foi verdade para aproveitar a pujança, vai ser verdade para pegar esse momento de ciclo de dificuldade.
B. News: O que é preciso para mudar este eixo?
Ricardo Alban: Políticas regionais são fundamentais para que a gente possa ter um equilíbrio da IES (Instituições de Educação Superior), que é o movimento que nós iniciamos agora em março, então criamos a Associação dos Presidentes da Federação das Indústrias do Nordeste, que estão lá para poder pensar no Nordeste em conjunto e ter capacidade de reverberar melhor, de reivindicar o melhor, de mostrar os problemas comuns.
B. News: O que está segurando a ponteira da Indústria na Bahia? O que está segurando as contas? O que está conseguindo sobreviver diante disto? Desse cenário?
Ricardo Alban: Nós tivemos até, surpreendentemente, um comportamento bom da Indústria baiana, mas aqui não podemos olhar isoladamente, melhor que o resto do Brasil. No ano passado fomos menos prejudicados, ou seja, o resultado foi menos pior que a média nacional, eu acho que esse ano podemos repetir isso, pelas características. Primeiro que nós temos aqui o setor da celulose, que é um dos que podem dizer que vai muito bem. Tivemos perdas em termos mercadológicos, mas fomos favorecidos pela alta do dólar. A maior parte da indústria automobilística do país já tinha feito layoff e outra medidas anteriormente, nós vamos sofrer isso agora. Há perspectiva de recuperação. É óbvio que não a enxergamos no curto prazo, mas também temos plena convicção que é um ciclo. Ele pode ser mais longo ou mais curto dependendo de uma série de variáveis que estão potencializadas pela situação política que vivemos.
B.News: Dentro do conjunto das federações, temos a Fiesp que vem se posicionando de forma político-partidária e não podemos fugir deste assunto. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, vem fazendo campanha aberta pró-impeachment, mas quem está fora se pergunta qual é a posição e, se de fato, a federação baiana tem uma posição em relação a isso?
Ricardo Alban: A federação enquanto instituição não. Os empresários, cada um, tem o direito de ter a própria convicção, assim como cada cidadão. A Federação das Indústrias como instituição não pode e nem deve ter convicções político-partidárias. O impeachment é na verdade um julgamento político. O próprio STF diz claramente. É feito justamente pela Câmara e Senado. Neste julgamento político nós, institucionalmente, não entramos no mérito. A maioria das federações não se posiciona com relação a questões políticos-partidárias. A ambiência é a pior possível e o que nós nos preocupamos é: com impeachment ou sem impeachment como é que vai ficar a governabilidade? Como é que vamos fazer para construir um norte para tirarmos o país da crise? Precisamos e estamos focados na pergunta que é: como é que podemos contribuir e cobrar, na condição de atores proativos, no processo de ajuste institucional do país.
B.News: Como é que está a interlocução? É possível sobreviver diante da paralisia? Da inércia provocada por este ambiente político?
Ricardo Alban: Não temos interlocução. Não é possível sobreviver assim. Não temos uma resposta para isso neste momento. Nós sabemos que até que este processo seja resolvido nós não temos interlocução, não temos tomada de ação. Até a própria composição do governo está dinâmica. É preciso ter alguém que tome as decisões. É algo semelhante ao início da operação Lava Jato com a Petrobras. A Petrobras ficou numa inércia total na qual ninguém tomava decisão nenhuma. Se é justificável, até é, mas não se pode parar uma empresa como Petrobras. Ficou parada seis meses sem decisão nenhuma. Nós estamos num momento neste país onde não se tomam decisões estratégicas. Não existe uma ambiência política que apresente as condições. Nós vivemos num país que apesar de ser presidencialista tem uma série de características parlamentarista. Não se consegue ter um governo Executivo sem uma base parlamentar. Essa é uma incongruência do sistema que ficou meio hibrido na reforma da constituinte. Essa situação híbrida não consegue, neste momento, dar sustentação. Ai neste movimento aparecem pessoas que acreditam que o parlamentarismo traria as soluções, mas essa é a velha história do 'engenheiro das obras prontas'. Dizem que se fosse um primeiro ministro para trocar não seria tão complicado e, portanto, não teríamos esta convulsão. É verdade, mas nós também temos muitas características culturais nas quais muitas assertivas que são para parlamentarista também são verdadeiras para o presidencialismo. Nós ainda estamos no processo de amadurecimento.
B. News: Qual a estratégia neste contexto? já que a FIEB e CNI têm lugar de voz. O que está na agenda nacional e estadual?
Ricardo Alban: Está se apontando para uma decisão política. Cada minuto é uma novidade. Temos tido reuniões semanais na CNI (Confederação Nacional das indústrias). Mas temos ainda uma série de processos que estão correndo no STF (Supremo Tribunal Federal) que terão impacto político maiores ou menores somados a outras decisões que estão pendentes sobre o ministro da Casa Civil (Lula). Se sobe (para o STF) ou desce (para primeira instância). Tem uma série de decisões que fazem com que os quadros políticos possam mudar a cada instante. Decisões de mudanças de partido, de substituição de ministro. Nós não conseguimos mapear. O que se pretende é cobrar posições que o Brasil precisa encarar. Dar uma sustentabilidade para qualquer que seja a nova etapa que venha da decisão política, com ou sem impeachment. Esta é uma coisa que já está definida: as federações vão ter um papel totalmente proativo de cobrança de soluções. Isso começa assim que tivermos uma decisão política.
B. News: Mas estas decisões, de proatividade, se daria de que forma? Podemos destacar o que?
Ricardo Alban: As reformas previdenciária e administrativa, além de um projeto de desenvolvimento econômico, principalmente, com política industrial. Nós não temos uma política industrial. Nós estivemos com Armando Monteiro (ministro da Indústria) na semana passada tentando manter alguma agenda. Não podemos estar 100% parados. Reunimos na Bahia o Movimento Empresarial para Inovação. Discutindo, na semana passada, o que nós chamamos de manufatura avançada que é a Indústria 4.0. Isso faz a diferença no futuro. É fundamental. Enquanto Alemanha, Japão e EUA estão com este processo já ativo, nós estamos discutindo para poder padronizar a forma de conversar. Porque na hora que você tem fornecedores de empresas diferentes, com cada um desenvolvendo sua Tecnologia de Informação separadamente, é preciso criar uma forma deles conversarem. Estas coisas continuam andando, mas é lógico que estariam andando de forma mais intensa e tranquila se tivéssemos um ambiente político estável porque isso envolve ministérios. Tem representantes dos ministérios da Ciência e Tecnologia, da Indústria. Os técnicos estão trabalhando, mas as decisões envolvem um cenário político que precisa ser equilibrado.
B. News: Vindo para a Bahia, a Fieb está lançando a agenda legislativa e uma frente parlamentar na Assembleia Legislativa. Como estão estás duas pautas políticas da Fieb?
Ricardo Alban: Em maio lançaremos a Frente Parlamentar. São outras ações que também podem ser tiradas como boas lições que podemos extrair do processo da Lava Jato, além, é claro, de que a gente espera que possa ser feito um filtro nas relações não republicanas entre economia e governo, a Lava Jato também cria uma oportunidade para mostrar que a representação legal, as entidades de classe deverão ser mais efetivas e mais reconhecidas. Se nós tivéssemos uma relação normal, como nós temos uma CNI, na hora que tem representatividade e é ouvida, faz muito mais sentido ver as relações entre instituições para que possam fazer a defesa dos interesses de forma mais legitima. Até os próprios grupos empresariais, os maiores, que têm a sua estrutura própria, terão uma forma mais racional, prudente e inteligente de manter uma relação público-privada, sem riscos de ruídos, na hora em que se pode fazer isso através das instituições estabelecida ao invés de fazer de forma direta. Isso ajuda a blindar. Para tudo isso, é preciso fazer a relação institucional legal e a Frente Parlamentar é uma das possibilidades. Nós temos no Brasil inteiro as bancadas ruralistas e isso não é visto em nenhum momento como uma coisa ilegal, ilegítima. Existem bancadas que representam a indústria química, que representam outros setores como têxtil, pegando a experiência de outros estados vamos construir a da indústria na Bahia. Serão sete deputados que ficarão responsáveis por discutir as particularidades de sete setores. Cada um com um. Para entender e conhecer as particularidades. Tem setor de alimentos e bebidas, construção civil, são as coordenações. A ideia é que um parlamentar tenha condições de se aprofundar em determinado segmento e discutir legitimamente estes assuntos.
B. News: Não dá para confundir isso com Lobby, nem com outro tipo de relação como a que havia com o financiamento de campanha?
Ricardo Alban: Não. É uma comissão estritamente institucional composta por deputados. Tendo na interlocução uma entidade que representa o setor industrial e não as empresas. Obviamente, que na nossa entidade não existe financiamento de campanha e, portanto, não tem como relacionar isso.
B. News: Para concluir, qual é horizonte?
Nós temos caminhos complicados pela frente. Seja impeachment, seja pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Os cientistas políticos que ouvimos entendem que até maio ou junho o caminho do impeachment deve estar resolvido. Via TSE não se sabe, pois tem outros trâmites e tempo. O que nós entendemos é que não se pode criar uma convulsão para dividir de vez o país. Estamos falando de uma nação e que precisaremos voltar a dialogar. Não podemos estimular as rivalidades. Esta é uma posição que dá para tomar. É preciso resolver isso com urgência. A única definição que nós temos, enquanto indústria, é que não podemos mais postergar esta decisão. Precisamos de uma solução. Qualquer que seja esta decisão, as confederações e federações serão cobradoras de atitudes, de ações que precisam ser tomadas. Este é o problema. Como que vai ser para organizar as agendas com um governo com as relações políticas fragilizadas? Como é que vão se tomar decisões? Dizem que nas crises mais críticas é que se tomam as decisões mais difíceis, nós precisamos de lideranças e precisamos ações. De fato, sempre se pode piorar, mas também sempre é possível melhorar.