Economia & Mercado
Publicado em 29/08/2026, às 15h04 - Atualizado às 16h17 Divulgação Henrique Brinco e Rafaela Kalil
O processo de reestruturação das Casas Bahia mudou a rotina de centenas de trabalhadores em Salvador. Com o fechamento de 12 lojas da rede na capital baiana, vieram os desligamentos. E, para muitos funcionários, a notícia chegou de forma inesperada.
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Durante um ato organizado para cobrar posicionamento e o pagamento de direitos trabalhistas, o BNews ouviu relatos de incerteza e desespero. O ex-funcionário Moisés Teles relatou a surpresa ao ser comunicado sobre o fim do contrato de trabalho.
"A Casas Bahia falhou muito com o trabalhador. É um desrespeito. Não quer conversar com o trabalhador, simplesmente bota uma I.A. [Inteligência Artificial] para falar, nada de aviso, estamos até hoje sem saber o que vai ser do próximo mês."
A onda de demissões atingiu inclusive colaboradores afastados por licença médica. Natalie Ferreira contou que havia sofrido um acidente no percurso para o trabalho e foi desligada logo após retornar do período de atestado:
"Sempre fui dedicada, a gente sempre vendia R$ 200 mil, R$ 300 mil, mais de R$ 30 mil de serviço. Resumindo: nós não tivemos nenhum suporte e nem abriram meu CAT. Estou desamparada até hoje, sem dormir direito, chorando todos os dias porque a gente não queria passar por uma situação dessa, colocar nosso rosto na televisão, mas infelizmente estamos pedindo socorro."
A conduta da empresa e o modo como as rescisões foram conduzidas provocaram forte revolta entre os manifestantes. Para Deividson Nery, faltou consideração com o histórico da equipe:
"A gente sai hoje da empresa sem direito a nada. Nossos direitos trabalhistas a gente não vai receber e vai nessa ação judicial junto ao que a empresa está pedindo. Então hoje é o momento de a gente se expor aqui para poder pedir que pelo menos a gente receba a nossa rescisão."
Já Murilo Gomes se dedicou nove anos à rede varejista, um período em que ele diz ter vestido a camisa da empresa com orgulho.
"Eu fui feliz na empresa. Realmente a gente ostentava o nome com orgulho, trabalhar na Casas Bahia. Só que com um cenário desse que a gente está vendo aqui, não tem como mais sentir orgulho do tempo que a gente representou a empresa. Eu tenho falado, acionado o presidente, o CEO, seu Renato [Franklin]. Cadê o senhor, seu Renato? Nas reuniões estava bem pomposo, era o presida, estava bonitão... agora, para arquitetar um plano desse para humilhar os funcionários? É esse o legado que o senhor quer deixar?", lamentou.
Histórias de dedicação de longo prazo interrompidas bruscamente repetem-se entre os relatos. João Carlos Fortunato contou que abriu mão de momentos em família pela rotina profissional e que foi pego de surpresa enquanto se preparava para tirar férias.
"Me demitiram e não me falaram nada. Eu estava numa festa onde eles mandaram voltar para a loja para poder assinar minha demissão, dizendo que ia pagar tudo para mim. Hoje eu estou com a mão atada. Tenho pensão para pagar, filho para dar alimentação. Peço que a juíza que está com o nosso processo em mãos pense na gente, pense no trabalhador", apela.
Além do baque financeiro imediato, a perda do emprego impôs desafios críticos a mães solo, como Nusa Gomes, demitida após seis anos de empresa.
"Dia 5 é logo ali, as contas não querem saber, têm que ser pagas. Se foi feita uma dívida, ela tem que ser cumprida. A gente fica perdido, eu mesma particularmente estou sem dormir porque a nossa mente fica acelerada. Eu sou mãe solo, é você para tudo, e hoje eu não tenho norte", destaca ela.
Com 12 anos de casa, Josiane Rodrigues questionou a falta de amparo em relação ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) dos demitidos.
"É muito fácil eles pedirem para a gente esperar, onde eles têm lugar para sentar na hora de esperar. Tem muitos pais de família, mães de família aqui que perderam 16, 11, 10 anos de empresa que já gastaram seu FGTS, já utilizaram para seu financiamento, empréstimos ou saque-aniversário, e hoje não têm o FGTS deles."
As histórias são diferentes, mas tem um ponto em comum. Trabalhadores que construíram suas trajetórias dentro da empresa e que agora precisam reorganizar a vida depois de uma demissão inesperada.
A manifestação foi organizada pelo Sindicato dos Comerciários de Salvador, que cobra um posicionamento adequado da empresa. O sindicato também questiona a forma como os desligamentos foram conduzidos e busca uma negociação para garantir os direitos da categoria.
"Imagine vocês alguém chegar para trabalhar, não, você tá sendo demitido, sem um prévio aviso que foram uma demissão em massa. Essas demissões teria que ser convocado, comunicado ao sindicato dos comerciários, ser comunicado aos trabalhadores, mas não foi tudo instantâneo", ressalta Renato Ezequiel, presidente do sindicato.
Enquanto a disputa segue na justiça, os trabalhadores esperam por uma resposta que vai muito além da volta ao emprego. Para eles, o que está em jogo agora é a possibilidade de manter as famílias, pagar as contas e reconstruir uma rotina interrompida de uma hora para outra.