Economia & Mercado
Publicado em 26/08/2026, às 06h28 Unsplash / Ilustrativa Redação Bnews
A crise financeira de R$ 54 bilhões que levou a Braskem para a recuperação extrajudicial pode chegar ao bolso dos brasileiros caso a petroquímica reduza a produção de resinas usadas na fabricação de embalagens, sacolas, tubos, autopeças e outros produtos de plástico.
Com menos matéria-prima produzida no país, a indústria pode precisar recorrer mais às importações, ficando mais exposta ao dólar, ao frete internacional, às tarifas e aos prazos de entrega. A informação é do Uol.
A Braskem está na base da cadeia industrial brasileira e é a única produtora nacional de algumas das principais resinas utilizadas pela indústria do plástico.
A empresa produz polietileno, polipropileno e PVC. O polietileno é usado em produtos como sacolas e embalagens de alimentos. O polipropileno aparece em autopeças e embalagens. Já o PVC é utilizado, entre outras aplicações, em tubos e materiais de construção.
Uma redução relevante na produção pode obrigar as fábricas brasileiras a buscar esses insumos no exterior.
"Uma redução relevante da oferta doméstica de resinas poderia aumentar a exposição da indústria brasileira às importações, ao câmbio e pressionar ainda mais os consumidores", diz o economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor de Administração da ESPM, ao Uol.
A troca da resina produzida no Brasil por matéria-prima importada pode aumentar o custo de fabricação dos produtos que utilizam o plástico.
Mesmo que as resinas nacionais sigam referências internacionais de preços, a produção dentro do país reduz a necessidade de trazer o material do exterior. Com isso, a indústria fica menos exposta a custos como frete internacional, variação cambial, tarifas e prazos de entrega.
"Um fornecedor 100% estrangeiro repassa integralmente frete, câmbio e tarifas, retirando esse colchão de estabilidade", diz Eric Gil Dantas, economista do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais), ao portal. "O impacto mais relevante, porém, é estrutural."
Segundo a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), cada R$ 1 milhão de produção química gera 15 novos empregos e R$ 960 mil de Produto Interno Bruto (PIB) na economia.
Apesar do risco de aumento dos custos, a concorrência internacional pode limitar o impacto sobre a inflação.
A China vem aumentando a oferta de resinas no mercado global e praticando preços agressivos. Para Júlio Moretti, presidente da consultoria NEOT, isso pode ajudar a conter parte do repasse de custos caso a Braskem diminua o ritmo de produção.
Moretti concorda que os preços podem subir com o aumento da demanda, mas avalia que a crise da Braskem não tem "a capacidade, de forma isolada, de pressionar a inflação neste momento".
O problema pode aparecer caso as empresas comecem a formar estoques por medo de uma falta de matéria-prima.
O mercado externo tem capacidade para abastecer o Brasil com produtos vindos da Colômbia e da Ásia. Uma corrida desorganizada para garantir estoques, porém, pode elevar os preços.
Esse temor funciona como um "gatilho" para os negócios, segundo Moretti. "A percepção da ausência de substitutos viáveis pode levar os compradores a buscar garantir seus estoques (...), uma corrida que pode, sim, impactar o setor", afirma.
Uma eventual interrupção das atividades da Braskem também poderia provocar problemas temporários de abastecimento.
"Não existe concorrente nacional para absorver uma eventual redução de produção. Qualquer volume que deixe de sair das suas plantas só pode ser reposto por importação", lembra Dantas, ex-membro do Observatório Social Petrobras.
A situação ocorre em um momento em que a Braskem já perdeu espaço para produtos estrangeiros no mercado brasileiro.
A companhia historicamente controlava entre 70% e 75% do mercado nacional de resinas plásticas, segundo relatórios enviados à CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Nos últimos anos, porém, as importações ganharam espaço e chegaram a 46% de participação. A fatia da Braskem caiu para cerca de 49%, segundo dados da Abiquim.
No quarto trimestre do ano passado, a participação da empresa especificamente no mercado de polietileno era de 43%, de acordo com relatório da XP Investimentos.
Um dos principais concorrentes da indústria brasileira são os Estados Unidos, que conseguem produzir plástico a custos menores.
Enquanto a indústria brasileira e europeia utiliza a nafta, derivado de petróleo, como matéria-prima, as companhias americanas usam gás natural, principalmente etano. Esse modelo permite produzir eteno a custos menores.
A produção baseada em nafta custa entre US$ 200 e US$ 380 a mais por tonelada de plástico em comparação com as fábricas americanas.
Os Estados Unidos também ampliaram a oferta de etano nos últimos anos para fabricar plásticos. O volume passou de 1 milhão de barris por dia em 2012 para uma média de 2,8 milhões em 2024, segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA).
A indústria brasileira também sente os efeitos da mudança no mercado chinês.
Antes importadora, a China passou a produzir polipropileno e polietileno em grande escala. Em 2020, o país importou 6,1 milhões de toneladas de polipropileno. No fim de 2025, foram 300 mil toneladas.
As importações chinesas de polietileno de alta densidade também recuaram, de 9 milhões para 2,6 milhões de toneladas no mesmo período, segundo dados da ICIS (Independent Commodity Intelligence Services).
Como o mercado interno chinês não cresceu no mesmo ritmo da produção, as petroquímicas passaram a vender os excedentes para outros países.
A China deve exportar até 4 milhões de toneladas de polipropileno neste ano, aumentando a pressão sobre os preços do insumo no mercado internacional.
Na Ásia, o preço chegou às menores médias em 18 anos, segundo a DCE (Dalian Commodity Exchange).
Com os preços pressionados, petroquímicas que produzem a custos maiores, como a Braskem, têm as margens de lucro reduzidas, o que pressiona o caixa da companhia.
Para tentar proteger a produção nacional da concorrência desleal, o Brasil aplica tarifas antidumping sobre algumas resinas importadas.
Os alvos são produtos dos Estados Unidos, com tarifa de 43,7%; da China, com 21%; e do Canadá, com 8,2%.
"Se houver um colapso na Braskem, o governo teria que abrir mão deste recurso para facilitar a importação", afirma Dantas, que defende a necessidade de salvar a produção nacional.
"Mais do que discutir atratividade para capital estrangeiro, o que está em jogo é a manutenção de um setor que já vive um processo de desindustrialização."