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Gil Gomes: O jornalista que transformou o noticiário policial em espetáculo e entrou para a história da TV

Descubra como Gil Gomes se tornou um ícone da crônica policial com seu estilo único e marcante na Rádio e TV brasileira  |  Reprodução

Publicado em 16/10/2026, às 06h30   Reprodução   Cauan Borges

Criador do icônico bordão “Aqui, agora!”, Cândido Gil Gomes Júnior, conhecido como Gil Gomes, foi um dos principais nomes da crônica policial brasileira. Com voz grave, pausas dramáticas e gestos marcantes, o jornalista desenvolveu um estilo próprio de narrar crimes e conquistou o público no rádio e na televisão. 

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A atuação do repórter no programa “Aqui Agora”, do SBT, na década de 1990, transformou o comunicador em uma figura popular em todo o país. Gil morreu em 16 de outubro de 2018, aos 78 anos, no Hospital São Paulo, na capital paulista, em decorrência de complicações de um câncer. 

Se você agir com dignidade, pode não consertar o mundo, mas tenha certeza de uma coisa: na Terra haverá sempre um canalha a menos!" – famosa frase encerramento no rádio criada por Gil.

Nascido em 1940, em Sorocaba, no interior de São Paulo, Gil enfrentou uma forte gagueira durante a infância e a adolescência. Para superar a dificuldade na fala, começou a imitar as narrações rápidas dos locutores esportivos que ouvia no rádio. O exercício contribuiu para desenvolver sua fluência e sua habilidade vocal. 

Aos 18 anos, após realizar locuções em quermesses de igreja, conseguiu o primeiro emprego profissional na Rádio Progresso, como locutor esportivo. A experiência inicial abriu caminho para uma carreira que passaria por diferentes emissoras e gêneros jornalísticos.

A entrada no jornalismo policial aconteceu em 1968, na Rádio Marconi. Na época, Gil trabalhava com reportagens de assuntos variados e realizava uma entrevista política quando soube de um caso de agressão sexual no prédio da emissora. O jornalista interrompeu a atividade e foi até o local para acompanhar o episódio e ouvir as pessoas envolvidas. 

A cobertura provocou uma reação expressiva dos ouvintes, que telefonaram para a rádio em busca de mais informações. O episódio mudou os rumos de sua carreira e o aproximou definitivamente da crônica policial. Anos depois, Gil recordaria que, antes de entrar nesse universo, associava a cobertura de crimes a algo que não desejava fazer. 

Jornalista Gil Gomes - Foto: Reprodução / Redes Sociais - SBT
Jornalista Gil Gomes - Foto: Reprodução / Redes Sociais - SBT
Jornalista Gil Gomes - Foto: Reprodução / Redes Sociais - SBT
Jornalista Gil Gomes - Foto: Reprodução / Redes Sociais
Jornalista Gil Gomes - Foto: Reprodução / Redes Sociais
Jornalista Gil Gomes - Foto: Reprodução / Redes Sociais

Uma voz inconfundível

Nas décadas de 1970 e 1980, Gil Gomes alcançou grande audiência no rádio, especialmente na Rádio Record. Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em 1983, o jornalista relatou que seu programa começava diariamente às 8h, após o encerramento da atração de Zé Bettio.

Na época, a transmissão chegava a pouco mais de um milhão de ouvintes na cidade de São Paulo. A abertura era marcada por uma pausa antes do cumprimento “Bom dia!”, recurso que ajudava a criar expectativa e se tornou parte de sua identidade profissional. 

A maneira de contar histórias combinava voz grave e arrastada, pausas prolongadas, repetições e mudanças de entonação. Em vez de apresentar os acontecimentos de forma linear, Gil reconstruía as cenas e conduzia o ouvinte pelos detalhes das ocorrências.

O suspense era parte central da narrativa, assim como a linguagem popular e a interpretação dos personagens envolvidos. Além de relatar crimes, recebia denúncias e cartas de ouvintes, que recorriam ao jornalista para expor situações de violência e injustiça.

Entre os episódios marcantes de sua carreira está a entrevista com João Acácio Pereira da Costa, conhecido como Bandido da Luz Vermelha, depois que o criminoso deixou a prisão, em 1997, após cerca de 30 anos encarcerado. 

O caso ganhou atenção nacional por causa da notoriedade que João Acácio havia adquirido nos anos 1960. Gil também cobriu episódios ligados à violência urbana e, já na televisão, esteve no Carandiru cerca de um mês após o massacre de 1992, mostrando vestígios do local. 

Assista:

O sucesso na televisão

Em 1991, Gil Gomes integrou a equipe do “Aqui Agora”, telejornal popular do SBT que apostava em reportagens externas, flagrantes, denúncias e histórias do cotidiano. Ao lado de nomes como Sônia Abrão, Celso Russomanno, Wagner Montes e Jacinto Figueira Júnior, o jornalista participou de uma atração que conquistou espaço na televisão brasileira ao aproximar o noticiário de uma linguagem mais direta e popular. O programa chegou a ter duas edições diárias e permaneceu no ar até 1997. 

Na televisão, Gil levou para as telas a dramaticidade que havia desenvolvido no rádio. As camisas de estampas coloridas, a voz inconfundível e o movimento circular que fazia com a mão enquanto segurava o microfone se tornaram marcas registradas. 

O gestual acompanhava a narrativa e ajudava a construir a tensão das reportagens. A presença era tão característica que passou a ser imitada por humoristas e incorporada ao repertório da cultura popular brasileira.

Após o fim de sua passagem pelo SBT, Gil trabalhou no programa “Mulheres”, da TV Gazeta, em 1998. No ano seguinte, participou da "Escolinha do Barulho", da Record, como professor, explorando uma faceta humorística distante da imagem de repórter policial. 

Entre 2004 e 2005, apresentou o “Repórter Cidadão”, na RedeTV!, retornando ao formato policial. Ao longo da carreira, também passou por outras emissoras e manteve sua atuação no rádio, onde havia construído grande parte de sua reputação.

Legado e controvérsias

Gil Gomes ajudou a consolidar uma linguagem popular de jornalismo policial na televisão brasileira, baseada em reportagens de rua, contato direto com personagens e narrativas de forte apelo emocional. A trajetória do repórter atravessou um período de expansão dos programas que levavam crimes e problemas urbanos para o centro da programação televisiva.

Entretanto, o estilo de Gil também esteve associado a críticas sobre o sensacionalismo. A dramatização de crimes e o uso do suspense levantavam questionamentos sobre os limites entre informar e transformar a violência em espetáculo. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 1983, Gil falou sobre ameaças relacionadas à cobertura de criminosos e grupos envolvidos em atividades ilegais. 

Na mesma conversa, declarou oposição à pena de morte e afirmou que era contrário à atuação de grupos de extermínio, apesar de reconhecer o impacto que esses grupos exerciam sobre a criminalidade. As declarações mostram que sua atuação não se limitava à encenação das histórias, incluindo também posicionamentos sobre segurança pública e violência. 

Assista:

Os últimos anos

Diagnosticado com doença de Parkinson em 2005, Gil Gomes precisou reduzir progressivamente suas atividades profissionais e ficou afastado da televisão por mais de uma década. Em 2014, participou do “Domingo Show”, da Record, apresentado por Geraldo Luís, e se emocionou ao recordar momentos marcantes da carreira. 

Em 2016, voltou a trabalhar como comentarista em um programa ligado à TV Ultrafarma. Na ocasião, afirmou que a oportunidade havia recuperado parte de seu entusiasmo e de sua vontade de trabalhar. 

Na noite de 15 de outubro de 2018, Gil passou mal em casa, na Zona Sul de São Paulo, e foi socorrido por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O repórter foi levado ao Hospital São Paulo, onde morreu na madrugada do dia seguinte. O jornalista deixou quatro filhos e nove netos. 

É uma pessoa única para a comunicação. Sempre muito indignado com as injustiças sociais. Era muito considerado desde os delegados até as classes mais humildes”, disse Vilma Gil Gomes, filha do comunicador. 

Assista:

Classificação Indicativa: Livre


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