O secretário César Nunes ingressou nos quadros da Polícia Federal em 1973, como agente. Trabalhou em Belém do Pará, Ilhéus e Salvador. Após formar-se em Direito, fez concurso para delegado. Na nova função, atuou em várias capitais, na fronteira, foi chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Superintendência da PF na Bahia por dez anos. Foi Adido Policial na Colômbia, junto à Embaixada do Brasil naquele país, e superintendente da PF na Bahia e Sergipe. Em 2008, substituiu o colega Paulo Bezerra na Secretaria da Segurança Pública.
Qual o quadro da Segurança Pública na Bahia hoje?
Eu diria que, ao contrário das críticas, a Bahia tem hoje uma presença forte da ação governamental no quadro da segurança pública. Mas sabemos que a violência é gerada por diversos fatores, como a exclusão social, um campo fértil para o tráfico e formação do crime organizado. Com isso não estamos justificando a situação, mas a verdade é que não vamos tirar a solução da cartola. O combate à violência não requer apenas atos policiais. É preciso uma ação efetiva de políticas sociais capazes de reduzir a exclusão social. Associada a questão da exclusão, temos o fenômeno do crack que é reflexo do cenário internacional, uma praga social, uma droga barata e altamente viciante, com grande oferta. E pior, cujo tráfico é miserável, gerando uma disputa de poder grande, o que aumenta a violência.
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Diante desta constatação, o que tem sido feito para combater o crack?
O governo não se acovardou nem ficou refém das grandes quadrilhas. Melhoramos o combate ao narcotráfico e temos atuado na desarticulação de quadrilhas com a prisão de chefes do tráfico, como Cláudio Campanha e Perna, que foram transferidos para presídios federais, dificultando assim a comunicação com os membros das gangues. Os investimentos em inteligência tem nos permitido identificar e combater o crime organizado. Não estamos dando trégua a traficantes, assaltantes de banco, enfim. Somente este ano, investimos mais de R$ 4 milhões em inteligência.
Mas parece que essas ações ainda não chegaram à população que continua se sentindo insegura, alvo da ação de bandidos em ônibus, bancos, na rua. As queixas são grandes.
Quem diz isso? Dados mostram a redução dos pequenos crimes. O número de ocorrências de assaltos a ônibus foi reduzido a quase a zero. Também reduzimos os índices de crime contra o patrimônio. As estatísticas são reais. Reforçamos o policiamento nas ruas com a implantação da ronda nos bairros. Temos investido em equipamentos de segurança. O olho da Secretaria de Segurança Pública está nos locais de maior concentração de ocorrências...
Então o senhor diria que a Secretaria vem dando maior atenção aos bairros populares?
A Secretaria tem estado presente em todo o estado, mas não negamos que as áreas de maior concentração e risco, com maior número de ocorrências tem recebido mais atenção. Estamos recompondo todo o efetivo policial. Aumentamos o da Polícia Militar em mais seis mil homens. Quando assumimos eram 27 mil PM, ampliamos para 33 mil. Concluímos dois concursos - de 1997 e de 2001- o que permitiu a contratação de 600 policiais civis. Adquirimos 1,8 mil novos veículos e mais um helicóptero para o Grupamento Aéreo da Polícia Militar, aumentando para três a frota aérea da polícia. Estamos comprando também um avião. Implantamos a delegacia digital.
Esse é todo o planejamento estratégico para a área da segurança pública?
Não. Estamos criando 22 centros de comunicação, dos quais dez já estão em funcionamento. Compramos mais de 1,2 mil rádios ligados ao sistema tetra de comunicação, que é o mais avançado do mundo, e que está instalado em Salvador e Região Metropolitana. São rádios com GPS que facilita a localização das patrulhas. Estamos adquirindo também 225 Blackberry (referência ao smartphone) para consultas de todos os dados de identificação dos indivíduos, inclusive antecedentes criminais e fotos com informações divulgadas em rede. Investimos em capacitação, comunicação, tecnologia, equipamentos de segurança pessoal, armamento, enfim, estamos qualificando nossa polícia. Aumentamos o poder de fogo da polícia, com a aquisição de armas mais modernas e em maior quantidade, viaturas, coletes à prova de bala.
Mas o senhor há de concordar que por mais que se faça nesse setor, nunca é o suficiente. Pelo contrário, diante da dimensão da problemática, sempre haverá queixas.
É evidente. Temos consciência da real situação, mas não concordo com as críticas de que não temos melhorado o sistema de segurança do estado. Estamos operacionalizando nossas metas para melhorar cada vez mais. Eu diria que, desde que assumimos a secretaria, nunca se investiu tanto no setor quanto agora. E não temos intenção de parar.
O senhor tem destacado os investimentos em inteligência e tecnologia. Aí vem o questionamento se os nossos agentes, a maioria com baixo nível até mesmo de escolaridade, estão preparados para acompanhar esses avanços. Esses investimentos não são inúteis diante de profissionais despreparados e incapacitados para utilizá-los?
Concordo que seriam inúteis se não estivéssemos preocupados com essa questão. Ao tempo em que investimos em tecnologia, equipamentos modernos, inteligência, estamos também investindo na capacitação do nosso pessoal. Precisamos ter policiais preparados.
Há uma crítica de que, pelo fato de o senhor ter vindo dos quadros da Polícia Federal, uma polícia mais de elite e que tem foco para o combate de outros tipos de crime, não o crime comum, o senhor não estaria preparado para comandar a secretaria.
O tráfico de drogas não é um crime comum? Por mais de dez anos fui chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal. Há quase 30 anos estou no combate ao tráfico. Tenho experiência em operações internacionais contra o narcotráfico. Fui adido policial na Colômbia, junto à Embaixada do Brasil naquele país, superintendente da PF aqui (na Bahia) e Sergipe. Não estou preparado para exercer a atividade de secretário, não sei o que é combater o crime?
O pessoal da polícia baiana é de péssima qualidade. Dos delegados aos agentes, são policiais, na sua maioria, despreparados, desmotivados, sem educação, que não sabem tratar o cidadão, que se acham verdadeiras autoridades. O que está sendo feito para mudar essa realidade?
Concordo, mas estamos cuidando disso também. Aprovamos a lei dos auxiliares administrativos e vamos utilizar a mão de obra jovem, qualificada, para o atendimento do cidadão nas delegacias e no serviço 190. Vão funcionar como uma espécie de “cartão de visitas” da polícia. O primeiro contato será com eles. Vamos prepará-los para esse primeiro atendimento. Apostamos na renovação dos quadros para melhorar a qualidade do nosso pessoal.
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