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Delegado Napoleão traça um panorama da criminalidade na Ilha de Itaparica

Delegado Napoleão traça um panorama da criminalidade na Ilha de Itaparica  |  

Publicado em 22/03/2012, às 00h00      Rafael Albuquerque




Com sete anos dentro da Polícia Civil, o delegado Djalma Napoleão, titular da 19ª Delegacia de Polícia, na Ilha de Itaparica, tem experiência de sobra. Com passagem nas cidades de Wagner, Itaberaba, Itacaré e na capital baiana, Napoleão, agora comandando a delegacia de Itaparica (território que vai de Bom Despacho à sede de Itaparica), detalha nesta entrevista ao Bocão News as dificuldades enfrentadas difícil processo de combate ao crime. Com posicionamento firme, ele defende a redução da maior idade penal e diz: "Todo mundo fala, e fala com propriedade, que os problemas decorrem basicamente da questão da droga, que é uma doença crônica social e de difícil solução. E no entanto tem solução. Basta que haja vontade de fazer". Confira abaixo a entrevista na íntegra:


Bocão News: Delegado, quanto tempo de polícia?
Djalma Napoleão: Já tenho sete anos. Minha primeira cidade foi Wagner, na região da Chapada Diamantina, depois fui para Itaberaba e de lá, depois de uma ação bem-sucedida com relação ao combate ao tráfico de drogas, eu fui convidado pelo então secretário Sá, para fazer uma experiência em Itacaré, onde eu passei dois anos. Lá, graças a Deus, fizemos um trabalho muito bacana. Como legado temos a amizade com a parte boa da sociedade de Itacaré. Depois eu vim para Salvador, para a Delegacia de Repressão ao Estelionato e Outras Fraudes e, um ano depois, fui para a Delegacia de Furtos e Roubos, na Baixa do Fiscal. Depois fui para a Ilha de Itaparica, em fevereiro. Quem entrar na polícia e não passar pela Furtos e Roubos é como se você fosse advogado e não tivesse passado pela faculdade.


BN: E por que isso?
DN: Porque é uma delegacia onde você experimenta os sabores mais variados da atividade policial. Você atende lá desde uma pessoa que tomou inúmeras mordidas resistindo a um meliante que queria roubar seu celular até uma ocorrência onde levaram R$ 16 milhões. É uma coisa muito louca, por isso é bom de fazer. Mas só serve para quem gosta de fazer mesmo, pois você não está lá por salário nem por sobrevivência, é por amor.


BN:Como o senhor analisa trabalhar em uma delegacia onde se resolve desde casos grandes até uma simples briga de vizinho?
DN: Eu vou te dizer uma coisa importante: jamais repita a expressão “simples briga de vizinho”. Talvez a pior das brigas é com o vizinho, em especial se seu imóvel é próprio, pois será para sempre.  Agora, tem coisas muito curiosas que se passam em uma delegacia.


BN: Fale sobre algum momento curioso que o senhor passou na polícia.
DN: Ainda na Furtos e Roubos, quando eu ainda era plantonista, estava na porta da delegacia esperando minha esposa e chegou uma mulher toda arrebentada, vítima de pauladas dadas pelo marido. E eu, como humanista que sou, dispensei minha mulher e fui diligenciar e prender o agressor. Depois de algumas horas, por volta das 6h30, eu já estava saindo para ir pra casa e encontrei a mesma cidadã que havia me pedido socorro deitada no chão da delegacia. Curiosamente, quando me viu ela disse: “Vou denunciar em Bocão que você prendeu meu marido”. Essa caso é bastante emblemático e se passa todos os dias.


BN: Qual panorama o senhor já pode traçar da Ilha de Itaparica?
DN: A Ilha é um paraíso e assim deveria continuar se a gente tivesse o cuidado que ela merece. Mas a sociedade baiana está muito desgastada. Todo mundo fala, e fala com propriedade, que os problemas decorrem basicamente da questão da droga, que é uma doença crônica social e de difícil solução. E no entanto tem solução. Basta que haja vontade de fazer.


BN: Mas por que esse aumento na criminalidade?
DN: Eu costumo dizer que algumas pessoas abraçam o crime por opção. Outras o fazem mesmo por falta de opção. Mas independente de qualquer coisa, o policial, o operador do direito precisa ter cuidado, precisa tratar com respeito a pessoa humana. Tem que ter o cuidado com a integridade do preso, tratar com dignidade, com humanidade e respeito. Eu tive oportunidades interessantes de atestar que isso traz um retorno bem positivo. Em dezembro passado, no dia 23, eu recebi uma ligação de um cara do presídio dizendo que era Wellington. Eu não o conhecia e achei que era funcionário do presídio. Ele disse: “Não doutor, aqui é Dunga. O senhor que me prendeu”. Ele e a turma gritaram me desejando um feliz Natal.


BN: Então, o senhor busca desmistificar a imagem sisuda que as pessoas têm da delegacia e do delegado? 
DN: Ah, não tenha dúvida. Eu faço questão disso. Para você ter ideia eu me emociono com beijo de novela. E eu não me arrependo de nada disso. Sei que pode acontecer no futuro um problema com esse delegado aqui, mas certamente será um acidente de percurso. Um colega meu, por exemplo, perguntou como eu estava, e eu disse que estava tentando fazer polícia com amor. Ele disse que isso era coisa de homossexual. Mas o detalhe é que esse colega perdeu um filho recentemente com tiros basicamente na cabeça, em execução.


BN: Quais as principais ocorrências na Ilha de Itaparica?
DN: Na verdade, eu cheguei no meio de uma crise (a greve da PM) e em véspera de outra cise (o carnaval). Por conta disso, fiquei um tempo sem poder resolver muita coisa, principalmente do ponto de vista da logística da estrutura da delegacia. Mas, como não dava pra resolver isso internamente, saímos e prendemos três meliantes que eram contumazes em assaltos e roubos a casas de veranistas. Mas agora vamos começar a entrar na fase que dará um pouco mais de trabalho. Apesar de que durante nossa presença nesses 51 dias em Itaparica, você já percebe um clima mais tranquilo, mais ameno. O perfil do delegado que vai à comunidade, que se relaciona com os munícipes, que chora com beijo de novela, isso de certa forma facilitou algumas informações e com isso podemos atuar com mais eficiência em alguns lugares.


BN: Tem algum exemplo específico disso?
DN: Há um lugar chamado Marcelino, que era tido como um lugar onde havia alta rotatividade de drogas, onde o tráfico rolava solto. Recentemente uma senhora da comunidade veio me dizer na delegacia que Marcelino não é o mesmo desde que chegamos lá. E lá especificamente não prendemos ninguém, mas estamos fazendo rondas.


BN: Qual o efetivo da delegacia da ilha de Itaparica?
DN: São aproximadamente 30 pessoas entre administrativo e plantão. No SI temos quatro pessoas e estamos esperando mais quatro. Mas o número é muito relativo. Quando eu cheguei em Itaparica, eu fiz um trabalho pra sensibilizar meus colegas investigadores. Eu coloquei logo o número de meu telefone bem grande na recepção para que todos soubessem que eu não queria filtragem.


BN: O senhor já está planejando algum tipo de trabalho de inteligência para executar na Ilha de Itaparica?
DN: Como eu cheguei em meios a duas crises e o trabalho está apenas começando, ainda não está pronto. Mas como eu te disse, quando eu cheguei eu fui muito para a rua. Eu já encaminhei as conversações à Secretaria. Agora vou dar andamento, mas já está traçado em minha cabeça. Não há nada de mirabolante.


BN: Mas qual o foco desse planejamento?
DN: Drogas e arrombamentos serão as duas vertentes em que trabalharemos pesado.


BN: Delegado, trace um paralelo do trabalho que o senhor desenvolveu em Salvador e do trabalho na Ilha.
DN: Em Salvador eu não tive oportunidade de exercer uma titularidade. Considero muito mais trabalhosa a missão do titular porque além de ser delegado é um gestor. Em Itaparica, daqui a mais um ano, eu certamente estarei um pouco mais cansado do que se em Salvador eu estivesse como adjunto. É fato que as responsabilidades recaem sobre os titulares. Mas missão dada, companheiro, é missão cumprida. Então, nada me mete medo nessa vida a não ser os castigos de Deus e a língua da sogra (risos).


BN: Mas o senhor não teme que crimes como saidinha bancária, assalto a bancos e arrombamento de caixas eletrônicos migrem de grandes centros como Salvador para cidades menores como Itaparica?
DN: Temos não é um sentimento que permeia meu cotidiano. O fato é que ao mesmo tempo que a ilha é um bom lugar pra se esconder, talvez pra uma fuga rápida não seja um bom lugar. Então, tem crimes com determinadas características que na Ilha não vão pegar nunca, não vão criar raiz. Até porque lá o número de agências bancárias é menos e as pessoas que residem na Ilha não sacam grandes quantias.


BN: Como a Polícia Civil enfrentou a greve da PM, que acabou interferido em toda a estrutura da segurança pública na Bahia?
DN: Olha, eu vou falar sobre isso de uma forma muito acelerada, pois penso que cada categoria que acha que tem que fazer um movimento tem todo o direito. Eu quero que fique muito claro que não tenho opinião formada sobre essa greve. Apenas acho que toda categoria tem o direito. Agora, saber se houve excesso ou se os homicídios aumentaram por causa da greve já é outra coisa, é com a Homicídios.


BN: O senhor acha que atualmente na segurança pública da Bahia se trabalha mais a inteligência do que somente a execução de ações?
DN: Eu acho que a grande pegada do nosso staff é que está se valendo da tecnologia que dispomos, evitando rodeios. Vamos direto ao cerne.


BN: O que o senhor acha da demora na aprovação da PEC 300?
DN: Eu até que sou membro da Associação dos Delegados, mas eu pediria a você que reservasse o momento de ouvir a resposta da PEC 300 da presidente do sindicato ou da associação. Isso por questões estratégicas, estamos em um momento de negociação salarial. Então, ficam alguns sindicatos batendo em nós dizendo que o Estado só dá aumento a delegados e a PMs.


BN: O senhor acha que a Justiça tem parcela de culpa nos casos de reincidência nos crimes, onde pessoas são presas e soltas em poucos dias?
DN: Não acredito que o Judiciário tenha culpa. O problema é que a lei estabelece prazos que devem ser cumpridos pelo judiciário. Como o judiciário está sendo defasado nos seus quadros de servidores e desembargadores, eu acho que eles não têm culpa. Nós é que temos que votar melhor para elegermos pessoas preocupadas com a máquina como um todo e não pessoas interessadas em focar de fora estanque naquilo que lhe interessa.


BN: Então, as leis é que são brandas?
DN: Eu acho que temos leis muito brandas. Já passou da hora, por exemplo, de revermos a questão da maioridade penal. Agora, a sociedade está atrasada no que diz respeito a pedir, a cobrar.


BN: Porque o senhor acha que a redução da maioridade penal resolveria?
DN: Porque existem duas situações interessantes: o menor infrator e o infrator da menor idade. O menor infrator é aquele menor que eventualmente, pro um deslize, de forma esporádica, cometeu um ato ilícito. O infrator da menor idade é o reincidente, e aí a lei é muito branda e e aí que o bicho está pegando. Se você for apurar dentro da criminalidade você verá que a quantidade de infratores da menor idade é enorme.


BN: Mas não seria complicado detectar as nuances que estabelecem que é o menor infrator e quem é infrator da menor idade?
DN: Veja bem, isso não é igual a matemática, onde dois mais dois é igual a quatro. Tem que ter um acompanhamento pra verificar casos de reincidência e analisar outros fatores.


BN: Delegado, quais suas considerações finais?
DN: Na verdade eu quero agradecer e fazer um convite para a comunidade de Itaparica, pra Zé Eduardo, para uma feijoada beneficente que vamos promover lá na Ilha. Estamos decidindo o dia e esperando a confirmação do secretário, que é nosso convidado especial, assim como o delegado-geral e delegados amigos nosso aqui de Salvador. Esperamos também contar com a presença da comunidade empresarial de Itaparica e os munícipes, que são a peça mais importante. Não há polícia sem informação e quem dá informação? É a comunidade. A integração é fundamental. Prova disso é que há pouco tempo teve uma coletiva na Piedade e eu dei meu celular no ar. Isso dá credibilidade. Além disso, muitas pessoas ligam pra informar as coisas. Recebi uma denúncia e repassei aos Narcóticos Anônimos. Até ex-namorada me ligou (risos).


Fotos: Roberto Viana - Bocão News

Classificação Indicativa: Livre


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