Especial

Para Pinheiro, já passou da hora de mexer no vespeiro

Senador elege reforma política como principal desafio no Congresso Nacional  |  

Publicado em 23/07/2012, às 00h00      Luiz Fernando Lima (Twitter: @limaluizf)

O senador Walter Pinheiro (PT) colocou com seu nome à disposição do partido para disputar a sucessão de Jaques Wagner em 2014. Desde que o mandato atual seja “um bom governo”. Nesta entrevista exclusiva concedida no seu escritório político no Salvador Trade Center, na Avenida Tancredo Neves, Pinheiro avalia a greve dos professores, os possíveis prejuízos eleitorais para o Partido dos Trabalhadores, a CPMI do Cachoeira e a necessária reforma política. Confira!

Bocão News: Vamos começar pela greve dos professores que já ultrapassou a barreira dos cem dias. Qual a avaliação que o senhor faz desta longa paralisação? Faltou habilidade para o governo e para o comando de greve para chegar a uma solução que causasse menos problemas aos estudantes?

Este é um processo natural de duas partes que se enfrentam e fazem a discussão de lado a  lado. Não vejo porque as pessoas transformarem isso em episódio que seria anormal dentro de um processo de condução. Nem tampouco isso significa destrato ou mau-trato com a educação. Estado e professores chegaram num ponto de indefinições e que isso terminou resultando em um processo de esticar de corda. Não dá para colocar a culpa em ninguém, mas dá para se levantar vários movimentos que aconteceram. Primeiro, o governo com todas as debilidades e com todos os problemas foi cedendo. Desde o início da greve até hoje se movimentou. Houve retardo sim, mas o governo se movimentou. É necessário também que outro lado se mova.

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O senhor acredita que houve intransigência do lado dos professores?

Eu não classificaria com intransigência. Eu classificaria como paralisação numa posição só. O processo de negociação exige de ambas as partes um certo nível de capacidade de ir flexibilizando. Eu não quero atribuir nem a um nem a outro a intransigência ou o endurecimento nas negociações. Tanto é verdade isso que as duas partes procuraram intermediários para tentar quebrar a resistência de lado a lado. Só que o governo do estado fez duas vezes um movimento no sentido de tentar mediar às propostas. Quase que no meio da greve o governo pegou e apresentou uma contraproposta dividindo o reajuste até 2013, de forma que se chegasse a um valor suportável pela estrutura orçamentária. Isto não foi aceito. Depois acontece a intermediação do Ministério Público Estadual (MPE). E ai outra proposta é feita, uma proposta que não pode ser classificada como encenação. Então, é óbvio que não é algo que já esteja definido e que os professores tenham que aceitar, mas foi apresentado pela mediação. Este é um ponto de encontro.

As negociações salariais são ininterruptas. Este ano tem uma e na próxima data base no ano que vem tem outra.

Isso mesmo. Acho, inclusive, que os professores devem tentar amarrar uma forma de negociação que sirva para os próximos anos. Uma coisa também que deve ser colocada mesmo que as pessoas queiram fazer uma crítica ao governo do estado, mas assim, eu estou participando do orçamento em nível nacional e estamos vendo que o governo federal tem enfrentado diversas dificuldades. O governo federal ainda não apontou o reajuste linear para os servidores. Nós tivemos uma conversa com o Judiciário na semana passada para apontar na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), mas também estamos negociando.

O governo federal está com dificuldade de arrecadação?

Sim, e isso tem um impacto direto nos estados. Quando o governo federal faz uma redução de IPI para tentar segurar a economia quem mais se arrebenta é o governo do estado. Porque a maior parcela do Fundo de Participação dos Estados (FPE) é do IPI. Então, se imaginarmos algo em torno de 18 a 20 bilhões de reais que poderia compor a chamada Receita Liquida do Estado (RLE) cerca de 6 bilhões de reais viriam do FPE. Mas ai poderia se dizer que o Fundeb cobre uma parte dos salários dos professores, isso é vero, mas ai você tem de compor a outra estrutura de estado que diz respeito à sua capacidade de honrar pagamentos de salários. A Bahia está apresentando um valor acima do normal no Brasil inteiro.

O problema é que o acordo foi feito e não foi cumprido.

Eu tenho muitas criticas a esta história do acordo. Não a critica à ponderação do acordo, mas por exemplo, quem do estado da Bahia fez um acordo desta coisa de extensão de um determinado percentual sem ter o dado? Como é que isso foi feito?

Os reflexos nas eleições municipais serão os priores possíveis para o partido?

Eu não sou partidário de uma posição de que você vai minimizando crise. Crises devem ser enfrentadas e tratadas. Até porque toda a crise impacta no processo eleitoral e todas elas tendem a ter um alvo. Todo mundo só enxerga agora o que seria um candidato vinculado a estrutura atual de poder, de governo. As pessoas tendem a responsabilizar, mas eu acho que Nelson (Pelegrino) não pode ser responsabilizado, e não é um problema de extrair a sua participação neste processo, mas ele não pode ser penalizado numa lógica de que você faz uma espécie de vingança. Então, nós temos que entender isso, nós temos um impacto e vamos tratar e as pessoas precisam compreender também que este estágio de negociação é muito diferente do antigo estágio de negociação que professores e alunos enfrentaram. Foi com o nosso governo em nível federal que a gente conseguiu estabelecer um piso diferenciado para professores. Ainda que não atenda. Foi com o nosso governo em nível federal e estadual que nós conseguimos estabelecer um  outro patamar salarial para os servidores. Basta ver a realidade do que passa o servidor municipal. Portanto, não dá para fazer esta vingança. É importante que as pessoas pudessem compreender o momento de enfrentamento para a defesa dos interesses que são legítimos e o que se fez no país do ponto de vista da gestão pública na estrutura da União e do Estado. Para não ficar fazendo vinganças pontuais que impactam no processo eleitoral.

O impacto é maior no interior ou na capital?

As eleições municipais têm uma dinâmica muito particular. Numa eleição na capital, ainda que as pessoas convivam muito mais próximas, ela tem uma dinâmica de eleição de porte maior.

Tendo que mudar de assunto, eu gostaria de entrar na discussão sobre a CPMI de Cachoeira. O senhor foi um dos proponentes e acredito que ela está no início dos trabalhos. Outro assunto é julgamento do chamado mensalão. Já houve e ainda há uma tentativa de criar uma relação entre CPI de Cachoeira e o mensalão. Como o senhor analisa isto?

Esta história de mensalão versus Cachoeira talvez seja uma das piores comparações que já tentaram fazer. Alguns partidos ficam tentando fazer esta ilação baratinha que uma coisa foi puxada para inibir a outra. Primeiro é preciso dizer que o mensalão estava pautado para o Supremo Tribunal Federal (STF) há muito tempo, portanto não fomos nós (PT) que escolhemos que o Cachoeira pintasse exatamente nesta época. Se eu pudesse escolher, eu preferiria que ele viesse em 2010, antes das eleições. Outra coisa é a seguinte: por mais pressão que alguém queira fazer com o caso Cachoeira ninguém vai conseguir mudar opinião ou interferir em uma instância como o STF. O curso natural do mensalão vai acontecer normalmente. O caso Cachoeira por outro lado ainda não tem peças suficientes para uma apreciação por parte do STF. Então, uma coisa não pode ser colocada contra a outra como elemento da política. Nem o PT pode achar que dá para usar o caso Cachoeira como um paradigma para mudar a cabeça de juiz, nem o outro lado pode usar o mensalão. Eu particularmente acho que o STF tem que fazer o trabalho dele. Defendo que o ministro Dias Toffoli, que foi advogado do PT e indicado pelo presidente Lula, participe do julgamento. Acho bobagem isso. Se fosse assim, os ministros do STF não poderiam ter participado de nenhuma votação da qual a sua vida profissional tenha atuado como juízes ou advogados. Isto é bobagem. Ele tem que ir lá e julgar com o que tem nos altos.

O momento do julgamento não é inoportuno?

É importante que seja julgado logo. Porque a pior coisa que pode existir é você ficar com espada sobre a cabeça. Ai todo mundo fica lhe acusando. Se o cara teve culpa no cartório, ai meu irmão ao invés da espada é pau na moleira e se não tem ele aproveita o julgamento. Isto é uma coisa. O caso Cachoeira, eu tenho defendido que a gente tem de tocar a CPI até novembro, não pode adotar a solução Demóstenes Torres (cassado) como uma espécie de coisa feita pela CPMI  e, portanto, encerra o caso. Não, o objetivo da CPMI não é apenas a queda de Demóstenes, nunca foi este, o objetivo é desmontar uma organização criminosa que se instalou no país. Que teve participação na estrutura do Estado, teve participação em outras instâncias de poder. Ela usou agentes públicos. Ela se permitiu ser usada por agentes públicos. Porque o caso Demóstenes é isso. Alguém pode dizer: eu não sei se Demóstenes teve ganho pecuniário. Se teve ou não, é outra história. Ali ficou evidente que ele usou uma estrutura criminosa. Nós precisamos pegar esta estrutura criminosa e todos que se beneficiários dela.
Quais são os objetivos gerais desta CPMI?

Primeiro é devolver aos cofres públicos aquilo que foi lesado. Segundo, botar na cadeia que participou e ainda não está na cadeia. Terceiro é a partir desta experiência produzir um conjunto de regras que sirvam para inibir toda e qualquer estrutura criminosa desta que se instale no país.

Tem dois aspectos nesta sua resposta que eu gostaria de explorar melhor. O primeiro é que o percentual de recursos recuperados é baixíssimo?

Menos de 1%

Como é que pode ser melhorado isso e o segundo aspecto que é a sua avaliação sobre o fato do ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos ser o advogado de Cachoeira. Se não é ilegal parece, principalmente para quem não é advogado, que é amoral?

A legalidade da atuação em minha opinião é questionável. Eu não sou partidário desse “é legal. É legal”. Porque tem coisas que a legalidade esbarra numa conduta ética. Toda pessoa tem direito a defesa, tem direito a este tipo de cobertura, mas ai a gente vai analisando o seguinte. Como é que você pega alguém que já foi da estrutura de Estado e se permite a fazer uma defesa. A não ser que Márcio Thomaz Bastos tenha sido convencido por Cachoeira de que tudo que diz de Cachoeira é mentira. Ai ele poderia dizer que foi convencido.

Outro agravante que são os valores exorbitantes cobrados. E o dinheiro é legal?

Ai entra uma questão que eu mesmo tenho levantado que é a seguinte: esses casos quem deveria defender o acusado é uma instância pública. Porque a pergunta que segue é a seguinte. O dinheiro que vai servir para pagar o advogado de Cachoeira está vindo de onde? O dinheiro que ele (Cachoeira) arrecadou para comprar bens, gerar patrimônio, criar a empresa, veio de onde? Este dinheiro foi legalizado ou foi lavado. Este dinheiro que está remunerando o advogado? Nestes casos deve-se bloquear todos os bens e contas do acusado, até que se tenha comprovação. Eu acho, inclusive, que uma parte destes bens deveria ser sequestrada e não bloqueada. Se isto acontecesse ele não teria como pagar um advogado, então a Defensoria Pública teria de emprestar um advogado para defender o ser humano, que tem este direito. Eu acho que antes da questão de não ser ético, eu entraria na questão da legalidade. Poder-se-ia utilizar recursos obtidos por meios ilegais para o sujeito contratar uma estrutura de defesa? Nem entrando na seara se Márcio deveria aceitar ou não. O problema é se o dinheiro foi ganho legalmente.  O elemento que pesa contra Márcio neste caso é o fato dele ter passado pelo ministério da Justiça, de ter ocupado um cargo de quem tem a obrigação de buscar banir toda a ação desta natureza. Então, quando o cara sai ele é ex, é verdade, mas ai fica aquela coisa: uma coisa é o pecado do pecador e outra é o pecado do pregador. Enquanto foi ministro ele deveria pregar o combate ao crime e depois que deixou de ser ministro a pregação mudou?

Deixando um pouco de lado a CPMI e adentrando a atividade parlamentar. Devido às eleições este segundo semestre deve ser bem menos ativo que os demais em todas as casas legislativas. Este é um fato que a cada dois anos volta à agenda política.

Este é um assunto que nos leva a ponderar a história da reforma política. Eu fico meio chateado com esta história porque todas as vezes que o Congresso Nacional deixa para discutir este tema no afogadilho ou fica nesta história de que não dá para mexer nisso agora porque se não vai prejudicar a próxima eleição. Acontece que eu tenho eleição a cada dois anos. Então no mandato de quatro anos como o da presidenta Dilma Rousseff ela vai enfrentar duas eleições. A de 2012 e a de 2014. São dois anos que o Executivo tem dificuldades inclusive de implementar o orçamento. Do dia 29 de junho para cá nós convivemos com os problemas de que não podemos colocar dinheiro em determinadas obras para não interferir nas eleições. A maquina pública é paralisada e engessada. A economia local é prejudicada. Quem se reelege, num mandato de oito anos, verdadeiramente, governa quatro. Porque nos outros quatro têm eleições.  Defendo que se acabe com a reeleição e transforme este mandado em cinco anos. Assim o sujeito tem pelo menos quatro anos de mandato livre. São quatro anos em cinco e não em oito e sem interrupções. No período eleitoral nós teremos quatro semanas de votações. Duas em agosto, uma em setembro e uma em outubro. Apesar de que temos duas pautadas para outubro, mas uma seria na primeira semana e não deve acontecer. Temos temas importantes para votar e isso nos leva para uma situação extremamente delicada que é pegar os principais temas da economia, que tem à ver com a eleição municipal, como por exemplo, a redistribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), a distribuição dos royalties. Eu vou ter de fazer isso em novembro, porque eu só tenho 15 dias no mês de dezembro. Esse calendário vai ser apertado e este ano nós estamos com uma pauta que eu diria é apertadíssima. Nós temos que entregar até o dia 31 de dezembro o novo FPE e há um desafio no Senado que é entregar o novo pacto federativo para permitir que estados e municípios tenham recursos diretos sem precisar desta história de pires na mão da União. Eu espero que os candidatos de 2012 possam colocar isso na roda. Pela primeira vez desde 1992 que nós vamos conviver com uma experiência ao contrário. As eleições municipais começaram a incidir nas eleições de 2014. Olha a briga em Recife, Fortaleza, São Paulo, Belo Horizonte, em Salvador. Nós estamos vivendo a disputa municipal cujo a pauta principal é como é que fica 2014. Além de subverter a gente começa a contaminar o que precisa fazer para melhorar a gestão. Porque o grande objetivo que se mostra é a consolidação da base para a disputa de 2014.

Na bancada do PT e aliados que o senhor lidera quantos serão candidatos?

São 26 senadores de cinco partidos (PDT, PCdoB, PSB, PRB e o PT). Desses 26, quatro são candidatos. Dois do PCdoB e dois do PT. No PCdoB é ainda mais complicado porque o partido tem dois senadores e os dois são candidatos. No PT, nós somos 13 e dois são candidatos. Nós estamos convivendo com uma situação extremamente atípica. Ainda tem situações como a da bancada do PDT, o Assis Gurgacz se licenciou para tocar as campanhas. O presidente do PMDB, uma bancada que não é a minha, o senador Valdir Raupp, se licenciou para tocar as campanhas municipais. O restante também. É um negócio que não tem como tocar processos. Este debate envolvendo a reforma política tem de ser feito. Nós precisamos fazer eleições gerais no país. Esta bobagem de que eleições gerais vão confundir o eleitor não existe.

Por que não faz a mudança então?

Toda a vez que vai discutir reforma política eu falo a mesma coisa. O cara quando chega a hora de mexer no status quo diz: rapaz eu estou me reelegendo aqui, tenho mandato aqui e você ficam inventando este negócio de reforma. Nós vamos ter eleição para prefeito agora e um bocado de gente que é deputado federal, estadual e senador disputa a eleição sem perder o mandato. Na hora que eu tiver a eleição geral o cara vai ter de escolher. É a conhecida escolha do “sofria” não de “Sofia”. Se eu quiser ser prefeito vou ter de correr este risco, por que para lá eu não posso. Como está o cara pode concorrer aqui, perdeu volta para lá, venceu, promete para eleitor que não vai sair e tal e coisa e depois de dois anos diz que o povo pediu para disputar outra eleição e larga o mandato no meio. É por isso que não conseguimos fazer a reforma política.

O que falta então é aparecer um grupo grande de políticos com mandato que esteja disposto a correr o risco de desagradar os pares?

No último debate que fizemos o Senado demonstrou que nós estamos muito a fim de tentar acelerar este negócio. Agora, eu não acredito em fazer uma ampla reforma. É igual à reforma tributária. Os caras queriam deixar para discutir tudo e se a gente não tivesse botado o dedo na ferida no Senado para discutir o ICMS e outros pontos, nós nunca iríamos discutir a reforma tributária. A mesma coisa é a reforma política. Estão querendo discutir tudo e eu digo: Não. Embora fazer primeiro esta mudança eleitoral. Muda o calendário, ai depois a gente vai experimentando com o novo calendário como é que se faz a reforma política.

O PT se tornou um partido arrogante?

Não. O PT cresceu muito. Eu continuo com a tese de que quanto maior você é, mais generoso tem que ser. Quem quer continuar grande tem que ser mais generoso e não arrogante. Esta história de que o PT não faz coligações é balela. Olha a eleição de Wagner. Nossa chapa proporcional abrigou todo mundo. Há uma necessidade de reafirmação de cada partido. O PT tem uma coisa diferente dos outros que não lhe permite esta arrogância. O PT tem uma vida interna muito agitada e movimentada. O PT não é um partido que tem uma hegemonia de ninguém. O partido tem uma capacidade de conviver com diferentes linhas de pensamento interno. Então não se forma um monobloco. Isto é, na minha opinião, uma grande virtude porque não permite ao PT virar um partido arrogante e centralizador. A reclamação contra a gente é natural, quando se vai crescendo muito ai o cara diz que a galinha gorda é sempre a galinha do vizinho. Ai todo mundo fica fazendo critica, mas o PT tem feito várias alianças. A montagem da chapa de Nelson (Pelegrino) em Salvador tem 15 partidos. Na minha só tinha quatro. Nós avançamos muito nesta história de se permitir apoiar candidato. Dos 417 municípios da Bahia nós estamos apoiando mais do que sendo apoiado.

O senhor acredita que o PT tem sido mais generoso com os novos aliados em detrimento dos militantes e correligionários antigos?

As vezes há uma choradeira dentro do partido dizendo que entrega mais ao aliado. Eu aprendi que estas coisas de casa é igual a quando você recebe uma visita. Quando chega uma visita em casa os pais até tiram os filhos da cama para poder acomodar os convidados. Então, os de casa geralmente dão um jeito, se arruma e a gente sabe que toda casa tem os mais rebeldes que ficam um pouco mais chateados quando acontece isso. É natural que a gente tenha um olhar um pouquinho mais dedicado aos de fora porque os de casa são de casa. Há, obviamente, uma disputa muito grande na hora de definir os espaços. Nós fizemos algo diferente. A gente tentou fazer a alocação em função do peso de cada partido para evitar que organizássemos de forma desproporcional. Colocamos um papel fundamental nisso que é o elemento da gestão. Não dá para fazer uma distribuição sem levar em consideração o perfil de quem está sendo indicado. Esta é a primeira condição. Eu defendo que a gente promova uma reformulação nesta estrutura de cargo em nível nacional. Acho que deveríamos profissionalizar o máximo a estrutura pública e ir, consequentemente, diminuindo cada vez mais esta estrutura de cargos comissionados.

Por outro lado nós acompanhamos um crescimento muito grande no número de Redas e PSTs?

O Reda é uma alternativa a essa coisa dos limites estabelecidos e até da capacidade de o Estado honrar. A estrutura pública sempre enfrentou um dificuldades que é a de sustentar a estrutura – que é muito grande – durante todo o tempo. Então, os cargos em comissão de certa forma suprem isso. O sujeito opera na estrutura de Estado e depois do tempo de serviços prestados vai embora e o Estado não tem nenhum ônus com relação a este sujeito (aposentadoria e afins). Isto é uma espécie de caminho alternativos para efrentar dificuldades orçamentárias que estão contindas corretamente na Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas era importante que a gente pudesse fazer um ampliação da profissionalização da estrutura. Quando esta é profissional do ponto de vista do desempenho dos serviços, isto é melhor para os cidadãos. E ela não fica submetida ao julgo do governante, ela se torna uma estrutura do Estado. Ela é perene.

Se discute muito que a estrutura dos governos anteriores é montada de forma centralizadora. Onde o gestor nomeava de acordo com suas convicções e necessidades. Do outro lado, dizem que no governo atual há uma composição de partidos e que as indicações perpassam mais pela questão política do que pela qualidade técnica de quem vai desempenhar aquela função. É por ai mesmo?

Eu diria que hoje a gente tem uma estrutura que não há um centralizador. O que é muito bom. Quando se acaba com esta história de que tudo tem que ir para a mão de um imperador lá que determina quem vai e quem não vai. A mudança consubstancial de hoje é você tendo uma possibilidade de gerenciar isso em cada secretaria. Outra coisa é que nas secretarias você não tem uma estrutura no sentido de loteamento a partir do partido  do secretário, mas com uma relação, inclusive de levar em consideração os aspectos técnicos e a participação de diversas pessoas no processo político. Isto vai quebrando esta coisa de centralizar tudo. Por isso que tenho insistido muito na tese da profissionalização.

O senhor foi secretário do Planejamento e eu gostaria de saber qual a avaliação que faz deste início de trabalho de Sérgio Gabrielli?

Eu não seria um bom avaliador do secretário de Wagner. Pois poderia parecer que estaria interferindo no que seria um dos aspectos da eleição de 2014. A Seplan é uma das melhores ferramentas do estado para trabalhar, principalmente, o desenvolvimento da Bahia. Gabrielli vem com experiência sem igual. O cara pilotou um orçamento que só de investimento em 2012 deve ser algo em torno de 78 vezes mais que o da Bahia. As estatais vão investir R$ 106 bilhões neste ano, a Petrobras deve responder por 78 bi desses. A Bahia tem uma capacidade de investimento de R$ 1.2 bi. O sujeito tem uma capacidade de gerir a Seplan 78 vezes mais que aquilo que se prevê. É óbvio que a cobrança em cima dele será muito maior. Até porque se o cara não conseguir realizar vão dizer que o que fez na Petrobras não foi feito aqui. Agora, é óbvio que quem pilota um supersônico quando vai pilotar um teco-teco vai ter de se adaptar e numa velocidade menor. Portanto, vai percorrer uma distância em tempo maior. As pessoas vão ter de ter um pouco mais de paciência.

Pinheiro, não temos como fugir da sucessão de 2014. Qual a sua perspectiva?

Eu continuo insistindo que a gente realize um bom governo até 2014. Até para habilitar o PT na sucessão de Wagner.

Os dois primeiros anos do segundo mandato de Wagner são positivos. Mesmo tendo duas greves e com esta conjuntura?

Eu diria que são bons sim. Nós enfrentamos duas crises internas em dois seguimentos importantes que são a Educação e a Segurança. Do ponto de vista da preparação do estado em um momento de crise economica internacional o governo se portou muito bem. A Bahia dá um salto qualitativo na sua estrutura, se qualificando para o desenvolvimento futuro, mesmo em um momento de crise e também começa a plantar os pilares para se mexer em uma área que não se mexeu na Bahia: infraestrutura. Se falou muito à época de governos cantados em verso e prosa que buscava o desenvolvimento da Bahia, mas foi na gestão Wagner que a gente atraiu o maior número de universidades para cá. Foi na nossa gestão que atraimos o maior volume de investimentos em infraestrutura, inclusive, com capilarização. Gerar em regiões distintas do estado a possibilidade de desenvolvimento, trabalho e renda. Eu diria que o governo começou a reestruturar o desenvolvimento tirando esta concentração que havia na capital e região metropolitana.

A oposição afirma que nenhuma grande obra foi realizada no governo Wagner.

Que que isso. Salvador vai receber duas grandes obras de infraestrutura urbana. Uma já plenamente andando que é a da Via Expressa. Basta alguém se lembrar de como era a Rótula do Abacaxi. E a grande reestruturação urbana com esta coisa de sistema de transporte metrô. Copa é legado. Salvador ganhou um “senhor hospital” que é o hospital do Subúrbio. A experiência é citada internacionalmente.

A Parceria Público-Privada (PPP) se tornou uma...

Uma experiência bem sucedida. Eu, por exemplo, já falei dela Nova Iorque. Todo lugar que eu vou as pessoas me cobram. Na Europa também querem saber como funciona o Hospital do Subúrbio. Nós estamos recebendo delegação de diversos estados para conhecer o modelo. Em Belo Horizonte está sendo construído um hospital seguindo a nossa experiência daqui.

Este modelo depende de um suporte de fiscalização muito eficiente?

Tem que ter um acompanhamento permanente. Criando dificuldades, mas ele funciona muito bem. Isto sem contar as estradas. Foram mais de cinco mil quilômetros de estradas construídas. Portos e Aeroportos. Os parques eólicos. A Bahia vai sediar a maior estrutura de parques eólicos do Brasil e recentemente nós inauguramos uma área que é hoje o maior parque eólico da América Latina. A expectativa nossa é de que tenhamos 54 parques eólicos. Numa reformulação brutal nesta coisa da oferta de energia. O abastecimento de água. A Bahia passará por uma reformulação muito grande com o aquífero de Tucanos. Com uma etapa já entregue. A estrutura de postos de trabalho. Como era antigamente? Todo mundo já sabia onde era gerado cada posto de trabalho. Ou era no Pólo Petroquímico ou em Salvador. Se pegarmos os dados de hoje poderemos ver que mais de 50% dos postos são gerados no interior, fora da RMS. Isto é o incentivo à economia local. Isto é que segura o sujeito na cidade. É o desenvolvimento local, não um prego no pé. Esta reformulação foi muito importante para este momento que o estado está trabalhando. Por isso que temos que intensificar os trabalhos até 2014. Para que a população da Bahia queira reeleger este projeto. Obviamente que ele não poderá mais ser pilotado por Wagner e ai entram as disputas dentro do PT e até nos partidos da base aliada.

O senhor será candidato?

Eu sou candidato a contribuir para que o nosso governo vá bem até 2014. E em 2014 se os partidos aliados e o meu partido avaliarem que o meu nome é um nome à disposição é claro que eu vou me colocar. Se não for, eu vou contribuir com a reeleição deste projeto.

Fotos: Gilberto Júnior // Bocão News

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