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De Cosme de Farias para o mundo: Jovem físico leva o nome da Bahia para a China

“Não existe isso de eu sou estudante da rede pública, eu não posso”, diz Igor  |  

Publicado em 12/12/2012, às 00h00      Leonardo Santana (Twitter: @leosouzasantana)

Igor Gomes da Costa dos Santos, 19 anos, é físico, estudante de engenharia elétrica da faculdade Área 1 e reside no bairro de Cosme de Farias em Salvador. Mesmo com pouco apoio do governo e estudando no Colégio Estadual Odorico Tavares, o jovem alça grandes voos como, por exemplo, participar de um Congresso de Física Nuclear na China.

Com cursos de especialização em Física Nuclear Aplicada e Teórica, Metodologia da Pesquisa, Computação Gráfica Especializada em Linguagem de Programação, Matemática Física, além de falar os idiomas português, inglês e russo, o jovem físico dá uma lição de vida e mostra que é preciso força de vontade e dedicação para vencer na vida.


Bocão News: Conte um pouco da sua história de vida.

Igor Gomes: Quando eu entrei no ensino médio tinha um programa na Universidade Federal da Bahia chamado Ciência Arte e Magia que pegava estudantes do ensino médio e levava para a universidade para fazer pesquisa. Nesse caso, eles implantaram um centro de ciências no colégio e eu fazia a pesquisa lá, que era na área de química aplicada e física geral. Participei dessa feira, fui o único estudante da Bahia a participar em 2010, que é a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia da USP. Quando voltei, eles me convidaram para ser bolsista de iniciação científica júnior da Universidade Federal. Entrei e comecei a fazer pesquisa lá.

BN: Quando era criança pensava em seguir outra carreira?

IG: Quando eu era criança, eu era dividido, no início gostava dessa área, mas tinha todo aquele sonho de criança, queria ser astronauta ou paleontólogo, por causa dos dinossauros. Eu já tinha um pé nessa área, já lia muito, inclusive quando eu era ensino fundamental, lia muito livro de física, de cálculo. Na verdade, não tinha oportunidade de aplicar, de fazer o que eu gostava. Quando entrei no programa de iniciação científica da universidade que comecei a ver realmente que gostava e me direcionei pra área que eu estou agora, de física nuclear aplicada e enriquecimento de minerais, no caso de plutônio. No início, as pesquisas eram mais teóricas, mais na área conceitual de física, quando eu comecei a ter mais contato com os professores do instituto de física da UFBA, comecei a trabalhar na área de mecânica quântica, com espectroscopia de massa e com a parte de estrutura da matéria que é justamente o que eu estou trabalhando agora e que vou levar o trabalho pra China, que é o enriquecimento de plutônio, através do urânio 238. Na verdade,
o processo já existe, eu fiz uma modelagem matemática do sistema e descobri uma maneira de burlar uma parte do sistema que já é feito, então o sistema já fica mais barato. Quando a gente precisa fazer uma difusão gasosa, por exemplo, atualmente é bastante cara. Então, tem uma maneira que ainda é matemática, que serve pra fazer a parte teórica da pesquisa e dar para saber se eu realmente posso sair do urânio 238 direto para o plutônio sem precisar passar pelo netúnio, que essa passagem é bem cara e gera muito resíduo.

BN: E a viagem para a China?

IG: A viagem para a China será em setembro de 2013. Fiz um curso online de especialização em física nuclear teórica por uma instituição que é lá na China mesmo, que é a Associação Internacional de Engenharia. Quando eu passei no curso, recebi o certificado e me inscrevi num congresso de física nuclear aplicada que tem lá. Aí me convidaram pra participar do congresso e pra fazer a pesquisa. Eles vão financiar tudo, estadia, alimentação, transporte pra fazer a pesquisa. Porque eu ia tentar fazer a pesquisa pela Universidade Federal, mas aqui não tem os recursos. Já fui bolsista de pesquisa da Marinha, fiz parte da pesquisa inicial do submarino nuclear brasileiro. A ideia inicial era levar a pesquisa e fazer na USP, porque passei um ano inteiro lá fazendo pesquisa e voltei. Só que teve um problema com a Receita Federal, com o governo que eles não permitiam esse tipo de pesquisa, porque do ponto de vista deles teria uma visão de maior risco, por está trabalhando material de alta energia. Então, foi aceito na China. Primeiro vou participar do Congresso e apresentar a ideia a eles, e depois volto com mais tempo pra puder participar do programa deles e fazer o curso de especialização porque eu tenho o certificado de físico nuclear teórico e aí vou fazer a parte prática do que eu fiz o curso, pra ficar como físico nuclear pleno.

BN: Quais são as suas principais medalhas e conquistas?

IG: Quando estava no ensino médio no Colégio Odorico Tavares, me inscrevi pra participar da olimpíada brasileira de física e comecei a assistir as aulas de física mecânica e ótica no instituto. Participei da prova, uma prova em cada região, e depois juntavam para ver quais as maiores médias. Fiquei entre as maiores daqui e de São Paulo. Fiquei em primeiro lugar e recebi a medalha de ouro. Fiz a prova em 2010 e recebi a medalha em 2011.
Participei dois anos consecutivos de uma feira, é a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, é a maior feira da América Latina na área de ciências para estudantes do ensino médio e do ensino técnico. Participei com um trabalho na área de ensino de física nuclear aplicada e recebi o prêmio de primeiro lugar de destaque da Microsoft, na área de educação e o terceiro lugar geral na feira e fiquei com a medalha de bronze.

BN: Quais as principais dificuldades que já enfrentou?

IG: Principal dificuldade, no início, foi o preconceito quando entrei na universidade, principalmente quando entrava nos grupos de pesquisas, porque era aluno de ensino médio da rede pública e os professores já eram doutores, pós-doutores, então eles não conversavam comigo, só falavam através de assessores. Isso foi bom, porque como eles não me ensinavam eu tive que aprender tudo sozinho. Eu tive que pegar livros de cálculos, de física aplicada e aprender sozinho. Tive que me tornar um autodidata em algumas partes. Entrava na internet, pegava livros e comprei um quadro que coloquei no meu quarto pra puder fazer os cálculos.
Tive problema também com o dinheiro, porque os materiais, os livros, só tinham em inglês ou em russo e eram caros. Tive que aprender a falar e a ler inglês e russo, por conta disso. Inclusive o trabalho que mandei para a China foi todo em russo.
Tive muita dificuldade em conseguir conciliar as pesquisas com o colégio, porque todos estes meus certificados são de viagens, então todos os eventos eu tinha que viajar, então perdia muita aula. Tinham professores que não entendiam e eu acabava perdendo a prova e fui para a recuperação de Redação no terceiro ano por causa disso. Tinha que viajar com uma mala de livro e uma mala de roupa, pois viaja e passava o dia todo no congresso, mas de noite tinha que estudar.
De 2009 a 2011, fui o único representante da Bahia na Amostratec (Amostra Internacional de Ciências e Tecnologia) que aconteceu em Nova Hamburgo. O Ceará tinha 30 trabalhos, o Piauí tinha 50 e a Bahia só tinha um, que era eu.

BN: Quais as principais mudanças que aconteceram na sua vida?

IG: Minha vida mudou bastante, primeiro porque de uma certa forma ganhei um status. Quando eu vou pra fora, em feira, em universidades de fora não tem quem não me conheça. Lá eu sou mais respeitado do que aqui. Já me convidaram a participar do Programa de Enriquecimento de Urânio do Instituto de Pesquisas Nucleares do Brasil. Se eu mandar um e-mail pra USP, pra Unicamp ou até para qualquer universidade de fora eles financiam e me levam, aqui já é mais complicado.
O problema daqui é que na minha área não há campo nenhum. A UFBA faz pesquisa na área de física nuclear, mas é uma pesquisa mais voltada para estudos mais teóricos que não é a minha área. Aqui, se eu fosse comprar, por exemplo, duas gramas de urânio pra fazer minha pesquisa eu ia passar um ano esperando a Receita Federal liberar, tinha que passar pela Comissão Nacional, mandar pra fora e depois voltar o registro dizendo que eu tenho a licença pra usar, depois de sair essa licença eu ia ter que passar pela Vigilância Sanitária pra ter a liberação pra manusear  e ia ter que conseguir algum lugar aqui em Salvador que pudesse usar, pra que eu pudesse manipular esse material. Uma grande dificuldade que eu estou tendo é que todo trabalho está sendo feito na base matemática, está sendo mais complicado, porque se fosse no experimento eu via o resultado.

BN: Quais as viagens marcadas para o próximo ano?

IG: Tenho uma viagem marcada para São Paulo no início do ano que vem que é para participar da Febrace. A da China também já está marcada e durante o ano sempre acaba aparecendo vários congressos, às vezes para apresentar trabalho ou pra tomar o curso, pra me especializar.

BN: Já pensou em seguir carreira política?

IG: Política eu quero distância, eu quero ficar mesmo nas pesquisas. Já pensei muito vagamente na parte política porque a gente tem um problema na Bahia e no Brasil com a questão da distribuição de renda pra pesquisa, inclusive na área de física. E físico hoje, por exemplo, não é uma profissão registrada. Não temos Conselho Regional, então eu pensei em entrar na parte de política, justamente para o Ministério da Tecnologia, para lutar por esta área. Mas, quando comecei a participar de feiras, eu preferi me manter distante.


BN: E seus amigos de infância, “perdeu” algum deles para violência?

IG: Não me distanciei deles, sempre os encontro. Quando dá tempo eu procuro os vê. Já perdi muitos amigos para a violência, para o tráfico. Aqui na rua nem se fala, tinham amigos que eu brincava, antes de ter essa violência toda. Brincávamos aqui na rua e hoje estão nessas questões. Então eu me afastei, prefiro seguir o meu caminho.

BN: Pensou algum momento em desistir?

IG: Pensei, porque é complicado pra quem trabalha na área de exatas. Os cálculos que eu precisei aprender pra fazer o trabalho eram muito complexos. Então tive que aprender muita coisa sozinho e com meu professor de Física, que é meu orientador até hoje. Mas, muitas coisas, eles davam o livro e eu tinha que me virar sozinho. Aqui na Bahia, muitas vezes você vai atrás do professor, às vezes por estar cansado, às vezes porque tem doutorado, mestrado, não quer nem chegar perto do aluno do ensino médio. Então eles sempre fazem de tudo pra jogar o aluno pra fora, principalmente da rede pública. Mas, quando ele percebe que tem o interesse, que quando ele fecha a porta, você coloca o pé na porta pra ela não fechar pra você, ele vai e te dá atenção. Chegou um determinado momento que eu não tive problema de conseguir pessoas para orientar meu trabalho, mas não era aquela orientação de sentar e ensinar, tinha que aprender tudo por fora. Então, ficava uma semana sem dormir, dormia três dias e não dormia dois, e ainda tinha o colégio, o vestibular, então no final das contas embolava tudo. Foi uma dificuldade que eu passei e já não passo mais, eu já cheguei a um determinado nível de conhecimento que eu não preciso mais ficar virando noite. A internet facilitou bastante, mas eu prefiro os livros.

BN: O que acha da educação pública?

IG: Realmente quando eu entrei na rede pública, primeiro tive aquele impacto de perceber quais são as dificuldades, questões estruturais. Tem professores muito bons, mas tem professores muito ruins também. Muitos porque não estão preparados para serem professores, não têm uma capacitação que o governo deveria oferecer, e o professor também não tem recurso. Eu, por exemplo, comecei a fazer trabalho na área de educação, tenho vários artigos publicados tanto no Brasil como no exterior, voltados para a questão educacional na Bahia, principalmente, porque existe um déficit muito grande de investimento do governo em tecnologia de ensino para o estudante, que facilite que o estudante entenda o assunto e que o professor faça com que o estudante entenda. Fiz um trabalho que vou apresentar que é voltado para a Aplicação da Realidade Aumentada para o Ensino.

BN: O que pensa para o futuro?

IG: Gostaria muito de voltar para a área de engenharia de reatores e daqui a um tempo, se eu tiver dinheiro e condição, sair daqui, pois se eu tivesse fora já estaria em outro nível, porque tem recursos e professores que podem me ajudar muito. Então meu objetivo é esse, daqui a um tempo com a formação completa de engenheiro elétrico, ir pra fora, de preferência na Rússia, porque já conheço os trabalhos de lá.

BN: Quem banca os seus gastos?

IG: No final das contas quem financia minha pesquisa é meu pai, é minha família. De fora tem o acordo do governo para as viagens, mas preciso de computador, de materiais, de dinheiro para ir para congressos pra tomar curso. E estes congressos que preciso ir o governo não paga porque não sou mais estudante do ensino médio.

BN: Tem algum sonho que gostaria de realizar?

IG: Desde que eu era pequeno tenho um sonho de conhecer o LHC, que é um laboratório de aceleração de partículas, que tem na França. Já fiz pesquisas em várias partes da física moderna e quando trabalhei nessa parte da astrofísica eu pensava muito em ir lá. Via muito na televisão e fiquei com muita vontade de conhecer o local.

BN: Deixe uma mensagem para os leitores do Bocão News.

IG: Dava palestras em colégios públicos e mostrava para os estudantes que eu era da rede pública e que pesquisas são apenas 2% de inteligência. Você não precisa ser um Einstein, o que faz um pesquisador é a dedicação, é abrir o livro e se dedicar, passar várias horas lendo. Já fui parar no hospital, sem comer, sem dormir. Não existe isso de, eu sou estudante da rede pública, eu não posso. Eu não sou nenhuma exceção, daquele garoto que estuda em colégio particular, que mora em Cajazeiras, que mora em lugar nenhum. Meu bairro você pode ver, a tendência é ir para o crime, ir para o tráfico que é o que está crescendo muito. Mas isso vem de dentro, se você quer, você consegue. Eu queria, queria muito e consegui. Qualquer estudante hoje, não importa de onde ele seja, seja do colégio público ou particular, tenha dinheiro ou não, ele consegue porque depende do esforço. Se você tem a vontade, a força de querer chegar, você alcança.

A vida é aquele trilho bem grande e a gente anda de carroça, bem devagar e seus objetivos são os bois. Então, temos vários objetivos pequenos, mas tem que ter aquele boi bonitão, grandão, o objetivo maior, que puxa a carroça com mais força e puxa o resto também. Porque esses objetivos pequenos são tortos, se alinham de acordo com a sua realidade. Meu objetivo quando era pequeno era dizer eu sou físico. Hoje eu sou mais físico do que quem passou cinco anos na universidade fazendo física. Eu não ganhei dinheiro, não fiquei rico, não mudei muita coisa, mas na questão intelectual e da visão que eu tinha em relação à educação, em relação às pessoas, tudo mudou.


Fotos: Roberto Viana // Bocão News

Classificação Indicativa: Livre


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