Esporte

38 jogos, 1 só na Copa do Mundo: o raro histórico entre França e Espanha

Mbappé e Yamal têm pela frente choque de gerações e miram final da Copa do Mundo  |  Imagem gerada por IA

Publicado em 12/07/2026, às 12h12   Imagem gerada por IA   Matheus Simoni

A cidade americana de Dallas recebe, nesta terça-feira (14), a primeira semifinal da Copa do Mundo de 2026, um dia antes de Inglaterra e Argentina se enfrentarem em Atlanta. França e Espanha disputam a vaga na grande final do Mundial em um confronto que reúne duas das seleções mais tradicionais do futebol europeu.

Apesar de menos carregado de tensão política do que o outro lado da chave, o duelo também tem uma história rica por trás das quatro linhas.

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Como as seleções chegaram à semifinal

Bicampeã mundial (1998 e 2018), a França vai atrás da sua quinta final e um eventual terceiro título. Sob o comando do técnico e ex-jogador Didier Deschamps, a equipe liderou o Grupo I ao superar Noruega, Senegal e Iraque na fase de classificação.

No mata-mata, a campanha teve um gás a mais: goleada por 3 a 0 sobre a Suécia, vitória por 1 a 0 sobre o Paraguai nas oitavas e triunfo por 2 a 0 diante de Marrocos nas quartas. Tudo isso capitaneado por um inspirado Kylian Mbappé, candidato a artilheiro da Copa.

A Espanha, campeã em 2010 e em busca do seu segundo título de sua história, teve início conturbado. Tropeçou logo na estreia diante de Cabo Verde, empatando sem gols, mas se recuperou vencendo Uruguai e Arábia Saudita para fechar a liderança do Grupo H.

No mata-mata, a equipe de Luis de la Fuente engrenou: 3 a 0 sobre a Áustria, 1 a 0 sobre Portugal nas oitavas e 2 a 1 sobre a Bélgica nas quartas, garantindo vaga entre os quatro melhores do mundo. Embora não tenha marcado gols, o jovem Lamine Yamal vem sendo o principal expoente da nova fase do futebol espanhol.

Um retrospecto amplo, mas raro em Copas

Poucos confrontos internacionais têm um histórico tão extenso quanto o de França e Espanha: as seleções já se enfrentaram 38 vezes, com ligeira vantagem espanhola: 18 vitórias contra 13 francesas e sete empates, além de superioridade no saldo de gols (71 a 44).

Apesar disso, o confronto é raro justamente na maior vitrine do futebol: as duas seleções se cruzaram apenas uma vez em Copas do Mundo, nas oitavas de final de 2006, na Alemanha, quando a França virou o placar e venceu por 3 a 1, seguindo rumo à final daquela edição.

Idolatria

Aquela partida das oitavas de 2006 carrega uma curiosidade que ecoa no confronto de 2026: foi um dos capítulos centrais da despedida de Zinedine Zidane das Copas do Mundo, torneio que ele encerraria semanas depois, na fatídica final contra a Itália.

A semifinal desta terça-feira tem contornos de duas gerações distintas: enquanto o grupo comandado por Mbappé tem uma verdadeira constelação de craques, como Désiré Doué, Ousmane Dembélé e Michael Olise, os espanhóis querem provar que o elenco recheado de jovens pode repetir o feito de 2010.

Desde a convocação anunciada por de la Fuente, jornais da Espanha questionaram a falta de jogadores do Real Madrid. Embora em baixa, o clube merengue sempre deu pelo menos um jogador para o time da Espanha em Copas. Levar um time para um mundial sem uma representação dos "galácticos" gerou desconfiança no trabalho do treinador. No entanto, com a chegada à semifinal, a Espanha tenta provar que os jovens têm potencial de recolocar o país no topo do mundo.

O desafio, no entanto, é árduo. A França é considerada por especialistas uma das melhores gerações da história do país no futebol, superando até mesmo o elenco que se sagrou campeão em 1998. Resta saber se Mbappé vai ditar o ritmo mais uma vez frente a um time que o conhece muito bem.

Vizinhos, não inimigos: um pano de fundo político mais ameno

Diferentemente de Inglaterra e Argentina, separadas por uma guerra recente e uma disputa territorial ainda aberta, França e Espanha carregam uma relação histórica de vizinhança marcada mais por proximidade do que por hostilidade, ainda que com capítulos tensos ao longo dos séculos. A invasão napoleônica da Espanha, no início do século 19, e a chamada Guerra Peninsular deixaram marcas na memória histórica dos dois países.

Episódio conhecido como "La Retirada" aproximou espanhóis de franceses durante a Guerra Civil (Foto: Coleção Eric Forcada)

Mais adiante, ao fim da Guerra Civil Espanhola, em 1939, centenas de milhares de republicanos espanhóis cruzaram a fronteira em direção à França fugindo do franquismo, em um episódio conhecido como "La Retirada", um capítulo que aproximou as duas sociedades em vez de afastá-las. O governo francês chegou a manter uma política de "não intervenção" durante o conflito e, posteriormente, reconheceu oficialmente a ditadura do General Francisco Franco, gerando instabilidade diplomática e social na fronteira da península ibérica.

Já no século 20, a fronteira entre os dois países também foi palco de tensões ligadas à questão basca, com o País Basco francês servindo por décadas como base de apoio a militantes separatistas do lado espanhol, além do histórico debate sobre o movimento independentista catalão, tema que ainda hoje desperta atenção da diplomacia francesa dado o número de catalães na fronteira sul do país.

Rei Felipe IV, da Espanha, e Emmanuel Macron, presidente da França, possuem bons lanços diplomáticos em seus governos (Foto: Redes sociais/@emmanuelmacron)

No cenário atual, França e Espanha aparecem mais como parceiros do que como rivais geopolíticos: neste ano, os dois países se alinharam ao lado da Itália ao restringir o uso de seu espaço aéreo para operações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em um gesto que reforçou certa sintonia entre Paris e Madri em meio às tensões na aliança do Atlântico Norte.

Ainda assim, o relacionamento bilateral não é isento de atritos: Espanha e Portugal cobram há anos maior investimento francês nas interligações elétricas entre a Península Ibérica e o restante da Europa, um imbróglio de infraestrutura energética que segue sem solução definitiva.

O que está em jogo em Dallas

Além da vaga na final, o duelo coloca frente a frente duas escolas futebolísticas historicamente influentes na Europa: a força física e a velocidade do ataque francês, estrelado por um ataque devastador que anotou 16 tentos no Mundial, contra a solidez defensiva da Espanha, que chega à semifinal com a melhor defesa do torneio e registrado um gol sofrido em seis jogos.

O goleiro Unai Simón, inclusive, já entrou para a história da competição ao somar 650 minutos consecutivos sem sofrer gols em Copas do Mundo, somando as edições de 2022 e 2026, superando a marca do italiano Walter Zenga, de 1990. A missão agora é parar o ímpeto ofensivo da França: juntos, Dembélé e Mbappé têm mais gols que 45 das 48 seleções classificadas para a Copa do Mundo de 2026.

Classificação Indicativa: Livre


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