Esporte
Publicado em 12/08/2026, às 10h52 - Atualizado às 11h34 Reprodução Redação Bnews
O ex-lateral Ruy Bueno Neto, conhecido como Ruy Cabeção, deixou os gramados em 2015 e, em 2026, segue ligado ao futebol, mas em funções bem diferentes das que exerceu como jogador.
Ele construiu uma carreira marcada por títulos, passagens por 16 clubes e uma relação próxima com as torcidas. Depois de pendurar as chuteiras, o ex-lateral decidiu encarar um desafio bem diferente dos gramados: voltou aos estudos, cursou Direito e passou a atuar como advogado, sem abandonar o futebol.
Em 2026, Ruy também acumula experiência nos bastidores do esporte. Com a Licença A de treinador da CBF Academy, ele já trabalhou na formação de jovens jogadores e chegou a exercer a função de coordenador técnico do Botafogo-PB.
Ruy Cabeção tentou esconder a cabeça no primeiro dia de faculdade
Mais difícil do que bater pênalti em final. Foi assim que Ruy Cabeção descreveu seu primeiro dia de aula na faculdade de Direito.
O ex-jogador voltou a estudar depois de uma carreira profissional durante a qual defendeu 16 clubes diferentes. Foram 22 anos longe das salas de aula, e muitos de seus novos colegas tinham menos idade do que o período em que ele havia ficado afastado dos estudos.
Sem saber como seria recebido, Ruy tentou passar despercebido. Para isso, escondeu justamente a parte do corpo que ajudou a transformar seu apelido em uma das marcas de sua carreira.
“Fui de boné”, disse ele em uma entrevista por telefone de Belo Horizonte, sua cidade natal.
Ruy contou que escolheu o último lugar da sala, perto da porta, na tentativa de não chamar atenção.
“Sentei no último lugar da sala, perto da porta, achei que tivesse escondido. Mesmo assim os caras me reconheceram, mas ficaram em dúvida.”
A tentativa não durou muito. Quando chegou a hora da chamada, os colegas tiveram certeza de que o ex-jogador de futebol estava entre eles.
“Eles não acreditaram de forma alguma, tiraram fotos, aquela coisa toda.”
Ex-jogador vira camisa 10 do Cabeções FC
O apelido que o acompanhou durante toda a carreira também chegou à faculdade. Quando os novos colegas de turma decidiram fundar um time para disputar um torneio interclasses, o nome escolhido não poderia ser mais apropriado: Cabeções FC (Futebol e Cerveja). Ruy foi chamado para vestir a camisa 10.
“Os meninos são apaixonados por futebol”, contou ele. “Os veteranos queriam que eu jogasse pra eles de qualquer jeito, mas como eu sempre fui muito fiel com todos os clubes que representei, não podia deixar os meninos na mão.”
A campanha, porém, não foi das melhores. O time dos calouros perdeu todas as partidas que disputou.
“O nível dos meus companheiros não era muito bom”, comentou Ruy.
Apesar dos resultados, o ex-lateral encontrou uma diferença curiosa entre o futebol profissional e o universitário.
“Aprendi que o futebol universitário é muito mais violento do que o profissional.”
Direito virou novo desafio depois de 22 anos longe dos estudos
A decisão de cursar Direito veio depois da aposentadoria dos gramados. Ruy já havia começado outras faculdades, mas a rotina de jogador profissional nunca havia permitido que levasse os estudos adiante.
Com negócios no setor imobiliário, ele decidiu se formar também como uma forma de proteger seu patrimônio. Ao mesmo tempo, enxergava no curso uma possibilidade de, no futuro, trabalhar profissionalmente no futebol, inclusive agenciando a carreira de jovens atletas.
Durante o quarto período da faculdade, Ruy ainda não havia decidido qual área do Direito seguir. “Ainda estou em processo de conhecimento”, afirmou.
Na época, ele demonstrava interesse pelas áreas tributária e empresarial, mas também dizia gostar de Direito Constitucional e Civil.
“Entrei com vontade de seguir tributário ou empresarial, mas gosto muito de direito constitucional e civil”.
Filosofia fez Ruy Cabeção se sentir “muito burro”
A volta à sala de aula também trouxe dificuldades. Depois de duas décadas afastado dos estudos, algumas disciplinas exigiram do ex-jogador uma adaptação que ele não estava acostumado a enfrentar.
Uma das primeiras barreiras foi a Filosofia.
“Direito não é fácil, ainda mais depois de 20 anos sem estudar. Lembro de uma aula de filosofia, Aristóteles, Kant, essas coisas. Durante a aula todo mundo perguntando e eu sem entender nada, cheio de vergonha. Cheguei em casa e me senti muito burro.”
Ruy contou que nunca foi reprovado em nenhuma disciplina, embora tenha passado por uma espécie de recuperação durante o curso.
A experiência universitária também foi além das aulas. Mesmo sendo mais velho que boa parte dos colegas, ele participava da rotina social da faculdade, frequentando festas e aniversários.
Ainda assim, preferia receber os colegas em casa para churrascos e rodas de pagode.
Apelido virou uma espécie de marketing pessoal
Muito antes de se tornar advogado, Ruy Cabeção já havia entendido que seu apelido poderia ser usado a seu favor.
Ele nunca se incomodou com a brincadeira envolvendo o tamanho da cabeça. Pelo contrário. Transformou a característica física em uma espécie de marca pessoal.
Mesmo depois de se aposentar, continuou sendo reconhecido nas ruas, principalmente por torcedores do Cruzeiro.
Um dos motivos é uma jogada que ficou marcada na memória dos torcedores. Ruy deu um passe para Sorín depois de driblar um adversário na linha de fundo e deixar o argentino na cara do gol. O lance rendeu ao clube o título da Copa Sul-Minas de 2002.
Para Ruy, a lembrança que permaneceu entre os torcedores não se explica apenas pelo apelido.
“Esse apelido carinhoso acabou sendo meu marketing natural. Já tem dois anos e meio que aposentei, mas o torcedor ainda lembra, sempre de uma forma carinhosa. Tudo é um conjunto. Não adianta eu ter o apelido de Ruy Cabeção se eu não demonstrasse futebol pra ser respeitado. Foram mais de dez títulos! Não adianta ter esse marketing natural se não for um bom jogador.”
Carreira começou no América-MG e passou pelo Cruzeiro
A trajetória profissional de Ruy começou a ganhar destaque no América-MG. Pelo clube, ele fez parte de uma geração vitoriosa e conquistou a Copa Sul-Minas em 2000.
O desempenho pelo Coelho abriu as portas do Cruzeiro. No clube celeste, Ruy viveu um dos principais momentos de sua carreira e integrou o elenco da Tríplice Coroa de 2003.
Antes disso, também passou pelo Guarani, em uma passagem pelo futebol paulista por empréstimo.
A carreira do ex-lateral foi marcada pela versatilidade. Ruy podia atuar tanto na lateral-direita quanto no meio-campo, característica que contribuiu para sua longevidade no futebol profissional.
Ruy Cabeção virou xodó do Botafogo
Foi no Rio de Janeiro que Ruy encontrou uma das relações mais fortes de sua carreira com uma torcida.
Em 2004, o lateral teve papel importante na campanha do Botafogo para escapar do rebaixamento e ganhou o status de xodó dos torcedores.
Dois anos depois, voltou a protagonizar momentos marcantes pelo clube. Em 2006, participou da conquista do Campeonato Carioca, em uma campanha que teve direito a cenas de sacrifício em campo e terminou com Ruy deixando o gramado ovacionado.
A passagem pelo Fluminense veio em 2009. Naquele ano, Ruy fez parte do chamado “Time de Guerreiros”, equipe que protagonizou uma arrancada contra o descenso no Campeonato Brasileiro.
Do futebol carioca ao encerramento da carreira no Mato Grosso
Depois do Fluminense, Ruy continuou percorrendo diferentes regiões do país.
Passou pelo Boavista-RJ, em 2010, pelo Brasiliense, onde foi campeão estadual em 2011, e pelo Ipatinga, além de defender Alecrim e América-RN no futebol potiguar.
Também teve passagens por Figueirense, Náutico e Grêmio.
Em 2013, protagonizou uma situação inusitada ao usar as redes sociais para procurar um novo emprego.
Os últimos capítulos de sua carreira como jogador aconteceram no Mato Grosso, onde defendeu Mixto e Operário-MT.
Foi no Estado que encerrou sua trajetória nos gramados, em 2015.
Por onde anda Ruy Cabeção em 2026?
Depois de se aposentar, Ruy se dedicou aos estudos e se formou em Direito. Atualmente, atua como advogado e utiliza parte da experiência acumulada no futebol em sua atuação profissional.
Sua experiência jurídica é frequentemente direcionada ao ambiente esportivo, especialmente em questões contratuais e regulatórias.
Mas a aposentadoria não significou um afastamento definitivo do futebol.
Ruy buscou uma especialização técnica e obteve a Licença A de treinador da CBF Academy. No início de 2025, assumiu o comando das categorias de base do Inter de Minas, trabalhando na formação de novos talentos.
Em fevereiro de 2026, voltou a aparecer em uma função de destaque no futebol profissional ao ser anunciado como coordenador técnico do Botafogo-PB.
No clube paraibano, contribuiu para a gestão do elenco durante a conquista do Campeonato Paraibano. Ruy deixou o cargo em março de 2026, mas continuou ativo no mercado como profissional de gestão e consultoria esportiva.
Os 16 clubes defendidos por Ruy Cabeção
A carreira de Ruy Cabeção passou por 16 clubes de diferentes estados brasileiros:
América-MG: clube onde foi revelado e conquistou títulos mineiros e regionais.
Cruzeiro: integrou o elenco da Tríplice Coroa de 2003.
Guarani: teve uma passagem pelo futebol paulista por empréstimo.
Botafogo: tornou-se xodó da torcida e conquistou o Campeonato Carioca de 2006.
Figueirense: foi vice-campeão da Copa do Brasil em 2007.
Náutico: atuou como titular na temporada de 2008.
Grêmio: defendeu o Tricolor Gaúcho no início de 2009.
Fluminense: integrou o “Time de Guerreiros” de 2009.
Boavista-RJ: disputou o Campeonato Carioca de 2010.
Brasiliense: foi campeão estadual em 2011.
Ipatinga: participou do retorno do clube às competições nacionais.
Alecrim: teve passagem pelo futebol do Rio Grande do Norte.
América-RN: também defendeu o clube potiguar.
Mixto: atuou na reta final da carreira.
Operário-MT: encerrou a trajetória como jogador profissional no Mato Grosso.