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Fraude na Marinha beneficiou Comando Vermelho na rota do narcotráfico na Amazônia

A auditoria da Marinha identificou 182 irregularidades, levantando preocupações sobre a segurança da navegação e o fortalecimento do crime organizado.  |  Divulgação/Marinha do Brasil

Publicado em 06/08/2026, às 15h50   Divulgação/Marinha do Brasil   Redação Bnews

Um esquema clandestino de venda de habilitações para navegação na Amazônia teria funcionado por quatro anos dentro da estrutura da Marinha do Brasil. Entre os beneficiados estariam um integrante do Comando Vermelho (CV). As informações foram reveladas pelo site The Intercept Brasil. 

De acordo com a publicação, o caso veio à tona após uma investigação revelar a manipulação do sistema federal responsável pelo registro de aquaviários. O responsável pelas fraudes é o suboficial da Marinha Magno Alves de Almeida, que confessou os crimes durante uma auditoria da Marinha.  A decisão, no entanto, ainda cabe recurso.

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O esquema começou a ser desvendado, em 2019, durante uma fiscalização. Na oportunidade, o marinheiro fluvial César Lemos da Silva teve sua Caderneta de Inscrição e Registro (CIR) apreendida após militares identificarem divergências entre os dados registrados no sistema da Marinha e as informações impressas no documento.

Dados da força naval indicam que o militar residia em Humaitá (AM), mesmo ele nunca tendo morado na cidade. O caso levantou suspeitas e deu início a uma investigação interna que revelou um esquema muito maior.

Como funcionava o esquema

Na época, Magno Alves de Almeida era responsável pela seção de Ensino Profissional Marítimo da Agência Fluvial de Humaitá, subordinada à Capitania de Porto Velho (RO). Por conta do cargo, ele tinha acesso ao Sistema Informatizado de Cadastro de Aquaviários (Sisaqua), plataforma usada para registrar e emitir as habilitações de profissionais que atuam na navegação.

De acordo com a auditoria da Marinha, entre 2014 e 2018 foram identificadas 182 mudanças irregulares realizadas com o login funcional do militar.

As irregularidades ocorreriam da seguinte forma: dados de profissionais habilitados, até mesmo já falecidos, eram apagados para que fossem incluidas informações de pessoas que não haviam realizado os cursos obrigatórios ou não cumpriam os requisitos legais para exercer a atividade.

Traficante do Comando Vermelho recebeu documento

De acordo com as investigações, um integrante do Comando Vermelho adquiriu uma carteira de habilitação com quatro categorias diferentes, incluindo a de mestre fluvial, uma das mais importantes para o comando de embarcações de grande porte.

A inteligência da própria Marinha diz que a documentação permitia ao membro do CV operar embarcações sob aparência de legalidade, ampliando a capacidade logística da facção em uma das principais rotas do narcotráfico na Amazônia.

O rio Madeira, onde o esquema ocorreu, é considerado um corredor estratégico para o transporte de cargas, passageiros e também para o tráfico internacional de drogas, ligando a Bolívia à região de Manaus.

Além da possibilidade de facilitar o tráfico de drogas, o esquema também representou risco direto à segurança da navegação. Isso porque pessoas sem capacitação técnica passaram a ter autorização para conduzir embarcações em uma das maiores malhas hidroviárias do país.

Piratas do Madeira e avanço do crime organizado

A investigação também relaciona o fortalecimento das facções criminosas aos chamados "Piratas do Madeira", grupos envolvidos em roubos de embarcações comerciais, combustíveis e mercadorias ao longo do rio Madeira e seus afluentes.

Segundo informações de inteligência da Polícia Civil de Rondônia, esses grupos possuem ligação com o Comando Vermelho e abastecem garimpos ilegais, além de comercializar produtos roubados no mercado clandestino.

O Plano de Segurança Pública do Amazonas destaca que os ataques nas hidrovias elevam os custos do transporte fluvial, comprometem a logística na região e aumentam os riscos para tripulantes e passageiros.

Até o momento, a Marinha reconheceu as irregularidades identificadas pela auditoria, enquanto o processo contra o suboficial segue em tramitação e ainda não teve decisão definitiva.

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