Meio Ambiente
Publicado em 12/06/2026, às 17h15 Reprodução / BNewsTV / Youtube Leonardo Oliveira
Durante entrevista ao BNews Junho Verde, nesta sexta-feira (12), a cientista, professora e empreendora social, Anna Beserra, CEO da Sustainable Development & Water for All, destacou como o acesso à água de qualidade ainda é um dos maiores desafios em países subdesenvolvidos e emergentes.
“Temos aí uma questão de infraestrutura, ao mesmo tempo financeiro, porque a forma tradicional como se acontece o acesso à água e saneamento hoje, principalmente nos centros urbanos, ela não permite que você consiga garantir a qualidade da água na ponta. Então, se, por exemplo, eu estou em um lugar que é mais próximo da estação de tratamento de água, tem aí uma questão da dosagem de cloro. Existe uma possibilidade de, claro, minha água ser potável. Mas se eu estou lá no fim da rede, eu estou em uma área, em uma população mais carente, um bairro mais afastado, a chance daquela água não ser potável é maior, justamente porque do trajeto da tubulação até minha casa, pode se contaminar”, explica.
Ela destaca que também na casa do usuário existem aspectos que a própria Embasa não se responsabiliza, é responsabilidade da própria pessoa. “Higienizar a caixa, tem um certo aspecto de manutenção, de encanamento. A pessoa não faz isso, então aquela água também não vai ser, não é a garantia de ser potável. Por isso que a maioria das pessoas hoje usam filtros em casa, justamente para poder corrigir aqueles aspectos finais que precisam ser corrigidos”, afirma.
Além disso, ela destaca o aspecto rural, no qual há algo muito mais complexo, porque se trata de uma realidade em que não dá para se implementar o modelo tradicional.
“Quando a gente vai para o aspecto rural, que é o segundo ponto, a gente tem algo muito mais complexo, porque a gente está falando de uma realidade em que não dá pra gente implementar o tradicional. Não dá pra gente ter uma estação de tratamento de água em muitos municípios. Claro que em alguns ainda dá, mas muitos não dá quando tem uma pequena população, porque a conta não fecha. A gente não tem como garantir toda a infraestrutura e todo o custo que a gente tem, uma estação de tratamento em uma região que tem lá 1.000 habitantes. E aí, o que é que faz? O governo não vai ter como bancar isso, as empresas também não vão bancar isso, as empresas, no caso, as outras concessionárias privadas”, explica.
Ela explica como seu projeto do Aqualuz, um dispositivo acessível alimentado por energia solar que purifica a água da chuva sem produtos químicos ou filtros complexos, torna-se uma solução alternativa para esse aspecto, no entanto, tais soluções não estão previstas em leis e vira um entrave, por falta de regulamentação.
“Ao mesmo tempo que o existe o marco do saneamento, tem que ter aquela garantia de vamos atender 99% até 2033, mas e as áreas rurais, que são onde temos uma concentração da população significativa sem acesso à água e saneamento básico? Como é que a gente vai atender aquele público se a lei, da forma como tá escrita, não prevê a forma de isso acontecer? E a gente não tá vendo essas coisas melhorarem, avançarem”, questiona.
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Para Anna, o terceiro eixo do problema é a educação ambiental. Ela afirmou que muitas pessoas não compreendem o valor real da água até perderem o acesso a ela, o que ajuda a manter desigualdades e ciclos de vulnerabilidade.
“As pessoas, de uma forma geral mesmo, não tô falando aí nem de pessoas em situação de vulnerabilidade, tô falando de forma geral, elas não entendem a essência do significado da água, de ter água. O que é que significa você ter água? Porque pra gente é tão natural isso, que a gente não pensa o que significa não ter. E o impacto que isso tem na vida das pessoas, na sociedade, como, ‘poxa, eu tenho água, mas uma pessoa lá na ponta que não tem, e isso de certa forma vai me impactar, porque é uma pessoa que às vezes tá em uma situação de vulnerabilidade, pode ser ou não, beneficiária de algum programa do governo, e às vezes ele não vai conseguir sair daquela realidade simplesmente porque ele não tem água potável’.
A cientista destacou que a falta de água potável pode comprometer a saúde das crianças, o desenvolvimento cognitivo e a rotina de famílias inteiras, especialmente das mães, que muitas vezes precisam deixar o trabalho para cuidar de filhos doentes ou se deslocar longas distâncias em busca de atendimento.
“Quando uma mãe não tem água potável para dar para os seus filhos, ela vai ter que cuidar do filho que tá doente. O filho que tá doente, ele vai ter uma um desenvolvimento cognitivo prejudicado, irreversível, porque as doenças causam isso, as doenças de veiculação hídrica. Isso vai fazer com que, quando ele cresça, ele não consiga atingir o seu potencial, ou seja, vai repetir o ciclo, e aquela mãe que tá cuidando do filho, que na maioria das vezes são as mães, não são os pais, ela vai ter que deixar de trabalhar, vai ter que ter um custo para comprar o remédio que falta no posto de saúde, ou para um médico que nem às vezes tá disponível, não consegue fazer um exame preciso, ela vai ter que se deslocar numa região rural, que a gente tá falando que não tem transporte público, e às vezes tem que pagar ou ela tem que percorrer horas caminhando para levar o filho”, exemplifica.
Ela apontou a complexidade dos problemas e afirmou que muitos políticos não possuem a percepção da implementação da água. “Os políticos, às vezes, não conseguem ter aquela percepção do valor de implantar água. Às vezes, a água nessas regiões ainda é moeda de troca de voto. Então, a gente já conheceu comunidades que nos contaram que, porque eles não votaram no atual, na atual gestão, o prefeito cortou o caminhão-pipa que levava água para eles. Então, é algo extremamente complexo, quando a gente fala de universalizar o acesso à água e saneamento, não é uma coisa fácil de ser feita. É algo muito complexo”, finaliza.
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