Meio Ambiente

Junho Verde: Startup baiana usa radiação solar no tratamento de água e obtém reconhecimento internacional

Cientista de salvador desenvolveu tecnologia inovadora; trabalho beneficia comunidades em diversos estados brasileiros e outros países  |  Foto: Ilustrativa / Pexels

Publicado em 26/06/2026, às 05h00   Foto: Ilustrativa / Pexels   Cibele Gentil

Uma ideia pode mudar o mundo. Toda grande inovação, transformação social ou avanço tecnológico começa com uma reflexão simples, que evolui para a ação. É assim que surgem as startups, com o propósito de transformar uma intuição ou percepção em uma oportunidade de negócio, de maneira criativa e usando novas tecnologias. E essa ideia inovadora pode vir imbuída de um desejo maior, de deixar um legado para a sociedade e para o meio ambiente.

As startups verdes, ou greentechs, são empresas que conciliam crescimento econômico e preservação ambiental. Elas utilizam tecnologia e inovação para criar soluções que se adequam às mudanças climáticas ou a ambientes inóspitos ou degradados, buscam o melhor aproveitamento de fontes de energia limpas e renováveis, reduzem a emissão de gases de efeito estufa e otimizam o uso de recursos naturais.

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O processo que transforma uma intuição em impacto real envolve estruturação, persistência, colaboração e a execução de um plano de maneira consistente. Assim, nasce uma startup verde, um novo negócio que traz um benefício social com impacto positivo na natureza. Para a empreendedora ambiental Anna Luísa Beserra Santos, esse pensamento norteou toda a sua formação e projeto de carreira. “Essas soluções, que são baseadas na natureza, surgem como alternativa financeiramente viável e sustentável ao mesmo tempo”, explicou.

A cientista é fundadora e CEO da Safe Drinking Water for All (SDW), startup baiana que cria tecnologias de impacto social e ambiental focadas em saneamento e purificação de água para comunidades rurais e vulneráveis. A empresa utiliza a energia e a radiação solar para a desinfecção da água, matando diretamente as bactérias e outros microorganismos, sem a necessidade de aplicar produtos químicos ou uso de filtros complexos.

Vidas Secas: a tecnologia em favor do acesso à água potável

“Desde que eu era criança, eu sempre tive o sonho de ser cientista e ter alguma atuação que pudesse resolver algum problema global”, contou a biotecnologista. Ainda na adolescência, Anna Luísa leu a obra Vidas Secas, que impactou a sua visão de mundo e despertou a ideia de desenvolver um trabalho que pudesse trazer uma solução para o problema da água em comunidades com escassez do recurso e sem acesso ao tratamento adequado.  

“O livro do Graciliano Ramos me levou a questionar como é que a gente está em pleno século XXI e, apesar de ser um livro quase centenário, ainda mostra um problema tão recorrente. Como é que a gente está em um mundo tão tecnológico e um problema tão vital, tão simples, ainda não foi resolvido”, desabafou Anna Luísa. Essa inquietação levou a cientista a pesquisar, a buscar entender a profundidade do problema e desenvolver uma tecnologia que pudesse minimizá-lo.

Nem tudo foi fácil nesta jornada. A empreendedora contou que o primeiro protótipo criado, quando tinha ainda 15 anos, não obteve reconhecimento logo de início e foi necessário ter muita persistência e dedicação. “Eu vi um cartaz do Prêmio Jovem Cientista de 2015, então já lembrando aquele meu sonho de ser cientista, foi o empurrãozinho que faltava para eu pensar em resolver aquele problema que o livro de Graciliano Ramos me fez refletir e que me deixou tão chocada”, lembrou.

Nesta época, Anna Luísa desenvolveu o primeiro protótipo da tecnologia. Contudo, principalmente por conta das limitações financeiras e de infraestrutura, ela não conseguiu alcançar uma pesquisa tão robusta a ponto de ter chance de ganhar o prêmio, e o seu trabalho não foi selecionado.

Ao ingressar no meio acadêmico e conhecer ferramentas para o empreendedorismo, a jovem pesquisadora continuou a desenvolver a solução. “Alguns anos se passaram. Foi um período muito desafiador. Considerando que eu tinha 17 anos, nenhuma experiência profissional e nenhum networking, foi um período de muito aprendizado e construção, de tentativa e erro mesmo. Foram anos até a gente finalmente conseguiu se tornar um negócio viável”, disse.

Políticas públicas e responsabilidade social

A Safe Drinking Water for All (SDW) conseguiu o seu primeiro contrato em 2019. O sucesso da parceria possibilitou à startup a conquista de novos contratos e levar seus projetos de tratamento de água para diversas comunidades, não apenas na Bahia, mas em outros estados e também no exterior.

O êxito com as parcerias privadas fez Anna Luísa desejar um alcance ainda maior, para beneficiar um maior número de pessoas. “A gente acredita que a melhor forma de a gente conseguir impactar o maior número de pessoas de forma escalável é através de políticas públicas. A gente já vem trabalhando há alguns anos tentando, mas ainda não é uma realidade”, falou.

A biotecnologista destacou os aspectos financeiros, demonstrando que a água tratada além de promover a saúde e melhorar a qualidade de vida, também representa economia nos gastos públicos e que o uso de tecnologias limpas ajuda na conservação do meio ambiente. “Nós trazemos diversos dados de como geramos economia para o poder público, através das doenças que são evitadas, que gerariam mais custos para o tratamento das famílias. Há melhoria na educação pública, com melhor rendimento das crianças que não vão ficar doentes, e também dos adultos que vão ter um melhor rendimento no trabalho”, pontuou a pesquisadora.

Economia e viabilidade do investimento

Uma das experiências exitosas aconteceu em uma escola localizada em uma comunidade quilombola. “A água que as crianças, que as pessoas dessa comunidade consumiam, era água de rio, que tinha uma cor mais barrenta e esverdeada. Como consequência, trazia um histórico de doenças, principalmente nas crianças. Depois que a gente instalou nossa tecnologia, a gente teve uma redução de mais de 92% na incidência dessas doenças”, relatou Anna Luísa.

As estimativas da startup mostram a geração de uma economia substancial para a sociedade. “Nossa média hoje é de que cada R$ 1 investido em nossos projetos resulta numa economia de R$ 27 para a sociedade. Por si só, já é um argumento óbvio de quão estratégico é investir em água e saneamento, ainda mais atrelando tecnologias sustentáveis, diferente das tradicionais que a gente está acostumado nos centros urbanos, na concessionária de água e saneamento, que para as regiões que a gente trabalha são inviáveis”, explicou a empreendedora.

Papel das empresas e reconhecimento internacional

A tecnologia e o trabalho desenvolvido pela startup baiana tornou a SDW um negócio premiado e reconhecido internacionalmente. “Somos premiados pela ONU e pela UNESCO. O prêmio da ONU, inclusive, somos os únicos brasileiros a já conquistar”, contou a CEO, destacando que a empresa tem uma aplicação presente em 16 estados brasileiros e ainda em Porto Rico e no Equador.

Sobre a importância da atuação de startups verdes e da utilização de tecnologias limpas e sustentáveis, Anna Luísa destaca a importância de que esse entendimento e consciência esteja presente, sobretudo para as novas gerações. “Todas as empresas deveriam ter um impacto socioambiental positivo. Deveria ser via de regra, a gente não deveria ter uma categoria afastada, todas deveriam ser assim”, concluiu. 

Classificação Indicativa: Livre


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