Meio Ambiente
Publicado em 09/10/2026, às 09h05 - Atualizado às 11h43 Reprodução/Redes Sociais Parque Estadual do Mendanha Gabriel Dinis
Capaz de ultrapassar o limiar da dor auditiva e causar lesões imediatas em humanos, o canto da araponga-da-amazônia pode atingir até 131 decibéis a curta distância de parceiras, segundo estudo em Roraima liderado por pesquisadores do INPA e da Universidade de Massachusetts.
Se um ser humano ficasse a menos de um metro de uma araponga-macho cantando no topo de uma árvore na floresta, a sensação não seria apenas de incômodo sonoro, seria de dor física com risco iminente de perder a audição.
A ave produz o som mais potente de todo o reino animal em proporção à sua massa corporal. Em seu ápice vocal, o animal atinge registros que variam entre 125,4 e 131 decibéis (dB), uma pressão acústica comparável ao ruído de uma turbina de avião ou ao de uma britadeira funcionando ao seu lado.
O recorde mundial foi documentado formalmente no artigo científico internacional “Extrmely Loud Mating Songs at Close Range in White Bellbirds” (Cantos de acasalamento extremamente altos a curta distância em arapongas-da-amazônia), publicado no periódico Current Biology. O estudo foi conduzido pelos biólogos e ornitólogos Dr. Mario Cohn-Haft, curador da coleção de aves do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus, e Dr. Jeffrey Podos, professor titular do Departamento de Biologia da Universidade de Massachusetts Amherst (UMass Amherst), nos Estados Unidos.
Mas por que a araponga grita tão alto?
Ao contrário de outras aves que usam cantos estridentes para afugentar predadores ou demarcar território à distância, a araponga desenvolveu essa "turbina vocal" exclusivamente para a disputa reprodutiva. As gravações de campo em Roraima revelaram que o cortejo segue uma coreografia de alto risco: empoleirado nos galhos mais altos da mata, o macho emite chamados iniciais para atrair a pretendente e, assim que ela pousa no mesmo galho, vira-se bruscamente de lado e dispara a nota mais estridente da sequência a menos de 50 centímetros da cabeça da fêmea.
Diante do impacto acústico ensurdecedor, as fêmeas recuam milímetros em frações de segundo antes da nota final para proteger a própria audição, enquanto avaliam o vigor físico e a qualidade genética do parceiro pela potência da exibição. Para conseguir produzir e suportar tamanha pressão sonora sem lesionar os próprios órgãos, a espécie desenvolveu uma parede abdominal até cinco vezes mais espessa que a de aves do mesmo porte, costelas reforçadas e uma abertura de bico ampla que opera como uma corneta de amplificação acústica natural.
130 decibéis causam dor física? O que diz a medicina
Na escala da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da otorrinolaringologia, a faixa de 130 decibéis ultrapassa o simples desconforto e atinge o limite exato em que o som se transforma em dor física perceptível e destruição do ouvido humano. Enquanto o aparelho auditivo opera com segurança em níveis de até 80 dB, a intensidade gerada pelo canto da ave submete o tímpano a uma tensão tão grande que ativa os receptores nervosos responsáveis por disparar pontadas agudas, vertigem e queimação no conduto auditivo.
A analogia com as turbinas de avião ilustra bem o perigo, funcionários de solo em aeroportos trabalham expostos a níveis de 120 a 140 dB e são obrigados por normas de segurança a usar protetores auriculares duplos para evitar danos ao sistema auditivo.
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