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Casamentos relâmpago de soldados russos viram caso de polícia; uma enfermeira casou com cinco homens

Em um dos casos, pai morreu na guerra e filha perdeu tudo para “viúva” que apareceu dois dias antes no leito de morte  |  Ilustrativa | Pixabay

Publicado em 07/08/2026, às 05h58 - Atualizado às 06h38   Ilustrativa | Pixabay   Redação Bnews

As indenizações pagas pelo governo da Rússia às famílias de militares mortos na guerra contra a Ucrânia deram origem a um novo tipo de fraude investigada pelas autoridades do país. 

Mulheres apelidadas de “viúvas negras” por parlamentares e pela imprensa estatal russa são acusadas de convencer soldados vulneráveis a oficializar casamentos pouco antes de serem enviados ao combate para, em caso de morte, receberem os valores destinados aos familiares. Os casos, que envolvem disputas judiciais e investigações criminais, aumentaram nos últimos meses.

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Quando um militar russo morre no conflito, os parentes mais próximos têm direito a uma indenização paga pelo governo a partir de 5 milhões de rublos, valor equivalente a cerca de R$ 327 mil. O benefício, criado para garantir apoio financeiro às famílias, passou a ser alvo de suspeitas envolvendo casamentos realizados pouco antes das missões no front.

Filha descobre casamento do pai antes da morte
Um dos casos que ganhou repercussão envolve Maria, moradora de São Petersburgo, segundo a CNN. Ela recebeu a notícia de que o pai, Yuri, de 59 anos, havia sido baleado durante a guerra e morrido em decorrência dos ferimentos. Pouco depois, descobriu que ele havia se casado apenas dois dias antes de ser enviado para a linha de frente.

A nova esposa, segundo Maria, era uma desconhecida. A mulher, 22 anos mais jovem que Yuri, passou a ser considerada legalmente a familiar mais próxima do militar e ficou com direito à indenização.

“Ainda estou em choque e ainda não consigo aceitar o que aconteceu. No começo parecia um sonho. Até hoje, às vezes acordo pensando que devo ter sonhado com tudo isso. Mas é real”, diz Maria.

Sobre a mulher que se tornou viúva do pai, Maria afirmou: “Nunca sequer falei com essa mulher. Nem sei o que dizer, porque imediatamente suspeitei que fosse um golpe”.

A rede americana CNN informou que tentou contato com a viúva de Yuri, mas não recebeu resposta.

Casamentos em hospitais e leitos de morte
O caso de Maria não seria isolado. Segundo a CNN, outros episódios semelhantes passaram a chamar atenção na Rússia. Recrutas teriam sido convencidos a participar de casamentos de fachada pouco antes de seguir para o combate. Em algumas situações, as uniões teriam sido registradas quando os militares já estavam internados em hospitais ou até próximos da morte.

Um dos casos mais comentados ocorreu no ano passado, quando uma enfermeira de um hospital militar foi demitida após ser acusada de se casar com cinco soldados que estavam sob seus cuidados antes que eles morressem pelos ferimentos sofridos na guerra. A suspeita era de que ela buscava receber as indenizações destinadas às famílias.

Guerra aumenta suspeitas sobre golpes
O crescimento dessas denúncias ocorreu em meio a uma política do próprio governo russo de incentivar casamentos entre militares desde a invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.

Autoridades flexibilizaram regras para permitir que soldados oficializassem uniões rapidamente antes de serem enviados ao front. Cerimônias coletivas chegaram a ser transmitidas pela televisão estatal russa.


Com o alto número de mortes em determinados setores da guerra, familiares passaram a levantar suspeitas sobre alguns desses casamentos. O deputado Leonid Slutsky, aliado do Kremlin, afirmou à imprensa russa que as famílias dos militares precisavam ser protegidas de golpes.

“As famílias dos participantes da Operação Militar Especial precisam ser protegidas de criminosos inescrupulosos, das chamadas ‘viúvas negras’, de golpistas financeiros, de fraudadores telefônicos e de predadores que se aproveitam daqueles que receberam indenizações”, afirmou.

Segundo o parlamentar, esse tipo de crime já teria alcançado “proporções graves”.

Justiça russa analisa disputas por indenizações
Os tribunais russos também passaram a julgar casos envolvendo suspeitas de fraude. Um deles envolve o soldado Georgy Kostyrko, que conheceu Angelina Varyukhina pela internet e se casou 10 dias depois, durante uma licença da guerra.

Segundo a mãe do militar, após o casamento, Angelina publicou fotos e vídeos ao lado de outros homens nas redes sociais. Georgy teria pedido o divórcio, mas morreu em combate antes da conclusão do processo.

A mulher negou fraude, afirmou que havia reatado o relacionamento com o marido e disse que as publicações tinham como objetivo provocar ciúmes. Posteriormente, a Justiça retirou dela o direito ao benefício.

Também foram divulgadas denúncias sobre um suposto esquema no extremo leste da Rússia envolvendo um subtenente, um sargento e um contador militar. Eles são acusados de recrutar homens vulneráveis, incluindo órfãos e pessoas sem parentes próximos, organizar casamentos e enviá-los para áreas de maior risco na linha de frente. Não houve novas informações públicas sobre o andamento da investigação.

“Não sobrou absolutamente nada”, diz filha de militar
Após a morte do pai, Maria voltou ao apartamento onde Yuri morava em São Petersburgo e descobriu que o imóvel já havia sido vendido. Os novos proprietários disseram à CNN que compraram o local de forma regular e afirmaram nunca ter conhecido o militar.

Para Maria, restaram apenas as lembranças e as chaves do imóvel, que já não abrem mais a porta. “Não sobrou absolutamente nada, e isso dói demais. Não tenho um único objeto que me faça lembrar dele. Só tenho as chaves do apartamento, que nem funcionam mais. É só isso”, lamenta.

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