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Publicado em 21/10/2026, às 11h54 - Atualizado às 13h20 Reprodução/X Gabriel Dinis
O Museu Nacional da Colômbia, a mais antiga instituição cultural do país, entrou no centro de uma crise política e judicial nos últimos dias após a ordem do governo federal para retirar de suas exposições permanentes mais de 30 obras, documentos e objetos históricos ligados à comunidade LGBTQIA+, a movimentos feministas e à história da esquerda colombiana.
A intervenção decretada pelo governo do presidente Abelardo de la Espriella, eleito pela direita e de perfil conservador, provocou protestos em Bogotá e levou a Justiça local a intervir com uma medida cautelar de urgência.
A operação atingiu principalmente a sala “Fazer Sociedade”, inaugurada em 2019 para retratar as lutas civis e a formação da cidadania contemporânea no país. Segundo levantamentos de curadores e pesquisadores, mais da metade dos itens removidos fazia parte do acervo de memória da diversidade sexual.
Entre as peças retiradas do espaço público estão:
Símbolos do movimento LGBTQIA+: a bandeira do orgulho gay doada pela ativista histórica Elizabeth Castillo, cartazes das primeiras marchas de orgulho do país e exemplares raros da revista La Ventana Gay, pioneira na imprensa voltada à comunidade nas décadas de 1970 e 1980.
Feminismo e direitos reprodutivos: materiais impressos, panfletos históricos e documentos sobre as primeiras lutas pelo direito ao aborto e pela igualdade de gênero.
Memória da esquerda e do Acordo de Paz: cartazes de campanha da União Patriótica (UP), menções a líderes de esquerda assassinados na história política recente, como Bernardo Jaramillo Ossa e Carlos Pizarro, e até o "Balígrafo", a emblemática caneta feita a partir de uma bala de fuzil utilizada para assinar o histórico Acordo de Paz de 2016 com a ex-guerrilha das Farc.
A diretriz para a retirada partiu do Ministério da Cultura, que defende a intervenção como parte de uma política de "contrarrevolução cultural" e freio à chamada cultura “woke”. Em declarações oficiais, a pasta sustentou que espaços mantidos pelo Estado não devem funcionar como "instrumentos de doutrinação política", nem exibir visões parciais ou fazer apologia a ideologias.
A gestão governamental argumentou que as salas permanentes estavam desvirtuadas por narrativas unilaterais e que o museu precisa manter uma postura neutra na preservação do patrimônio nacional, sem privilegiar bandeiras de minorias ou grupos partidários específicos.
A intervenção gerou imediata indignação nos setores culturais e de direitos humanos. Coletivos sociais e cidadãos realizaram atos e vigílias em frente à sede do museu, na capital colombiana, denunciando a medida como um ato explícito de censura institucional e uma tentativa de reescrever o passado do país. Museus de arte moderna (como o Mambo e o Mamm) e programas acadêmicos de museologia de universidades federais também divulgaram manifestos públicos em repúdio à decisão.
#ATENTOS 🚨 La Unidad Nacional Antidisturbios (ESMAD) intervino con una tanqueta en la cra 7 con sentido sur-norte, tras un plantón en el Museo Nacional, aunque se indicó que los uniformados habrían reaccionado luego de recibir ataques con piedras por parte de los manifestantes. https://t.co/g58m2Lmn9r
— Colombia Oscura (@ColombiaOscura) October 18, 2026
A escalada do conflito chegou aos tribunais. Após a oposição e entidades civis ingressarem com uma ação de tutela, um tribunal expediu uma medida cautelar proibindo o Ministério da Cultura de retirar qualquer outro item do acervo do Museu Nacional.
A decisão judicial também obrigou o governo a catalogar, custodiar adequadamente e garantir a total integridade de todas as peças já recolhidas às reservas técnicas, impedindo alterações ou descarte dos materiais até que o mérito da ação seja julgado em definitivo.