Colunas / Na Sombra do Poder
Publicado em 17/09/2026, às 06h00 Imagem criada por IA Editoria de Política
Blogueirinha Fitness
No nicho fitness de 2026, a academia deixou de ser só ferro e suor. Virou palco, vitrine e, quando o algoritmo pede, tribunal. Lá fora, musas são expulsas por excesso de selfie, outras pregam que o treino virou cabaré, há quem denuncie a câmera escondida no aparelho da panturrilha e quem caia por um deepfake que transformou macaquinho em biquíni. Todos imaginam quem seja cada uma delas. A regra é uma só: o corpo é conteúdo. A convivência, detalhe. Ocorre que, em Salvador, o barraco ganhou endereço nobre. Corredor da Vitória, Graça, Horto Florestal e Barra. Uma blogueirinha fitness, toda bronzeada, com aquela marquinha de sol, se meteu na vida conjugal de um advogado de nome pesado e fez o rapaz ficar apaixonado. Mas a Blogueirinha é arisca e o alvo mudou de banca recentemente. Um famoso nutrólogo da cidade, aquele que prescreve o milagre em cápsula e cobra a consulta no peso do ouro, parece ter trocado o manual da reposição pelo da performance. Testosterona no papel; tadalafila na prática. O objetivo é acompanhar a garota fitness no ritmo que o Reels exige e o corpo, depois dos 40, já não tem tanta disposição.
O Empreiteiro Pinóquio
No canteiro brasileiro, o produto mais caro nunca foi o concreto. Foi o relacionamento. Cobra-se milhão não pela ponte, mas pela porta do ministério. Ex-ministro, ex-deputado, advogado de agenda inflada: a grife do consultor estratégico. O que se vende é a lista telefônica. O que se entrega é o edital já costurado, exigência técnica tão sob medida que só uma empresa veste. A anatomia é velha e documentada. Acesso ao termo de referência antes do Diário Oficial. Emenda carimbada no município onde o terreno já está reservado. Pregão com proposta de cobertura, concorrência de teatro. Quem combinou o lote em sala fechada entra com o menor preço. Quem comprou o gestor entra depois com o aditivo. A obra nasce barata e termina no triplo. A cada reajuste por “imprevisto técnico”, o nariz do empreiteiro cresce e o orçamento, idem. Houve quem industrializasse a mentira: setor de operações, campanha no débito, propina no crédito, cartel na ata. Houve quem exportasse o método, embaixador informal na África e na América Latina, empréstimo do banco público como aval da amizade. A lei nova exige compliance, canal de denúncia, multa no faturamento. O balcão, dizem, fechou. Em Salvador, o Pinóquio tem endereço e sotaque: empreiteiro que vende mentira no atacado e ainda encontra fila no varejo. Tem muita gente boa caindo no conto do vigário, mas até quando?
O Rei do Agro
No Brasil, soja também se planta em gabinete. O título informal de Rei do Agro não nasce só no silo: nasce na cadeira. Governador, senador, ministro. Quem senta colhe o que o edital não escreve: crédito, zona, licença, bancada. O negócio cresce. A lavoura, idem. A fronteira entre o campo e o Estado some no horizonte reto. O trono, porém, veio com inquérito. Denúncia de compra de vaga em tribunal de contas: propina para aposentar conselheiro e sentar aliado. Delação de sucessor descrevendo organização para desviar recurso público. Empreiteira falando em caixa dois de campanha. O rei nega, contesta delator e segue no comando do império, agora pela família e pelo memorial, mesmo longe da urna. À volta, a corte se renova. Há quem saia da lavoura para o ministério e volte ao Senado com o gosto amargo de leilão anulado: mercearia no lote, corretora de ex-assessor, secretário demitido, suspeita de favorecimento. Há o clã das sementes: o pai quase ministro, laranja no banco oficial, queda antes da posse; o filho, mega doador, articula a bancada no atacado e segura o controle regional no varejo das campanhas. A fórmula é a mesma, só muda a safra: política para o negócio crescer, negócio para a política não encolher.
O temor de Brasília
Brasília em peso já sabe que é questão de tempo uma nova ofensiva de Flávio Dino mirando as emendas parlamentares. O spoiler foi dado na última sessão do STF. Resta saber se o envolvimento direto de políticos baianos será desmascarado mais uma vez nacionalmente. O reflexo eleitoral pode ser desastroso.
Sem metas
Em 2022, Jerônimo Rodrigues falava em zerar a fila da regulação. Quatro anos depois, diante da cobrança, o “vou zerar” virou um mais confortável “vou trabalhar para isso”.
Dois palanques
O presidente da Câmara Municipal de Salvador, Carlos Muniz, voltou a reiterar o seu voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o Palácio do Planalto. A escolha do tucano vai contra o candidato apoiado pelo líder da oposição na Bahia, ACM Neto, que tem declarado aos quatro ventos que o seu “presidente” é Ronaldo Caiado... Hum, será mesmo? A insistência de Muniz também levanta uma suspeita sobre o reforço do voto “Lula-Neto” na Bahia, que parece agradar, e muito, o ex-prefeito de Salvador. Em momentos de “empate técnico”, qualquer estratégia para alcançar a vitória é válida.
Pablo, qual é a música?
Se o voto Lula-Neto vai colar, ainda não se sabe. Mas quem tá coladinho na curtição é o secretário Pablo Souza, que mostrou mobilidade também pra se jogar atrás do paredão. Haja panturrilha.
É pique, é pique...
Na falta de uma decisão de ACM Neto em apoiar Lula ou Flávio na corrida eleitoral, o povo da Prefs tá dando graças a Deus pelo o ex-prefeito se declarar neutro entre candidatos de verdade à Presidência. Até o bolo não esconde que tipo de governo a galera do Comércio quer...
Pura tensão
O clima no meio político baiano é de pura tensão. Nos bastidores, a dor de cabeça é geral entre os articuladores e equipes de campanha para a disputa estadual. O nervosismo tem endereço fixo. As bolsas de apostas já projetam uma renovação de pelo menos 40% nas cadeiras da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). Muito parlamentar veterano já começou a perder o sono.
Vergonha alheia mode ON
A maior preocupação de Diego Castro para tentar manter a (ameaçada) cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) é viralizar na internet com momentos tenebrosos promovidos por ele durante a campanha eleitoral. Desta vez, o deputado se inspirou na Escola de Atores Wolf Maia para protagonizar uma cena de total “vergonha alheia” ao sair de dentro de um caixão para atacar estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Com o vocabulário de milhões, para não dizer o contrário, o bolsonarista se referiu aos alunos como “maconheiros”. Parabéns pela coragem, pois faltou muita noção.
Baixaria eleitoral
Gustavo Ferraz afirmou estar apenas se manifestando livremente quando disse “chupa minha p...” para um eleitor que o gravou na rua. O empresário, que faz oposição à prefeita Débora Régis, em Lauro de Freitas, declarou que a ação foi uma resposta a ofensas que ouviu sobre ele e sua família. Mas a questão é: isso é comportamento de um político?
Moquequinha
O clima azedou em Mata de São João. O ato político organizado pelo ex-vereador Paulo Henrique, no distrito de Malhadas, para a deputada estadual Ludmilla Fiscina (PSD) teve fraca adesão: apenas cerca de 50 gatos pingados deram as caras no evento. A parlamentar não fez questão nenhuma de esconder a insatisfação. Pessoas próximas garantem que a parlamentar saiu do encontro “revoltada” com o fiasco de público.
O Lobby Bancário
Em Brasília, banco grande não pede hora marcada: pede jurisprudência. O Bradesco conhece o mapa. Quando o palco é o CARF, o tribunal dos impostos, aquele em que a multa pesa bilhões e a decisão vale mais que campanha, o lobby deixa de ser conversa de anteparo e vira operação. Zelotes escancarou o método: consultoria no papel, tráfico nos corredores, auditor no tabuleiro, executivo na sala ao lado. O objetivo era seco: desfazer uma cobrança na casa dos R$ 3 bilhões. A acusação, mais seca ainda: venda de decisão favorável. Luiz Carlos Trabuco e outros da cúpula viraram réus. O país viu as vísceras. Depois viu o desfecho. A Justiça Federal absolveu. O STJ trancou a ação penal. A tese vencedora: tratativa não é propina, encontro não é crime, e o que não se prova em espécie não atravessa a porta da condenação. Tudo isso e muito mais serve como estímulo para os neo-lobistas oferecerem tapete vermelho, e o país assiste indefeso à corrupção entranhada em todos os poderes. Hoje se lembra que o lobby bancário não nasceu no Master: só atualizou a cotação.
Os Neo-Lobistas e o Master
Na capital federal, lobby pesado nunca foi novidade. Sempre houve anteparo, parecer, emenda e o tapete que o Congresso nunca regulamentou de vez. Bancas cobrando o acesso, ensinando a pronunciar “rito” como se fosse doutrina, não estratégia. O método é antigo. O que mudou foi o prato da balança. O Master alterou o peso e a medida. Cifras que o Planalto e o Supremo não costumavam ver no mesmo extrato. Valores que transformam o lobby clássico, aquele que pedia audiência e redigia memorial, em outra espécie: o neo-lobista, que não disputa só a lei, disputa a própria Corte. O honorário deixa de parecer consultoria e passa a parecer território. Ontem, Alexandre de Moraes e André Mendonça sentaram lado a lado e o país assistiu ao segundo tempo: bate-boca, relatório sob suspeita, “mentira” devolvida no mesmo tom, questão de ordem para juntar ou separar os processos. O mérito, o banqueiro, as mensagens, o Master, nada disso foi tratado como deveria. Quem fatura para influir na lei aprendeu que o Supremo também se discute no corredor, no alfaiate, no Club Londrino e em tantos outros palcos sob cortina. O plenário de ontem, rachado, adiado, sem fechar o capítulo, só mediu o intervalo até o dia 23. O script está pronto. A pergunta não é se havia lobby. Sempre houve. A pergunta é outra: quem vai regular o preço? Haverá quem mantenha a cotação Master?
Deputado Flávio Dino?
Ao confrontar o plenário, atropelar o debate e travar a sessão do STF com um pedido de vista estratégico, Flávio Dino atuou no “julgamento” de Moraes mais como um deputado influenciador do que como um magistrado isento. O tom incisivo e o cálculo do embate escancararam que o ministro ainda não despiu a vestimenta da política partidária. Ao levar os métodos do Congresso para a Suprema Corte, Dino atropela a liturgia do cargo e transforma o tribunal no que ele mais deveria combater: uma arena de pura disputa parlamentar.