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Colunas / Na Sombra do Poder

Sombra Retrô: A Corretora do Amor

Os bastidores do passado da sociedade baiana  |  Imagem criada por IA

Publicado em 06/11/2026, às 06h00   Imagem criada por IA   Editoria de Política

A Corretora do Amor
Em Salvador, nos anos 90, o mercado imobiliário movimentava fortunas e a alta sociedade cultivava segredos mais valiosos que apartamentos na Vitória. Uma famosa corretora teria descoberto um negócio ainda mais promissor que vender imóveis: negociar aproximações sentimentais. Conhecida nos salões elegantes, transitava entre empresários, políticos, milionários e socialites com a desenvoltura de quem possuía a chave de todas as portas, inclusive as conjugais. A Corretora do Amor transformava visitas a coberturas em encontros providenciais, jantares de negócios em romances discretos e confidências amorosas em oportunidades de ascensão social. Entre procurações, promessas e supostos trambiques, sua verdadeira especialidade parecia ser identificar quem tinha patrimônio, quem procurava companhia e quem precisava esconder alguma coisa. A corretora não vendia apenas metros quadrados: especulava com sentimentos, administrava segredos e parecia cobrar comissão até do cupido. O problema é que amor não tem escritura, fidelidade não admite procuração e certas portas, depois de abertas, revelam muito mais do que o proprietário gostaria.

Portelinha, o Xerife 
Na Salvador dos anos 80 e 90, quando a malandragem tinha endereço conhecido e o Rio Vermelho misturava boemia, artistas, intelectuais e personagens da madrugada, havia um policial que dispensava apresentações: Paulo Roberto da Cruz Portela, o lendário Portelinha. Investigador de faro apurado, óculos escuros e conversa afiada, conhecia os becos, os botequins e os segredos da cidade como poucos. Começou na polícia em 1978, passou pela escola das ruas do antigo Maciel e ganhou notoriedade na 7ª Delegacia, onde comandou investigações por 13 anos. Participou de episódios históricos, entre eles a investigação que culminou na prisão do mafioso italiano Tommaso Buscetta, e virou personagem obrigatório dos programas policiais da televisão baiana. Portelinha transitava entre o cidadão comum, os frequentadores da noite e os figurões da sociedade com a autoridade de quem conhecia Salvador sem precisar de Waze. Diz o folclore que bastava seu nome circular para muito espertalhão reconsiderar a própria valentia. Foram 44 anos de Polícia Civil, incontáveis histórias e uma vida dedicada à investigação. Faleceu em 2022, deixando saudades e um acervo de causos que mereceria vários livros. Naquela Bahia, políticos tinham assessores, empresários tinham seguranças e malandros tinham desculpas. Portelinha tinha memória, coragem e faro. Conhecia a cidade, seus personagens e suas histórias. E, se resolvesse contar tudo o que sabia, talvez faltassem páginas nos jornais e sobrassem explicações nos salões da alta sociedade.

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O Caçador de Boleiros
Nos anos 80 e 90 quando o sonho de vestir a camisa de um grande clube começava nas famosas peneiras, o futebol de base era território de olheiros, dirigentes e descobridores de talentos. Entre promessas de profissionalização e carreiras milionárias, circulavam também histórias que raramente ultrapassavam os muros dos centros de treinamento. Reza a memória de antigos frequentadores que algumas famílias da classe média soteropolitana demonstravam receio de entregar seus adolescentes aos cuidados de um “Caçador de Boleiros” do meio esportivo. O temor envolvia comentários sobre abordagens inadequadas e envolvimento sexual com adolescentes, que jamais foram investigados pela polícia e esclarecidos publicamente. Décadas depois, permanece uma pergunta incômoda: existem adultos atualmente que se submeteram às investidas do Caçador de Boleiros e cujas histórias nunca encontraram espaço para serem ouvidas? Nenhuma promessa de carreira poderia justificar o silêncio diante dos abusos tão propalados à época. Afinal, a peneira deveria selecionar futuros craques, mas jamais colocar a infância em risco de abuso sexual.

Corrupção e Pecados da República
Na Bahia dos anos 90, quando a política era território de coronéis, empreiteiros e acordos costurados longe dos olhos do povo, um político do alto escalão parecia administrar duas contabilidades: a do dinheiro e a do coração. Na primeira, emendas, favores, negócios suspeitos e cifras que desafiavam os contracheques oficiais. Na segunda, romances clandestinos, promessas de fidelidade e encontros que exigiam mais sigilo que documentos de Estado. O político transitava entre gabinetes, salões elegantes e endereços discretos com a desenvoltura de quem confundia patrimônio público com patrimônio particular. Enquanto a República descobria os escândalos orçamentários dos anões e os milagres das fortunas inexplicáveis, o povo ainda desconhecia as amantes, jantares secretos e despesas que jamais apareceriam nas declarações oficiais. Naquela Bahia, havia quem traísse aliados durante o expediente e compromissos amorosos depois do jantar. O curioso é que todos juravam inocência: nas contas, a culpa era da contabilidade; nos romances, do cupido. No fim, o maior talento do político não era administrar dinheiro nem conquistar corações. Era tentar esconder as duas coisas e ainda posar de homem de família e defensor da moralidade.

Escândalo do Cassino e o Banquete dos Anões
Nos anos 90 os Anões do Orçamento descobriram uma maneira extraordinária de fazer dinheiro crescer sem trabalhar. A CPI de 1993 revelou uma engrenagem de emendas manipuladas, empreiteiras favorecidas, entidades fantasmas e propinas que transformou o Congresso num verdadeiro cassino de cifras milionárias. Nos bastidores o espetáculo ganhou contornos de cabaré: mansões, uísques importados, mulheres deslumbrantes, festas reservadas com poderosos, noites de luxo ostensivo e discrição obrigatória, onde a moralidade ficava do lado de fora. A realidade documentada não precisava de tantos adornos. Um deputado baiano sortudo explicou sua fortuna com mais de duzentos prêmios de loteria e uma suposta ajudinha divina. Ao final, vieram renúncias, cassações e carreiras arruinadas. Naquele cassino da República, o povo entrava com o dinheiro, os políticos escolhiam as cartas e os empreiteiros disputavam a banca. A sorte parecia sempre sorrir aos mesmos jogadores. Até que a CPI resolveu conferir o baralho. E descobriu que, naquele jogo, o verdadeiro anão era o tamanho da vergonha.

Classificação Indicativa: Livre


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