Colunas / Na Sombra do Poder
Publicado em 09/10/2026, às 06h00 - Atualizado às 06h30 Imagem criada por IA Editoria de Política
Na Salvador dos anos 90, quando os segredos da política e da alta sociedade ainda não circulavam pelo WhatsApp, havia um personagem que sabia mais do que muito serviço de inteligência: Everaldo, o lendário anão do Baby Beef. Impecável no paletó e na gravata, recebia a fina flor da Bahia no restaurante de Mamede Paes Mendonça, verdadeiro quartel-general de políticos, empresários, magistrados e socialites. Entre almoços conspiratórios, jantares discretos, romances nem tanto e acordos costurados ao sabor dos melhores vinhos, Everaldo observava tudo. Conhecia os habitués, as companhias, os encontros e os desencontros. Era um arquivo vivo, daqueles que não precisavam de senha nem de HD. Tamanho prestígio o levou até ao folclore político do Esporte Clube Bahia, onde seu nome virou referência nas discussões sobre democracia. Dizem que, se Everaldo resolvesse escrever suas memórias, muita biografia autorizada precisaria de revisão. Era pequeno na estatura, gigante na memória. E, naquela Bahia, quem sabia demais não precisava falar nada.
Nas décadas passadas, antes do Instagram transformar adultério em crise de reputação, existia um templo da perdição em Patamares: o lendário Lagoa Mar, carinhosamente rebatizado pela malícia soteropolitana de 'Ladroa' Mar. Ao som de Gera Samba, Harmonia e muito pagodão, desfilavam patricinhas, mauricinhos, piriguetes e marmanjos casados com inexplicável vocação para solteiros. A pista era democrática: começava com dança, evoluía para pegação e, não raro, terminava em barraco. Nos corredores, romances clandestinos; nos camarotes, ciúmes explosivos; na saída, discussões que dispensavam o microfone. Dizem que muito casamento entrou pela porta principal e saiu pela emergência sentimental. Celular com câmera não existia, mas a central de fofocas funcionava melhor que qualquer algoritmo. Quem viveu, lembra. Quem traiu, disfarça. E quem apanhou, até hoje jura que escorregou. O 'Ladroa' Mar fechou as portas, mas deixou uma geração de saudosos — e outra de sobreviventes que agradece diariamente pela inexistência dos Stories. Quem tem saudades volta ao local para apreciar o melhor Caranguejo da Bahia, por salgados R$14,99, com aquela cerveja mofada!!!
Na Salvador de 1998, quando a Pituba consolidava sua posição entre os endereços mais valorizados da capital, uma história envolvendo um medico ginecologista teria transformado a Avenida Paulo VI em cenário de um episódio policial dramático. Segundo relatos, o médico teria sido baleado dentro de um automóvel, numa ocorrência inicialmente associada a um assalto com execução. A história prossegue com investigações, prisões e condenações. Quase três décadas depois, a pergunta continua pertinente: o que efetivamente aconteceu naquela noite e o que registraram os investigadores?
Nos anos 70, 80 e 90, o Baile Preto & Branco do Bahiano de Tênis era o verdadeiro Carnaval da alta sociedade. Pelos salões da Graça desfilavam políticos, empresários, advogados, médicos, magistrados e socialites, todos impecavelmente vestidos e nem sempre acompanhados de quem deveriam. Entre uísques generosos, marchinhas e o furacão do axé, o baile virou cenário de incontáveis casos e causos. Reza o folclore que havia namoros clandestinos, encontros discretos, traições de Carnaval e ciúmes capazes de provocar crises diplomáticas entre famílias tradicionais. Políticos costuravam alianças enquanto outros desfaziam compromissos menos republicanos. Na pista, esposas procuravam maridos; nos cantos, alguns maridos pareciam procurar novas emoções. E os advogados? Esses, dizem, já saíam com as teses de defesa preparadas. O traje exigia apenas duas cores, mas os pecados tinham cinquenta tons. Naquela Bahia sem câmeras de celular, muita reputação foi salva pela discrição da madrugada. Quem viveu, sabe, e até hoje guarda o segredo, mas tem quem cobre pela memória.
Na Bahia dos anos 70, 80 e 90, o Ba-Vi era uma guerra de nervos, vaidades e coronéis da bola. Paulo Maracajá, Alexi Portela e Ademar Pinheiro Lemos protagonizavam um futebol em que os bastidores rendiam mais emoções que os noventa minutos. Em 1976, o argentino Fischer marcou para o Vitória, a pancadaria tomou conta do gramado e o atacante, acompanhado de Alexi, acabou na delegacia, apontando Sapatão, Perivaldo, Jesum e até Maracajá entre seus supostos agressores. Em 1985, outra batalha campal: o Bahia ganhou o clássico, mas o Vitória ficou com a taça. Já em 1988, Maracajá resolveu inovar: invadiu o campo contra o América-RJ, tomou a bola e praticamente intimou o árbitro a validar um gol. Na epopeia do bicampeonato brasileiro, Bobô, Ronaldo e Evaristo de Macedo ainda enfrentaram um despacho espiritual no Beira-Rio, que, segundo o folclore, tinha mais picanha e calabresa que churrascaria. No Barradão dos anos 90, o clássico ganhou novos capítulos de rivalidade e disputas fora das quatro linhas. Naqueles tempos, cartola não precisava de chuteira para entrar em campo, juiz precisava de coragem e torcedor, de coração forte. O futebol mudou, mas a Bahia continua sabendo que, no Ba-Vi, até o apito final pode ser apenas o começo da confusão.
O "Caso Menino do MEP" é uma das páginas mais indigestas da política nacional por expor como a fronteira entre a piada de mau gosto, a bravata e o crime pode se tornar uma armadilha reputacional. Quando César Benjamin trouxe a público o relato de um almoço em 1994, no qual Lula teria contado, em tom jocoso, ter tentado subjugar sexualmente um companheiro de cela em 1980, o país assistiu ao choque entre a incontinência verbal de uma liderança e a gravidade de uma acusação sobre violência sexual. Ainda que a suposta vítima tenha vindo a público desmentir a história e companheiros da época tenham negado o fato, o episódio deixou marcas profundas. Para além das versões e desmentidos, a polêmica revelou a leviandade com que assuntos estarrecedores circulam nos bastidores do poder e o preço cobrado quando conversas privadas de figurões da política ganham a luz do dia.