Colunas / Na Sombra do Poder
Publicado em 28/08/2026, às 05h50 Almiro Lopes/Jornal Correio da Bahia Editoria de Política
O apartamento da Pituba
20 de junho de 1989. Apart-hotel de luxo. Uma comerciária de 22 anos. Um empresário. Uma pistola. E duas horas em que o socorro não veio. Quando enfim abriram o quarto, ela ainda dava sinais de vida. No hospital, não resistiu. Ele falou em suicídio. A perícia falou o contrário. Homicídio doloso qualificado. Omissão de socorro. O laudo enterrou a versão. O resto da década enterrou o julgamento. Prisão preventiva em agosto. Sumiço. Nomes falsos. Brasil e Paraguai. A Federal o pega em 1991, na fronteira. Em 1992, no Hospital Português, a escolta perde o preso. Disfarce. Fuga. Cinema ruim com final pior. Do outro lado da fronteira, habeas corpus. Extradição negada. O desfecho não foi o Júri. Foi 1994. Um dia antes de depor, a mulher apontada como cúmplice morre em acidente de trânsito em Salvador. Meses depois, o empresário cai com um monomotor. A Secretaria de Segurança exigiu certeza do cadáver: havia quem apostasse em mais um desaparecimento. O óbito fechou o processo. Extinto. Sem Tribunal do Júri. Sem sentença. Salvador ficou com o endereço. E com a pergunta que o fórum nunca respondeu. Quem leu o caso naqueles anos ainda vê o apart-hotel. E o avião caindo no lugar da sentença.
A Aula Das Cinco
Houve um tempo em Salvador em que certos engarrafamentos tinham explicações mais interessantes do que chuva, acidente ou obra na pista. No fim dos anos 80 e início dos 90, uma academia comandada por Bira e Walter reunia, ao cair da tarde, aquele que era o metro quadrado mais cobiçado da cidade. Não exatamente pelos aparelhos, tampouco pela qualidade técnica das aulas — embora ninguém ousasse questioná-la. O fenômeno começava às cinco. Era nesse horário que algumas das mulheres mais bonitas, cobiçadas e comentadas da Salvador de então chegavam para malhar. Muitas estavam no esplendor dos trinta e poucos anos, numa época em que não existiam filtros, stories, procedimentos em série nem a indústria contemporânea da exposição. Para chamar atenção, era preciso comparecer pessoalmente. E elas compareciam. A aula das cinco transformou-se, pouco a pouco, em atração paralela da cidade. Havia quem enfrentasse o trânsito para treinar, naturalmente. Mas também havia os que passavam devagar demais pela porta, os que surgiam com frequência suspeita nas redondezas e aqueles que, de súbito, desenvolveram um comovente interesse por saúde, exercícios aeróbicos e vida saudável. As rainhas daquela turma talvez nem imaginassem a extensão do transtorno urbano que provocavam. Ou talvez imaginassem perfeitamente. Salvador era menor, as notícias corriam sem internet e certos endereços dispensavam divulgação. Bastava dizer: Hoje tem aula das cinco. E muita gente entendia exatamente do que se estava falando.