Colunas / Na Sombra do Poder
Publicado em 16/10/2026, às 06h00 Imagem criada por IA Editoria de Política
O Pescador da Penha
Na Bahia de 1988, enquanto Brasília promulgava a Constituição Cidadã, um conhecido figurão da política parecia cultivar sua própria interpretação dos direitos e deveres conjugais. Atlético, galanteador e veranista da aprazível Penha, mantinha um ritual quase religioso: às quatro da madrugada, despedia-se da esposa e saía para pescar. Vara, anzol, petiscos, bebida premium e, eventualmente, um charuto cubano compunham o cenário. Ora embarcava em seu possante barco, ora preferia pescarias em terra firme, curiosamente próximas à residência de um empresário vizinho, onde até os apetrechos encontravam abrigo. Reza o folclore que, na ausência do dono da casa, as redes mais convidativas não eram exatamente as de pesca. Dois anos depois, a história ganhou um capítulo inesperado: o nascimento de um menino cujas feições, segundo as línguas antigas, lembravam surpreendentemente as do pescador. Poucos se atrevem a perguntar qual é a versão do Pescador. Na Penha, Iemanjá guardava os segredos do mar, mas nem todos os frutos daquela pescaria teriam vindo das águas. Afinal, há peixe que morre pela boca e pescador que acaba fisgado pela própria rede.
O Rei da Telebahia
Nos anos 70, 80 e 90, possuir uma linha da Telebahia era quase um título de nobreza. Telefone não se instalava, conquistava-se. Custava milhares de dólares no mercado paralelo, entrava no patrimônio da família e distinguia quem tinha dinheiro de quem tinha, sobretudo, influência. Nos salões da sociedade soteropolitana, políticos, empresários e integrantes da cúpula das telecomunicações circulavam num universo onde conseguir uma linha podia valer mais que um convite para jantar com o governador. O tempo passou, e o glamour encontrou os escândalos. Em 1998, a privatização do Sistema Telebrás movimentou R$ 22 bilhões, enquanto grampos, suspeitas de favorecimento, fundos de pensão e disputas entre poderosos transformavam a telefonia em assunto policial, político e judicial. Naquela Bahia, telefone era patrimônio, diretor era autoridade e linha instalada parecia favor de príncipe. Hoje, o aparelho cabe no bolso, a antiga exclusividade virou peça de museu e os impérios foram engolidos pelo tempo. De tantos milhões, disputas, vaidades e ostentação, restou a grande ironia: quem ontem mandava atender hoje talvez não encontre ninguém do outro lado da linha. O poder chamou, chamou, e o Rei da Telebahia caiu na caixa postal da história.
Baile de Gala
Nos anos 70 e 80, o Le Méridien, no Rio Vermelho, era o templo onde a elite baiana desfilava dinheiro, poder e segredos sob os lustres da sofisticação. Entre os salões de gala e a lendária Regine's, políticos, empresários, magistrados, médicos e socialites brindavam ao glamour, enquanto a discrição tentava sobreviver à madrugada. Nesse cenário reinava um conhecido coroa grisalho, convencido de que cada baile era uma homenagem à sua irresistível elegância. Décadas depois, o antigo galã ainda vive das lembranças mais picantes, dos romances proibidos e dos encontros que, segundo o folclore, escapavam até das colunas sociais. Agora, acalenta o sonho de escrever, sob pseudônimo, um livro capaz de ressuscitar personagens e revelar segredos cuidadosamente enterrados. O problema é que muita gente ainda está viva e prefere continuar respeitável. O Méridien apagou suas luzes, mas o grisalho ameaça acender o passado. Naquele baile, todos usavam máscaras de elegância. O perigo é alguém resolver tirá-las quarenta anos depois.
Advogado do Diabo
Na Salvador dos anos 90, quando os segredos da alta sociedade ainda não cabiam nos celulares, um temido causídico circulava entre os maiores empresários e caciques da política baiana como verdadeiro senhor das confidências. Mestre dos pseudônimos, das metáforas e das conversas de duplo sentido, tinha uma agenda tão disputada quanto sua mesa de uísque às quintas-feiras, num restaurante da Tancredo Neves. Às sextas, o confessionário mudava para o lendário Baby Beef, onde o almoço podia durar mais que um processo judicial. Falastrão, sedutor e com vocação para Don Juan, colecionava histórias sobre belas acompanhantes, autoridades e amizades convenientemente cultivadas, causos que a boemia jamais conseguiu separar inteiramente da fantasia. Agora, com as peripécias de Vorcaro ocupando o noticiário, o velho personagem voltou às conversas nostálgicas dos poderosos. Naquela Bahia, o advogado conhecia as leis, os homens e, segundo o folclore, suas fraquezas. O diabo talvez nem precisasse de defesa. Bastava convidá-lo para jantar.