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Sombra Retrô: A Pasta Rosa

Os bastidores do passado da sociedade baiana  |  Imagem criada por IA

Publicado em 11/09/2026, às 06h00   Imagem criada por IA   Editoria de Política

A Pasta Rosa
Nos anos 1990, documentos encontrados durante a intervenção no Banco Econômico incendiaram a política baiana ao registrar supostas contribuições financeiras a políticos. O nome de Antônio Carlos Magalhães apareceu no meio da papelada, alimentando uma das maiores tempestades políticas da época. ACM negou irregularidades, e o caso nunca deixou de render versões, suspeitas e muito tiroteio verbal. Mais de três décadas depois, a história do Banco Master mostra que, quando banco, poder e política se encontram, certas pastas podem até mudar de cor, mas o final nunca é cor-de-rosa.

O Grampo Nunca Morre
Há mais de duas décadas, na Bahia de ACM, o Estado já aprendia a ouvir o que não deveria. A Secretaria de Segurança virava estúdio clandestino: adversários, magistrados e desafetos no fone, fitas rolando, o poder medindo o tamanho do silêncio alheio. O método era tosco, analógico, quase artesanal. O propósito, eterno: saber primeiro, intimidar depois, governar com o que o outro murmurou sem saber que falava para o arquivo. O tempo passou. A fita virou software. O fone fixo virou geolocalização em tempo real. O coronel regional virou rede federal. E o roteiro insiste em se repetir. No tabuleiro de 2026, Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Alexandre Ramagem figuram no enredo da chamada estrutura paralela de inteligência, o First Mile farejando celulares, dossiês sem perfume institucional, alvos escolhidos com critério político. O aparato muda de nome e de gabinete; a tentação de transformar polícia e agência em ouvido particular permanece. Entre um século e outro, o que não mudou foi o ofício de quem recusa o atalho da mentira. Enquanto a arapongagem se moderniza, há quem ainda cruze papel, vazamento e risco sem fabricar fato. Esses, os que não vendem fake news como furo, deveriam ser laureados com a mesma solenidade com que, no passado, se premiou a cobertura dos grampos baianos. Não por nostalgia. Por higiene pública. Porque o prêmio, neste país, às vezes é o único carimbo que o poder não consegue interceptar.

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O Cardápio das Grades
Na Bahia das celas cheias e dos contratos ainda mais cheios, a fome nunca foi só de quem está atrás da grade. Foi também de edital. Décadas de rumores no sistema prisional repetem o mesmo tempero: o Estado alega pressa, o preso engole o que sobra, e no meio do caminho alguém fatura o banquete cobrado no papel. O método é conhecido demais para parecer novidade. Concorrência que só disputa no envelope. “Emergência” que se estende até virar rotina. Cozinha interditada, obra atrasada, risco de faltar refeição e, pronto, nasce a contratação direta, aquele atalho que o cofre público já memorizou. Em Salvador, Feira de Santana, Juazeiro e Simões Filho, o burburinho é o mesmo: valor de refeição completa, porção de jejum. Relatos de comida azeda, pedra no arroz, inseto no feijão. Do lado de fora, a planilha fecha. Do lado de dentro, o estômago processa o resto. Há quem jure que a marmita é só alimento. Há quem saiba que a embalagem às vezes viaja com outro recheio. Há quem diga que fiscalizar mil quentinhas é impossível e por isso mesmo o negócio floresce. No tabuleiro da SEAP, cada lote é um prato feito: quem já está na cozinha raramente sai; quem tenta entrar limpo leva carimbo de higiene insuficiente. O Ministério Público já sentou à mesa mais de uma vez. Recomendação urgente, interdição, alerta de descontinuidade. O Estado promete cardápio novo. O preso espera o almoço de ontem. Resta saber quem vai provar o prato com as eleições batendo à porta.

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O Ba-Vi dos Desmemoriados
Na Salvador das décadas de 70, 80 e 90, a política se resolvia no gogó e no projeto, mas o pós-debate descia redondo. Era a época em que os dinossauros da Arena e os herdeiros do MDB quebravam o pau na Assembleia Legislativa e, horas depois, dividiam salões de bares e restaurantes da cidade de forma urbana e cordial. Havia paixão, havia projetos antagônicos de país, mas havia, sobretudo, o reconhecimento do outro. A disputa era pelo teto da Nova República, não pela aniquilação do vizinho. Hoje há feeds e fígados inflamados. O debate programático faliu, substituído por um Ba-Vi digital perpétuo entre o lulismo e o bolsonarismo, operado estritamente pelas vísceras. Onde antes se discutia inflação e direitos civis, hoje se joga para a torcida com pautas de costumes e dancinhas coreografadas no TikTok. O adversário virou inimigo existencial; a política virou clubismo cego. Nos camarotes climatizados da nova fidalguia baiana, ninguém quer a bola, só querem a canela do rival para gerar o corte do Reels. A cidade gourmetizou o food truck, filtrou o convívio e trocou a esperança institucional por um looping de 15 segundos. Antigamente, a ressaca política se curava com diálogo e cafezinho. Hoje, ela só gera o bloqueio no WhatsApp e o isolamento na bolha.

O Rango da Madruga
Em Salvador, a madrugada das décadas de 70, 80 e 90 não acabava quando Champanhe, Hipopotamus, Green House, Close-up, Le Zodiac ou Tropicália apagavam o neon. O verdadeiro segundo tempo começava no balcão, no trailer, na calçada. Ali, patricinha, policial, folião e figura da noite compartilhavam o mesmo guardanapo. Harmonia faminta. Democracia de maionese. O Baitakão, na Piedade e no Farol da Barra, era catedral. O sanduíche vinha tão monumental que a primeira mordida pedia manual de instruções. Quem saía inteiro da roupa, sem uma mancha, merecia diploma. Ao lado, o cachorro-quente do Águia transformava a porta do colégio em ritual das 3h: dogão prensado, molho caseiro, fila de sobreviventes da sessão da meia-noite. No Corsário, o trailer dos gaúchos virava febre: estrogonofe no pão, frango com catupiri, cheese coração. A orla descobria que larica também pode ser tese. A Kombi Quatro Rodas era farol itinerante. Dizer que comeu nela era carimbo: a noite foi até o fim. E na esquina da Carlos Gomes com a Rua da Forca, a Good Day (a Gudêi), pastelaria chinesa que o povo batizou de outro jeito, servia a esfirra que atravessou sessenta anos sem precisar de placa. Lajota vermelha, recheio que não mente. Artista, intelectual e recém-saído da farra no mesmo pedaço de massa. Hoje a cidade gourmetiza o food truck, filtra o cliente e cobra a memória em prestações. O cimento da Piedade ainda está lá. O que sumiu foi o convívio sem lista. A ressaca antiga tinha sabor. A atual, só story.

Classificação Indicativa: Livre


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