BNews Nordeste
Publicado em 09/09/2026, às 06h15 - Atualizado às 06h26 Reprodução Redação Bnews
O estudante de medicina João Lucas Brito, de 24 anos, denunciou à Polícia Civil de Pernambuco ter sido vítima de racismo após publicar fotos de seu ensaio de formatura no Instagram. Em uma das mensagens, enviada por uma conta atribuída a um médico de Brasília, o jovem foi chamado de “favelado” e alvo de ataques relacionados à futura profissão. As informações são do colunista Carlos Madeiro, do Uol.
A publicação foi feita em 1º de setembro. Nas imagens, João aparece pela primeira vez de jaleco, usando óculos escuros prateados e segurando o livro Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC's.
Na legenda, o estudante escreveu sobre sua trajetória até a medicina.
"Aqui quem fala é Dr. João Lucas Brito, mais um sobrevivente: sei muito bem de onde eu venho e valorizo diariamente os que vieram antes de mim pra tornar esse sonho possível. Não ando só, pois do povo eu nasci e médico com o povo eu serei!"
O mesmo perfil voltou a atacar João ao responder a críticas feitas por outros usuários. Em uma das mensagens, escreveu:
"Logo mais esse favelado vai estar matando com um carimbo do CRM [Conselho Regional de Medicina, que fornece registro aos profissionais] na mão. Choro pela qualidade da minha classe".
Antes disso, a conta havia enviado outra mensagem:
"Saudades de quando favelado não entrava em med... Bons tempos!".
João fez capturas de tela das mensagens antes de apagar os comentários. Na última sexta-feira (4), ele registrou um boletim de ocorrência por injúria praticada no ambiente virtual. A Polícia Civil informou ao colunista que o caso é investigado pela Delegacia do Cordeiro.
Morador da comunidade do Cardoso, no bairro da Madalena, zona oeste do Recife, João é o primeiro médico da família. Ele está no 11º período de medicina na Faculdade Pernambucana de Saúde e estuda com bolsa integral do Prouni (Programa Universidade para Todos). A previsão é que conclua o curso no fim deste ano.
Apesar de ter vivido toda a vida em uma comunidade vulnerável, o estudante conta que teve a oportunidade de cursar o ensino médio em uma escola particular de elite próxima de sua casa.
"Eu tinha bolsa integral porque a única condição para isso era ser filho de funcionário, e meu pai é, até hoje, auxiliar de coordenação. Lá tive privilégios como ganhar livros de graça, praticar esportes sem pagar nada e contar com uma boa rede de apoio", relata à coluna.
Fã dos Racionais MC's, João também explicou a escolha do livro para o ensaio de formatura.
"Esse livro reúne as letras das músicas que sei de cor. Ele sempre ficava na minha prateleira e sempre pensei que, quando fosse tirar a foto de formatura, iria levá-lo comigo por representar muito para mim".
João ingressou na faculdade em 2021 e afirma que sofreu preconceito de “alguns colegas específicos” durante a graduação. Segundo ele, também houve acolhimento de professores, funcionários e outros alunos.
"Sempre me senti muito acolhido por professores, funcionários e outros alunos. Tive sorte porque, na minha turma, 10 dos 96 alunos eram do Prouni. Um deles teve nota mil no Enem. O nível é alto", afirma.
Desta vez, porém, o estudante decidiu levar o caso adiante: "Dessa vez não vou deixar passar porque sei que estou representando muita gente que sofreu calada", afirma.
Atualmente, João cumpre o estágio obrigatório em clínica médica no Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira). A intenção é se especializar em psiquiatria e trabalhar na própria comunidade.
Durante a graduação, o estudante também teve destaque acadêmico. Mesmo antes de concluir o curso de medicina, foi aprovado e cursa o segundo ano do doutorado em Saúde Integral no Imip.
Em junho, João teve a tese qualificada, ou seja, aprovada. O trabalho aborda “desigualdades étnico-raciais e territoriais na maternidade na adolescência no Brasil”. Como parte da pesquisa, ele fará um intercâmbio no Canadá em 2027.
Sobre o episódio de racismo, o estudante afirma que não quer que o caso seja o motivo pelo qual fique conhecido.
"Não vou deixar passar o preconceito porque sei que estou representando muita gente que sofreu calado. Mas eu não quero ser o profissional que ficou famoso por causa de um caso de racismo. Acredito que tenho tanto conteúdo e tanto a dizer ao mundo que não seria justo".
O crime de racismo está previsto na Lei nº 7.716/1989. Segundo o material, ele ocorre quando há discriminação contra uma coletividade indeterminada de pessoas em razão de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O crime é inafiançável e imprescritível.
Já a Lei nº 14.532, de 11 de janeiro de 2023, equiparou o crime de racismo ao de injúria racial, caracterizada pela ofensa à honra de alguém com base em elementos relacionados à raça, cor, etnia, religião ou origem.
A legislação também prevê aumento das penas de um terço até a metade quando o crime ocorre em contexto ou com intenção de descontração, diversão ou recreação.