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Polícia

Exportações fraudulentas, terra indígena e US$ 48 milhões: entenda o esquema que levou Alexandre Pires ao alvo da PF

Investigação aponta extração de minério em Terra Indígena, documentos falsos, exportações fraudulentas e uma complexa operação para movimentar milhões de dólares  |  Divulgação / PF / Leo Jardim

Publicado em 24/09/2026, às 12h44   Divulgação / PF / Leo Jardim   Tiago Di Araújo

Uma operação que começou com a investigação sobre garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami avançou para uma trama que envolve documentos supostamente falsificados, exportações fraudulentas, lavagem de dinheiro e milhões de dólares movimentados por diferentes empresas e pessoas.

Entre os alvos está o cantor e compositor Alexandre Pires, que teve uma casa e um escritório em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, submetidos a mandados de busca e apreensão. As informações são da reportagem do jornal O Globo.

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Alexandre Pires reage após buscas da PF em imóveis ligados ao cantor em operação contra esquema de R$ 31 milhões
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A investigação está relacionada à segunda fase da Operação Disco de Ouro, da Polícia Federal. Segundo a PF, o grupo teria extraído ilegalmente cassiterita entre 2021 e 2022 na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e utilizado documentação falsa para apresentar o minério como se tivesse origem em um garimpo legalizado em Itaituba, no Pará.

O esquema teria movimentado valores milionários e chegado ao mercado internacional. Em um dos episódios investigados, uma empresa estrangeira teria pago antecipadamente US$ 48 milhões, mas acabou recebendo contêineres com areia e pó de brita em vez do minério negociado.

Minério ilegal ganhou documentos de origem falsa

De acordo com a investigação, notas fiscais apontavam a retirada de mais de 110 toneladas de cassiterita de uma área em Itaituba. O problema é que imagens de satélite analisadas pela Polícia Federal teriam mostrado que nunca houve atividade de extração no local indicado nos documentos.

A cassiterita passou a ter grande valor no mercado internacional por ser a principal fonte de estanho, metal utilizado na fabricação de semicondutores e também relacionado à infraestrutura de sistemas de inteligência artificial e projetos de transição energética.

A investigação aponta que o minério retirado ilegalmente da Terra Indígena Yanomami era posteriormente inserido no mercado por meio da documentação que indicava uma origem regular.

Grupo teria enviado areia e brita no lugar da cassiterita

A investigação também identificou uma segunda etapa do esquema depois que mais de 100 toneladas de cassiterita ilegal e um quilo de ouro foram apreendidos em Boa Vista, há quatro anos.

Segundo a PF, a apreensão deixou o grupo sem o minério necessário para cumprir um contrato firmado com a empresa suíça Gerald Metals.

A solução encontrada teria sido enviar outros materiais no lugar da cassiterita. Contêineres foram despachados com areia e pó de brita, acompanhados de laudos químicos que, segundo a investigação, teriam sido falsificados.

Ao todo, 129 contêineres teriam sido enviados para países asiáticos, entre eles Tailândia, China e Malásia. Fiscalizações realizadas nos portos de destino identificaram que pelo menos 109 deles estavam carregados com areia e brita, de acordo com a investigação.

O caso também resultou em uma ação na Justiça de Nova Jersey, nos Estados Unidos, contra Diego Possebon, apontado como um dos envolvidos no esquema.

Como o dinheiro teria sido lavado

Além da origem do minério e da fraude na exportação, a Polícia Federal investiga o caminho percorrido pelo dinheiro obtido com a operação.

Documentos sigilosos da investigação obtidos pelo O Globo apontam que a repatriação dos valores teria ocorrido por dois caminhos.

Um deles seria um sistema informal de compensação financeira conhecido como dólar-cabo hawala. Segundo a investigação, entre US$ 23 milhões e US$ 24 milhões teriam sido movimentados dessa forma.

O dinheiro teria entrado em contas nos Estados Unidos e sido compensado no Brasil por meio de empresas de fachada. Os valores seriam então distribuídos em reais para pessoas apontadas como integrantes da rede, entre elas funcionários ligados aos Possebon, parentes e advogados.

Outro montante, de aproximadamente US$ 26 milhões, teria sido movimentado por meio de um empréstimo para a distribuidora Metalsur.

A investigação também contou com informações provenientes de colaborações premiadas firmadas com a 4ª Vara Criminal Federal de Roraima. Em uma delas, uma colaboradora teria se comprometido, além de prestar depoimentos sobre o esquema, a ministrar um curso para policiais federais sobre técnicas de combate à lavagem de dinheiro e ao uso de empresas fantasmas.

Milhões teriam chegado a empresa ligada a Alexandre Pires

Planilhas financeiras e provas apreendidas pela PF indicariam que, após a movimentação dos dólares, Diego Possebon teria controlado a distribuição de R$ 85,7 milhões.

Desse total, segundo a investigação, R$ 10,9 milhões teriam sido destinados à família de Diego, enquanto R$ 4,1 milhões teriam sido direcionados a um ex-sócio de Matheus Possebon.

Outro valor, de R$ 2,53 milhões, teria sido destinado à empresa APN Serviços Ltda., ligada a Alexandre Pires.

Análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e comprovantes recolhidos pela Polícia Federal apontam ainda que os valores sob investigação relacionados ao cantor e à empresa podem chegar a R$ 30 milhões, considerando transferências e repasses.

Um relatório do Coaf apontou que a Metalsur teria repassado R$ 21,3 milhões a Alexandre Pires e outros R$ 5,3 milhões à APN.

Alexandre Pires era empresariado por Matheus Possebon, apontado na investigação como um dos envolvidos e irmão de Diego Possebon, indicado como acusado de chefiar o esquema.

Cantor já havia sido alvo da operação

Os mandados cumpridos agora não são a primeira vez que Alexandre Pires aparece na investigação.

O cantor já havia sido alvo de buscas na primeira fase da Operação Disco de Ouro, realizada dois anos atrás.

Na nova etapa, além dos endereços ligados a Pires, foram expedidos outros 11 mandados de busca e apreensão, incluindo medidas contra os irmãos Possebon em Porto Alegre. A Justiça Federal também determinou 17 ordens de sequestro de bens e valores.

Outro alvo na capital gaúcha foi Carlos Konrath, presidente do Conselho de Administração da Opus Entretenimento, empresa do setor de shows.

PF também apura danos na Terra Yanomami

A investigação não se limita à movimentação financeira. Segundo o procurador da República em Roraima Alisson Marugal, o Ministério Público também apura a responsabilidade dos envolvidos na cadeia de retirada e comercialização da cassiterita pelos danos provocados aos povos Yanomami durante a crise humanitária entre 2020 e 2022.

Uma estimativa técnica preliminar citada pelo procurador aponta que o valor do minério e dos danos ambientais ultrapassa R$ 1 bilhão.

“Mas a reparação buscada vai além: alcança os impactos sobre a saúde, a cultura e a organização social das comunidades, que o Ministério Público vem documentando a partir de depoimentos colhidos nas aldeias e de dados de saúde do território”, afirmou Marugal.

Alexandre Pires nega qualquer envolvimento

A defesa de Alexandre Pires negou participação do cantor no garimpo ou na extração de minério.

Em nota, o advogado Luiz Flávio Borges D’Urso afirmou que o artista “não tem e nunca teve qualquer envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena”.

Segundo a defesa, Pires foi “tomado de surpresa” pelos novos desdobramentos da operação e teve seu nome “indevidamente” envolvido.

O advogado também declarou que o cantor jamais cometeu qualquer ilegalidade e que isso estaria sendo demonstrado durante as investigações.

A defesa de Diego Possebon informou ao g1 que a nova fase trata de fatos antigos que já teriam sido explicados às autoridades. O advogado Alexandre Wunderlich afirmou que o empresário atuou regularmente e permanece à disposição para prestar esclarecimentos.

A Opus Entretenimento declarou que não foi notificada, procurada ou alvo de medida judicial na operação. Segundo a empresa, houve apenas o cumprimento de um mandado em um endereço particular de seu presidente do Conselho de Administração, que não foi detido e colaborou com a entrega dos documentos solicitados.

Já a defesa de Matheus Possebon afirmou ter recebido a nova fase da operação com surpresa. O advogado Fábio Tofic Simantob disse que os fatos investigados são antigos e que Matheus sempre esteve à disposição das autoridades. A defesa também afirmou que ele atua nos setores de música e entretenimento e “nunca atuou no comércio ou na exportação de minérios”.

Classificação Indicativa: Livre


TagsOperação Disco de Ouropolícia federalalexandre piresCassiteritagarimpo ilegalterra indígena