Polícia
Publicado em 15/07/2026, às 08h21 - Atualizado às 10h43 Reprodução/g1/Arquivo pessoal Camila Sales
O professor Ricardo Akira Matsufuji afirma ter sido vítima de uma violenta agressão na manhã do último sábado (11), por volta das 7h40, na plataforma da estação da Linha 5-Lilás, na Zona Sul de São Paulo. Segundo ele, o ataque foi motivado por homofobia.
Ricardo conta em entrevista para o g1 que seguia para o trabalho e estava em pé no vagão, lendo no celular o material de uma aula, quando sentiu um chute na perna. De acordo com ele, o golpe partiu de um homem desconhecido que estava próximo a ele.
"Era uma pessoa totalmente desconhecida, nunca vi na minha vida. Algumas estações antes da que eu desceria, senti um chute na perna. Não foi forte, mas foi um chute. Tinha um homem que estava perto, pareceu que foi proposital. Ele não teve reação nenhuma, sem contato visual".
Ao desembarcar, Ricardo afirma que foi empurrado ao chão e em seguida, o suspeito, que usava uma máscara branca, passou a agredi-lo.
"Eu não tenho certeza se caí no chão e vi ele vindo para cima de mim, mas lembro da sensação de olhar para trás e ver esse homem vindo. Também lembro dele me desafiando, falando: 'Você pensa que pode me encarar?'"
Segundo o professor, o agressor desferiu diversos socos, bateu sua cabeça contra o chão e, depois, o arremessou contra a parede da estação.
"Ficou intercalando entre parede e chão. Toda vez que me socava, eu caía e tentava levantar. Tinha um grupo de pessoas afastado observando. Eu gritei por socorro, mas ninguém de fato ajudou."
Durante as agressões, o homem também disse ofensas homofóbicas e o acusado de tê-lo filmado dentro do vagão.
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Ricardo conseguiu escapar e correu em direção à escada rolante onde, segundo ele, foi apenas nesse instante que recebeu auxílio.
"Lembro que tinha um homem, uma mulher e outro homem. Todos apontavam para ele e falavam: 'Ele é homofóbico, você viu as coisas que ele estava falando'. As testemunhas ouviram ele dizendo coisas homofóbicas."
Segundo o relato de Ricardo, os agentes de segurança da Motiva, concessionária responsável pela Linha 5-Lilás, chegaram somente depois que as agressões haviam cessado. A vítima e o agressor foram encaminhados para salas distintas e, após os funcionários ouvirem os envolvidos e as testemunhas, a Polícia Militar foi acionada.
Logo em seguida, os dois foram levados para a UPA Vila Mariana utilizando o mesmo veículo.
"Levaram nós dois no mesmo carro do metrô para a UPA. Só tinha um veículo. Me colocaram na frente e ele foi atrás. Tinha uma divisória branca opaca, mas dava para ouvir claramente o homem lá atrás."
No médico, permaneceu em observação e realizou um raio-X.
"O que me incomodou na UPA foi o fato de o médico mal ter me examinado. Ele só pegou uma lanterna, olhou meu olho e pediu um raio-X. Depois disse que eu não tinha nenhuma fratura. Mais tarde descobri que isso era mentira: eu tinha uma fratura. Ele falou que não havia tomógrafo na unidade e que não via necessidade de me encaminhar para outro hospital."
Ao comparecer ao 27º Distrito Policial para o registro do caso, constatou que tanto o agressor quanto os funcionários da concessionária já haviam sido liberados. O suspeito, embora conduzido à delegacia, foi solto após os procedimentos de registro.
Sem ter tido acesso ao boletim de ocorrência, o professor também criticou a condução do registro policial, relatando que a polícia se recusou a tipificar o ocorrido como homofobia. Além disso, ele foi registrado sob a dupla classificação de "vítima/autor", sob a justificativa de que o agressor machucou a própria mão ao desferir os golpes.
"Com a escrevente foi complicado, porque tive que pedir umas três vezes para constar a palavra 'homofobia' no registro."
Além das lesões físicas como fratura, perfuração do tímpano e hematomas, Ricardo afirma que ainda enfrenta as consequências psicológicas do ataque. Como utiliza diariamente a Linha 5-Lilás para ir ao trabalho, ele relata medo de voltar a encontrar o agressor.
"Eu fico pensando como vai ser pegar o metrô no próximo sábado para ir trabalhar. Estava até pensando se deveria tentar ir mais cedo, porque tenho medo de encontrar o homem de novo. Foi muito aleatório. Extremamente aleatório."
Por meio de nota oficial, a Motiva expressou profundo pesar pelo ocorrido e manifestou seu repúdio a quaisquer condutas violentas, discriminatórias ou de intolerância. De acordo com a empresa, o incidente foi inicialmente catalogado como um desentendimento entre passageiros no interior do trem da Linha 5-Lilás.
A concessionária detalhou que, assim que tomou conhecimento da situação, o operador da composição ordenou a sua parada para viabilizar a atuação imediata das equipes de segurança e atendimento.
Ao chegarem ao local, os agentes identificaram um passageiro com escoriações faciais, prestaram os primeiros socorros e providenciaram o seu deslocamento para a UPA Vila Mariana, encaminhando-o em seguida para o 27º Distrito Policial.
A empresa reforçou que seus colaboradores são capacitados para acolher as vítimas e oferecer o apoio necessário, colocando-se inteiramente à disposição das autoridades para contribuir com o andamento das investigações. Fora isso, a Motiva afirma orientar os usuários a acionarem os comunicadores das composições para auxílio imediato diante de qualquer emergência.
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