Polícia
Publicado em 21/08/2026, às 06h16 - Atualizado às 06h19 Divulgação Redação Bnews
O presidente do grupo Trasmontano Saúde, Fernando José Moredo, de 85 anos, é acusado por funcionárias de supostos crimes sexuais cometidos ao longo de anos. Nesta quinta-feira (20), a Justiça de São Paulo revogou a decisão que permitia que ele permanecesse no cargo após relatos de que o empresário teria intimidado funcionários envolvidos na apuração das denúncias apresentadas por ao meno quatro trabalhadoras. A informação é da Folha de São Paulo.
Moredo havia sido impedido por funcionários de entrar no Hospital Igesp, onde fica seu escritório, na segunda-feira (17). A polícia chegou a ser acionada. No dia seguinte, terça-feira (18), o juiz Fernando José Cúnico, da 40ª Vara Cível, determinou que o empresário pudesse exercer novamente a presidência do grupo até a conclusão do caso.
A decisão foi revista nesta quinta-feira após representantes da empresa relatarem à Justiça que, depois de retornar ao hospital, Moredo teria praticado abordagens intimidatórias contra colaboradores, ameaçado rescindir contratos de denunciantes e articulado nomeações.
Segundo as informações apresentadas à Justiça, ele também teria constrangido funcionários envolvidos nas apurações e tentado destituir advogados.
Uma comissão foi criada dentro do grupo Trasmontano Saúde para analisar as acusações. O colegiado decidiu pela destituição de Moredo do cargo ainda em maio.
Ao menos quatro depoimentos foram gravados durante a apuração interna. Novos relatos também chegaram ao Ministério Público, que recebeu uma notícia-crime sobre o caso.
As funcionárias relatam comentários de teor sexual, tentativas de toques indesejados e perguntas sobre intimidades da vida matrimonial. Alguns relatos também mencionam conotação racista.
Segundo os depoimentos, os episódios teriam ocorrido durante anos.
Uma das testemunhas afirmou que o assédio teria durado quase 25 anos. De acordo com o relato, mulheres passaram a adotar estratégias para evitar situações a sós com Moredo, como interromper reuniões individuais do presidente com funcionárias. Também evitavam que jovens aprendizes permanecessem sozinhas com ele.
Ainda segundo o relato, Moredo teria apelidado um grupo de funcionárias de "as virgenzinhas" ou "minhas virgens lindas".
Algumas das supostas vítimas disseram ter comunicado os episódios a superiores, mas afirmaram que foram desestimuladas a continuar com as denúncias.
A defesa de Fernando José Moredo afirma que ele é vítima de um complô organizado pela primeira denunciante. Segundo os advogados, ela teria procurado outras funcionárias para que apresentassem declarações falsas durante a investigação interna.
Moredo também apresentou uma representação contra a primeira denunciante na Polícia Civil, atribuindo a ela o crime de denunciação caluniosa.
O advogado Miguel Silva afirmou, na quarta-feira (19), que as denúncias teriam sido articuladas para retirar Moredo da presidência.
"Esta pessoa que fez isso saiu buscando pessoas para fazer denúncia. São denúncias direcionadas para afastar o sr. Fernando do cargo de presidente. Isso é uma vingança porque ele apontou alguns procedimentos de incompetência dela, e ela não gostou", afirmou.
Nesta quinta-feira, Silva informou que irá recorrer da decisão que retirou a garantia de permanência de Moredo no cargo.
"Foi uma suspensão parcial das atividades. Ainda não tive acesso integral à decisão, mas com certeza vamos contestar no tribunal."
A defesa afirma que nenhuma das acusações de crimes sexuais possui provas e sustenta que não teve acesso à íntegra dos relatos e documentos utilizados na apuração.
Miguel Silva também afirmou não ter conhecimento de nenhum procedimento criminal contra Moredo.
Na área cível, o advogado Miguel Machado declarou que o procedimento administrativo interno teria sido conduzido de forma ilegal.
"No processo administrativo interno não há provas que tenham chegado ao nosso conhecimento dessa denúncia. Meu cliente é inocente. Não tivemos acesso a nenhum documento ou gravação daquilo que ele foi acusado", disse.
O grupo Trasmontano Saúde foi fundado em 1932 para prestar assistência a imigrantes portugueses em São Paulo. A entidade controla a rede de unidades do Hospital Igesp, formada por dois hospitais e cinco unidades de pronto atendimento, e também atua como plano de saúde e instituição de ensino na área médica.
Moredo está no comando do grupo há 30 anos e foi responsável por sua expansão.