Polícia

"Quero viver e tenho receio": Advogado é sequestrado pelo PCC e relata momentos de terror no Tribunal do Crime

Advogado relatou que foi sequestrado, mantido em cárcere privado e coagido a desistir de uma ação cível  |  Reprodução

Publicado em 13/08/2026, às 15h56 - Atualizado às 17h09   Reprodução   Alex Torres

Um advogado, identificado como Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, revelou ter sido vítima de um tribunal do crime promovido por membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A declaração foi concedida em entrevista ao site Vade News e divulgada nesta quinta-feira (13).

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Rafaell relatou que foi mantido em cárcere privado e coagido a desistir de uma ação cível para não ser eliminado pelos integrantes. Por conta da denúncia do advogado, o Ministério Público e a Polícia Militar deflagraram a Operação Patrocínio Fiel, que resultou na morte de um investigado e na prisão de outros três.

Ligaram para que eu fosse à Vila Esperança, em Cubatão. O assunto seria sobre um novo trabalho advocatício, mas me deparei com um tribunal do crime no local. Queriam os endereços dos meus clientes da ação cível para se vingarem deles, não informei e me apavoravam”, detalhou.

Rafaell teria se recusado a fornecer as informações, sendo pressionado e ameaçado de morte. Ele contou ainda que cerca de 30 pessoas teriam participado do momento presencialmente e outras 10 por meio de videochamada. Ao final, o advogado foi liberado com as condições de desistir da ação e fornecer documentos dos bens objetos da demanda.

A primeira parte foi acatada por Rafaell, mas ele aproveitou para reunir informações e enviar ao Ministério Público. Diante da gravidade, nesta quarta-feira (12), o MP e a Polícia Militar deflagraram a Patrocínio Fiel. A operação cumpriu mandados de prisão e busca e apreensão contra sete investigados.

Os delitos investigados são os de organização criminosa, além de sequestro, extorsão, tortura e ameaça praticados contra o advogado. Ao todo foram vistoriados 19 endereços vinculados aos suspeitos nas cidades de Guarujá, São Vicente, Praia Grande, Cubatão e até Florianópolis, em Santa Catarina.

As medidas judiciais alcançaram residências dos investigados, comércios vinculados ao PCC e o imóvel onde a vítima teria sido mantida em cativeiro. As investigações prosseguem sob sigilo para garantir a efetividade das diligências em andamento e a completa responsabilização dos envolvidos para desarticular importantes lideranças da facção na Baixada Santista.

O PROCESSO

No dia 31 de março, Rafaell teria protocolado uma ação de dissolução parcial de sociedade, solicitando o cálculo do valor patrimonial e um pedido de indenização na ordem de R$ 50 mil por danos morais. Uma mulher alega ter sido indevidamente excluída da sociedade do empreendimento por outro sócio.

Para fins fiscais, a causa foi estipulada no valor de R$ 80 mil. No entanto, o valor real da causa seria ainda maior, porque envolveria um patrimônio que engloba um imóvel em Guarujá de 440 m², box para a venda de pescados, três barcos pesqueiros, duas câmaras frigoríficas, três máquinas de limpar camarão e uma de fabricar gelo. 

Rafaell foi atraído ao tribunal do crime em 11 de junho, ficando sob o domínio da facção entre 19h e 1h do dia seguinte. Ele foi para Vila Esperança após receber uma ligação William Nascimento Boaventura, conhecido pelo vulgo de 'Bel' ou 'Bolacha'. Ele foi um dos capturados na operação de 12 de agosto.

ENVOLVIDOS NO TRIBUNAL DO CRIME

O advogado relatou que o debate no tribunal do crime teria contado com a presença de Wagner Rodrigues dos Santos, conhecido como 'Branquinho', que seria companheiro da ré na ação cível. Ele chegou a ser absolvido em 2022 nas acusações de integrar organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Segundo denúncia do MP na ocasião, quando estava preso, Branquinho teria movimentado cerca de R$ 7,8 milhões para o financeiro do PCC com a venda de drogas na Baixada Santista, mas a sentenção entendeu não haver provas suficientes para condená-lo. Branquinho também seria um dos alvos da Patrocínio Fiel, mas não foi localizado na ação.  

Durante o tribunal, Rafaell chegou a utilizar o celular para falar com José Armerindo Santos de Carvalho, o Boqueta, que seria seu cliente em pelo menos dois processos. A ideia era de que o traficante pudesse intervir em favor do advogado. Ele chegou a comparecer à reunião, mas não se posicionou no caso. 

Boqueta foi um dos que tiveram a prisão temporária decretada no âmbito da Patrocínio Fiel. Ele foi localizado na Rua Dona Olga Marques, em São Vicente, mas resistiu à prisão. O suspeito confrontou os policiais, onde chegou a ser baleado e não resistiu aos ferimentos.

Por fim, também foram presos durante a operação os investigados Pedro Henrique Soares de Almeida, conhecido como Playboy, e Gilvan Barbosa, conhecido como Geléia. As capturas ocorreram nas moradias dos acusados, todas em Praia Grande.  

Questionado se tem medo retaliações, Rafaell declarou: "Quero viver e tenho receio. Fui vítima de uma organização criminosa apenas porque exerci o meu trabalho, ajuizando uma ação. Me sinto desemparado por estar em um narcoestado. Mas vou vivendo um dia de cada vez, confiando que Jesus me protege. A minha fé me fortalece".

Classificação Indicativa: Livre


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