Polícia
Publicado em 07/07/2026, às 08h12 Divulgação Tiago Di Araújo
Uma operação realizada por órgãos federais resgatou uma mulher de 62 anos que, segundo as autoridades, passou mais de cinco décadas submetida a condições análogas à escravidão no Ceará. A trabalhadora doméstica teria atuado durante 55 anos para a mesma família sem receber salário e sem ter seus direitos trabalhistas garantidos.
A ação foi concluída na última quinta-feira (2) pela Auditoria-Fiscal do Trabalho, com apoio do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Federal. Os nomes dos empregadores não foram divulgados.
De acordo com a investigação, a mulher iniciou as atividades em 1971, quando tinha apenas 7 anos de idade. Desde então, permaneceu ligada ao mesmo núcleo familiar, vivendo inicialmente com a primeira empregadora e, posteriormente, passando a trabalhar para a filha dela.
Ao longo dos anos, ela acompanhou três gerações da família. Em 1982, foi levada para a residência da filha da primeira patroa, onde assumiu os serviços domésticos e ajudou na criação de três crianças. Décadas depois, em 2014, foi novamente transferida para outro imóvel da mesma família, passando a cuidar da casa e de duas novas crianças.
Bolsa Família era a única fonte de renda
Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a doméstica nunca recebeu remuneração pelos serviços prestados. Sua única renda vinha do programa Bolsa Família, do qual era beneficiária.
Ainda conforme a investigação, a própria empregadora era responsável por intermediar os procedimentos relacionados ao benefício, realizando os saques e repassando posteriormente o dinheiro à trabalhadora.
Os auditores também apontaram que a vítima nunca teve acesso regular à educação e permaneceu em situação de dependência econômica desde a infância.
Jornada começava antes do amanhecer
O relatório descreve que a rotina diária tinha início por volta das 4h30. A trabalhadora preparava o café da manhã da família, organizava a saída das crianças para a escola e, durante o restante do dia, realizava a limpeza da residência, além de cuidar dos menores.
Para os fiscais, o conjunto de fatores — ausência de salário, dependência financeira, permanência contínua na mesma família desde criança e privação de direitos — caracteriza uma grave violação à dignidade humana e configura trabalho em condições análogas à escravidão.
Dívida milionária
Após a fiscalização, os empregadores reconheceram vínculo empregatício apenas a partir de julho de 2014. No entanto, a Auditoria-Fiscal do Trabalho calcula que os valores referentes a salários não pagos, férias, 13º salário, FGTS, horas extras e demais verbas trabalhistas acumuladas ultrapassam R$ 1,5 milhão.
Foi firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho. Pelo acordo, os empregadores se comprometeram a pagar R$ 50 mil em verbas rescisórias, adquirir um imóvel de, no mínimo, R$ 150 mil para a trabalhadora e custear as contribuições previdenciárias até que ela tenha direito à aposentadoria.
Apesar do acordo, o MPT esclareceu que ele não encerra todas as obrigações decorrentes do caso. A vítima ainda poderá recorrer à Justiça para buscar indenizações e o pagamento integral dos direitos trabalhistas que entende devidos.