Política
Publicado em 18/11/2016, às 18h49 Agência Brasil
Em entrevista à TV Folha na tarde de quinta-feira (17), Dallagnol explicou como a força-tarefa de procuradores está acompanhando os projetos de lei relacionados à operação e disse que as manobras dos deputados transformaram o trabalho na Lava Jato em um "trem fantasma".
Dallagnol é um dos mentores do conjunto de propostas do Ministério Público Federal intitulado "Dez medidas contra a corrupção, que se transformou em projeto de lei de iniciativa popular após receber mais de 2 milhões de assinaturas.
Atualmente uma comissão especial da Câmara analisa o tema, sob relatoria de Onyx Lorenzoni (DEM-RS), e deputados estão atuando para modificar o texto original idealizado pelos procuradores da República. Segundo Dallagnol, as tentativas de alteração ameaçam o futuro da Lava Jato.
"Muitas pessoas que estão sendo investigadas são as pessoas que fazem a lei, e elas podem mudar a lei para nos atacar e mudar a lei para se proteger", disse.
De acordo com o procurador, é preciso ficar atento às manobras dos deputados. "A gente tem sido surpreendido a cada semana com um risco novo. Trabalhar na Lava Jato se tornou como andar em um trem fantasma. A cada esquina você toma um susto."
Dallagnol afirmou que a principal ameaça foi identificada na semana passada, quando deputados se movimentaram para tentar votar em regime de urgência um texto que poderia levar à extinção de penas e ações criminais em caso de fechamento de acordos de delação premiada entre empresas e o Executivo.
Houve reação da força-tarefa e os congressistas recuaram. "O filho era tão feio que ninguém quis dizer quem era o pai daquela criança", comentou o procurador.
"Essa movimentação não acontece às claras. Quando ficamos sabendo tivemos que tomar um decisão rápida. Ou a gente fazia uma [entrevista] coletiva e firmava posição, ainda sem ter muita clareza do que estava acontecendo, ou podia simplesmente passar esse projeto sem nossa manifestação", completou.
Dallagnol disse que o Ministério Público tem uma equipe de assessores parlamentares que acompanha os trabalhos no Congresso, mas a sociedade deve pressionar os deputados enviando mensagens e usando as redes sociais para evitar as manobras.
"Nós procuradores da Lava Jato não temos poder econômico, não temos poder político. A nossa única defesa, o escudo que defende a Lava Jato é a sociedade", afirmou.
O coordenador da Lava Jato rebateu as críticas de que o Ministério Público tenha adotado a estratégia de transformar a operação em um espetáculo midiático e que a entrevista coletiva para divulgar a denúncia contra o ex-presidente Lula tenha sido um exemplo dessa conduta.
"Não podemos confundir espetacularização com transparência. O que sempre existiu nas coletivas era uma explicação didática, inclusive com esquemas visuais. Isso não se faz para expor ninguém, mas para prestar contas à sociedade", disse.