Política
Publicado em 07/10/2026, às 16h02 - Atualizado às 16h06 Arquivo/Alan Santos Henrique Brinco
O movimento de ACM Neto em direção à candidatura de Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial marca uma mudança importante na estratégia política adotada pelo ex-prefeito de Salvador ao longo da eleição baiana. Durante a campanha para o governo do Estado, o candidato derrotado procurou evitar que sua imagem fosse associada diretamente ao bolsonarismo, numa tentativa de preservar espaço entre os eleitores que votariam em Lula para presidente.
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Agora, após perder pela segunda vez para Jerônimo Rodrigues ainda no primeiro turno e diante de uma disputa nacional polarizada entre Lula e Flávio, o dirigente do União Brasil mudou de tática em nome da sobrevivência política. A mudança é significativa porque, durante a campanha, Neto tentou sustentar a ideia de que era possível separar a eleição estadual da disputa nacional.
A estratégia do chamado “Lu-Neto” buscava convencer o eleitor de que era possível votar em Lula para presidente e, ao mesmo tempo, dar o voto na oposição para governador. A tentativa, no entanto, não impediu que o petismo explorasse a associação entre o adversário e o campo bolsonarista.
Com o resultado das urnas, o cenário ficou ainda mais delicado para o grupo oposicionista. Jerônimo foi reeleito no primeiro turno crescendo em territórios importantes, incluindo Salvador. A capital, que historicamente representava uma das principais forças eleitorais do carlismo, apresentou um resultado muito abaixo das expectativas.
A diferença para Jerônimo ficou muito distante dos 500 mil votos de frente prometidos pelo prefeito Bruno Reis na cidade. A vantagem foi de aproximadamente 139 mil votos, uma margem consideravelmente menor do que a projetada pelo principal cabo eleitoral do ex-prefeito na capital. O resultado abre uma discussão sobre a própria estratégia do grupo para 2028.
Bruno continua sendo uma liderança importante da oposição, mas sua segunda gestão vem enfrentando críticas relacionadas à zeladoria urbana e a problemas em diferentes áreas da administração municipal e articulação política. Isso pode dificultar a construção de um sucessor capaz de herdar automaticamente a força eleitoral do prefeito. Ele quer Ana Paula Matos, mas será que a atual vice-prefeita terá peso para sustentar o grupo inteiro em um palanque? A outra opção seria Leo Prates, mas será que este também vai conseguir unir toda a oposição em torno dele?
Nesse contexto, ACM Neto pode voltar a considerar a Prefeitura de Salvador como uma alternativa política concreta. Uma candidatura em 2028 não está definida, mas passa a fazer sentido dentro de um cenário em que o grupo precisa reconstruir sua força na capital e encontrar um caminho para interromper a sequência de derrotas na disputa estadual.
O desembarque na candidatura da Família Bolsonaro também tem uma dimensão nacional. Para um grupo político que depende de Brasília para investimentos, obras e articulações institucionais, uma eventual vitória de Flávio colocaria a relação com o novo governo federal no centro da estratégia da oposição baiana.
Para Neto e seus aliados, portanto, a aproximação pode representar também uma tentativa de garantir canais de interlocução e recursos para Salvador, já que há um questionamento nos bastidores sobre o estado real da saúde financeira da Prefeitura. E também poderia causar problemas para Jerônimo.
O movimento, porém, tem um custo político. Ao abraçar Flávio no segundo turno, Neto abandona a tentativa de manter uma distância estratégica do bolsonarismo que marcou boa parte de sua campanha. E dificilmente em eleições futuras poderá fazer novos acenos ao eleitorado petista. O vídeo dele ao lado de Flávio vai circular eternamente nas redes, assim como a foto principal que ilustra este artigo dele ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A lógica de construir uma imagem conciliadora acabou.
Mais do que uma simples declaração de apoio, a decisão sinaliza uma reacomodação da oposição baiana. Do que isso vai resultar, somente o tempo dirá.