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Política

Análise: A Padroeira do Brasil, o padroeiro dos políticos e a lama das eleições de 2026

Como os políticos brasileiros, ao desconhecer Tomás Moro, levaram a Senhora Aparecida para o lamaçal das eleições de 2026  |  Imagem criada por IA

Publicado em 12/10/2026, às 05h20   Imagem criada por IA   Davi Lemos

Nossa Senhora Aparecida entrou no debate da disputa presidencial de 2026 não por uma manifestação genuína de devoção, mas devido a uma notícia falsa sobre uma suposta proposta do candidato Flávio Bolsonaro de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. Mesmo depois de a informação ser desmentida por veículos de comunicação e agências de checagem, a campanha de Lula manteve o assunto no centro da disputa, explorando a falsidade para tentar afastar de Flávio o voto católico, sobretudo no primeiro turno. Depois, veio à tona a posição contrária de um pastor ligado ao presidenciável à celebração da padroeira — o que, a rigor, não deveria surpreender, embora tampouco devesse servir de munição para uma guerra religiosa. O resultado do primeiro turno indicou que a estratégia não produziu o efeito eleitoral pretendido.

Ao contrário do que ocorreu nas tradicionais aparições marianas, como as de Fátima, em Portugal, e Lourdes, na França, Nossa Senhora Aparecida não apareceu para transmitir mensagens. Sua imagem foi encontrada nas águas do Rio Paraíba do Sul, em 1717. Se quisermos brincar com as palavras, a Padroeira do Brasil foi um “achamento”, não uma aparição. Vieram os relatos de milagres, cresceu a devoção popular e a pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição tornou-se símbolo da fé de milhões de brasileiros. Mas a Virgem permaneceu silenciosa. Como Maria nos Evangelhos, que guardava os acontecimentos em seu coração, provavelmente assistiria a toda essa chicana pré-eleitoral sem pronunciar uma palavra. Os políticos, em compensação, falaram muito. Resta saber quanto havia de fé e quanto de cálculo em suas manifestações.

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A ideia de um representante do poder civil retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil é tão descabida que afronta não apenas a tradição religiosa de milhões de brasileiros, mas também a própria compreensão da separação entre Igreja e Estado. O título foi oficialmente proclamado pelo papa Pio XI, em 1930, e reconhecido pelo Estado brasileiro. Não cabe a um candidato transformar a devoção popular em instrumento de conveniência eleitoral, muito menos inventar uma ameaça à padroeira para colher dividendos políticos. A fé não deveria ser refém das campanhas, assim como o Estado laico não deve ser confundido com um Estado hostil à religião.

Não creio que Lula seja, nem de longe, um devoto particularmente identificado com Nossa Senhora Aparecida, a Senhora da Conceição cuja imagem foi retirada das águas do rio. Tampouco era necessário que Flávio Bolsonaro empunhasse uma imagem da padroeira para declarar seu amor pela santa. Como evangélico, teria sido mais coerente e respeitoso limitar-se a desmentir a notícia falsa, como fez, sem transformar a imagem católica em adereço de campanha. A fé não precisa de fotografia eleitoral para existir, e a devoção não se mede pela capacidade de posar diante de uma imagem religiosa. Seria mais relevante recordar que Jair Bolsonaro, pai do candidato, consagrou o Brasil a Nossa Senhora Aparecida, e que o texto dessa consagração deixou de constar da página oficial do Governo Federal. São fatos que merecem ser contextualizados e discutidos sem que se faça da religião uma peça de propaganda.

Já que estamos falando da Padroeira do Brasil, seria oportuno apresentar aos candidatos outra figura que a Igreja oferece como referência para a vida pública: São Tomás Moro (1478–1535), proclamado padroeiro dos governantes e políticos pelo papa São João Paulo II, em 31 de outubro de 2000. Sua vida é apresentada como exemplo de integridade moral, fidelidade à consciência, defesa da verdade e serviço ao bem comum. Moro não foi um político que desconhecia as engrenagens do poder. Foi advogado, parlamentar, conselheiro real e chanceler de Henrique VIII, posição comparável, guardadas as diferenças entre os sistemas de governo, à de um chefe de governo ou ministro de grande influência.

O conflito que o levou à morte começou quando Henrique VIII rompeu com Roma e procurou afirmar sua autoridade sobre a Igreja na Inglaterra, em meio à disputa sobre seu casamento com Catarina de Aragão. Moro recusou-se a reconhecer a supremacia religiosa do monarca. Não fez da oposição uma cruzada de ataques públicos ao rei, mas tampouco se curvou à exigência de subscrever aquilo que sua consciência rejeitava. Foi condenado por traição e executado em 1535. A ele são atribuídas as palavras pronunciadas diante do cadafalso: “Morro como bom servidor do rei, mas primeiro de Deus”. A frase sintetiza o limite que o antigo chanceler se recusou a ultrapassar: a lealdade ao governante não pode exigir a renúncia à própria consciência.

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Na carta apostólica em que proclamou São Tomás Moro padroeiro dos governantes e políticos, João Paulo II destacou a importância de sua fidelidade à verdade, mesmo diante das pressões do poder. A lição pode ser resumida em uma frase: a verdade deve ter primazia sobre o poder. E o que vemos na disputa eleitoral brasileira? Notícias falsas, acusações, insinuações e tentativas de instrumentalizar a fé. A falsidade sobre Nossa Senhora Aparecida não parece ter provocado constrangimento suficiente para impedir que a religião continuasse a ser usada como arma eleitoral. A política, que deveria ser espaço de debate sobre os destinos do país, transforma-se, assim, em uma competição para descobrir quem consegue explorar melhor os sentimentos e as crenças do eleitor.

A frase atribuída ao estadista alemão Otto von Bismarck (1815-1898) continua pertinente: “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada”. Atribuída ou não com exatidão a Bismarck, a máxima sobrevive porque descreve uma tentação antiga: sacrificar a verdade quando ela se torna inconveniente. Em períodos eleitorais, a mentira pode ser tratada como estratégia, a manipulação como esperteza e a falta de escrúpulos como sinal de habilidade política. O problema é que, quando a falsidade passa a ser aceita como instrumento legítimo de disputa, perde-se mais do que a qualidade do debate: compromete-se a própria confiança dos cidadãos nas instituições.

João Paulo II, ao refletir sobre o legado de Tomás Moro, também ressaltou que a política, embora seja uma atividade nobre, não deve servir à vantagem pessoal, mas constituir uma exigente forma de serviço. Eis uma lição que parece ter sido esquecida por muitos daqueles que disputam nossos votos. São Tomás Moro, autor de "Utopia", não se limitou a refletir sobre a conduta individual dos governantes. Em sua obra, publicada em 1516, questionou as estruturas sociais e políticas de seu tempo, a desigualdade, os privilégios e a maneira como a sociedade tratava os mais pobres. Entre os ensinamentos que podemos extrair do livro estão a primazia do bem comum sobre os interesses particulares; a necessidade de enfrentar as causas sociais da pobreza, em vez de atribuí-la exclusivamente à responsabilidade individual; a compreensão de que a riqueza, por si só, não representa prosperidade; a exigência de limites ao poder para evitar a tirania e o favorecimento privado; e a necessidade de participação, prudência e compromisso com a melhoria das instituições. Não se trata de um programa político pronto para ser aplicado literalmente, mas de uma provocação que continua atual: a quem serve a organização da sociedade?

Mas, historicamente, Tomás Moro foi vencido pelo contemporâneo Nicolau Maquiavel (1469–1527): enquanto o primeiro lembrava aos políticos para que deveria servir o poder, o segundo ensinava como conquistá-lo e conservá-lo. A história parece ter dado razão ao florentino autor de "O Príncipe": a política preferiu o manual de sobrevivência ao exame de consciência, a eficácia à virtude e a conveniência aos princípios. Afinal, para que servir ao bem comum quando se pode muito bem servir ao próprio mandato? Moro virou santo; Maquiavel, leitura obrigatória — ainda que muitos políticos dispensem os livros e aprendam a lição na prática. A ironia é que o realismo político, necessário para compreender os conflitos e as limitações do poder, tantas vezes acaba convertido em licença para justificar qualquer expediente. A conquista do cargo deixa de ser um meio para realizar algo em favor da sociedade e se torna a finalidade de toda a atividade política.

Em 1534, encarcerado na Torre de Londres, à espera do desfecho de seu conflito com Henrique VIII, Moro escreveu à filha Margaret. Em uma das passagens de sua correspondência, expressou a tranquilidade que encontrava na própria consciência. A frase que atravessou os séculos diz: “A clareza da minha consciência fez meu coração saltar de alegria”. O antigo chanceler, outrora um dos homens mais influentes do reino, estava preso e seria executado por se recusar a abandonar um princípio. Perdera a liberdade, o cargo e a vida, mas não aceitara comprar a sobrevivência ao preço da própria consciência.

Os políticos brasileiros que disputam a Presidência em 2026 talvez não precisem chegar a tanto para compreender a lição. Bastaria que reconhecessem que a verdade não é um obstáculo a ser contornado, a religião não é um instrumento de campanha e o voto popular não autoriza a degradação moral da vida pública. Não se exige que todos professem a mesma fé, mas que respeitem a fé alheia e não a convertam em mercadoria eleitoral. Não se exige que todos concordem, mas que a divergência não sirva de desculpa para a mentira.

Nossa Senhora Aparecida foi encontrada na lama do rio e, para milhões de brasileiros, tornou-se sinal de esperança. São Tomás Moro enfrentou a lama moral da política de seu tempo e preferiu a morte à renúncia à consciência. Na eleição brasileira de 2026, porém, candidatos e estrategistas parecem dispostos a arrastar ambos para o terreno da conveniência eleitoral. A Padroeira do Brasil permanece silenciosa; o padroeiro dos políticos deixou seu testemunho. Os candidatos, esses, continuam falando. A pergunta é se ainda são capazes de ouvir.

Porque, no fim, a lama mais difícil de remover não é a que se acumula no fundo de um rio. É aquela que se instala na consciência quando a mentira se torna método, a fé vira palanque e o poder passa a valer mais do que a verdade.

Classificação Indicativa: Livre


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