Política
Publicado em 09/10/2026, às 22h20 Arquivo Pessoal Redação BNews
O histórico de pesquisas de Daniel Vorcaro no ChatGPT revela detalhes sobre suas preocupações nos meses que antecederam a prisão do banqueiro. A informação é da revista Piauí. O celular apreendido pela Polícia Federal (PF) no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em 17 de novembro de 2025, registra 151 perguntas feitas entre 19 de maio e 16 de novembro daquele ano. As consultas abordam desde a crise do Banco Master e o Banco Central até saúde, viagens, reputação e a possibilidade de prisão de outros banqueiros.
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A primeira consulta foi feita às 23h57 de 19 de maio, em inglês: “How to take out an oura ring that is stuck in the charger?” Vorcaro queria saber como retirar do carregador um anel inteligente que monitora o sono e indicadores de bem-estar. Nos dias seguintes, recorreu à ferramenta para esclarecer dúvidas médicas. Em 29 de maio, perguntou o que fazer em casa diante de um fechamento de glote. Em 5 de junho, quis saber qual seria o melhor anti-inflamatório para um estiramento muscular. Em 14 de junho, questionou a diferença entre Ozempic e Mounjaro.
O banqueiro também demonstrava preocupação com a aparência e a longevidade. Em 19 de agosto, perguntou se charuto engorda. Em 9 de outubro, quis saber qual era a idade média de morte de pessoas muito altas. Também buscou informações sobre destinos adequados para surfar e condições climáticas favoráveis à prática do esporte.
Em 23 de maio, enquanto negociava a venda de ativos pessoais, Vorcaro consultou a cotação das ações da Hapvida. A inteligência artificial informou o valor de R$ 2,82. O banqueiro detinha 18.736.489 ações ordinárias da companhia, recebidas como contrapartida de uma transação pessoal de R$ 151,6 milhões.
Em junho, as perguntas passaram a incluir possíveis parceiros comerciais para o Banco Master. No dia 2, Vorcaro enviou a imagem de um homem ao ChatGPT e perguntou quem era. Em seguida, escreveu “Shaik al mahktoum”. Cerca de meia hora antes, havia recebido de um intermediário uma cópia do passaporte do xeique Suhail Mohamed Buti Al Maktoum, integrante da família real de Dubai. Nos dias 25 e 26, quando estava em Dubai e Abu Dhabi, voltou à ferramenta para pesquisar os principais xeiques da região e a posição de Suhail na família real.
Em 14 de agosto, digitou apenas o próprio nome: “Daniel Vorcaro”. A resposta apresentou informações sobre sua formação e seus negócios nos setores bancário, farmacêutico, tecnológico e esportivo. A ferramenta o descreveu como alguém conhecido por tomar decisões ousadas e transformadoras, sem refletir a crise que já envolvia o banqueiro. O episódio também ilustra as limitações da inteligência artificial na apresentação de informações sobre pessoas públicas.
As consultas ganharam outro significado à medida que a situação do Master se deteriorava. Em 21 de agosto, Vorcaro perguntou quem eram os diretores do Banco Central. Na véspera, havia solicitado uma audiência com o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, que não chegou a acontecer.
O banqueiro também recorreu ao ChatGPT para entender as regras de afastamento de integrantes da autoridade monetária. Em 30 de agosto, perguntou quais eram os requisitos e regulamentos para pedir o impeachment de um diretor do Banco Central. Quarenta minutos antes, havia encaminhado questionamento semelhante ao advogado Marcel Mascarenhas, pelo WhatsApp.
No dia seguinte, quis saber quais banqueiros brasileiros haviam sido presos. Em 4 de outubro, voltou ao assunto ao pesquisar sobre Luís Octávio Índio da Costa, ex-banqueiro do Cruzeiro do Sul que chegou a ficar preso por 18 dias em 2012 e posteriormente respondeu a processos em liberdade. Vorcaro perguntou onde ele morava. O ChatGPT se recusou a fornecer um endereço residencial, mas mencionou Cidreira, no Rio Grande do Sul, como localidade associada ao perfil do ex-banqueiro no LinkedIn.
Em paralelo, Vorcaro mantinha uma estratégia de comunicação para defender o Master. Entre agosto e setembro, trocou 228 mensagens com Thiago Miranda, lobista e articulador que atuava nos bastidores junto ao diretor do Banco Central Renato Gomes. Miranda também se oferecia para combater publicações críticas ao banco. A rede de sites e perfis que divulgava textos aprovados por Vorcaro e buscava derrubar links negativos era operada por Luiz Felipe Mourão, conhecido como Sicário.
Em 19 e 20 de agosto, quando a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou a compra do Master pelo BRB, Vorcaro orientou Mourão a atuar nas redes sociais. “Vamos produzir positivas... E estão em cima para derrubar todos os links negativos”, respondeu o operador. Em 3 de setembro, o Banco Central vetou a operação.
O histórico também registra consultas sobre a Lei Magnitsky, em 14 de outubro, e o volume diário histórico das ações do BRB, em 22 de outubro. As pesquisas mostram a continuidade das preocupações do banqueiro com o cenário financeiro e seus desdobramentos.
Depois de alguns dias sem consultar a ferramenta, Vorcaro voltou a utilizá-la em 15 de novembro, dois dias antes de ser preso. Naquela noite, perguntou: “Quem são os juízes das varas criminais de Brasília”. No mesmo dia, escreveu no grupo de WhatsApp “Daniel e os Leões”, do qual participavam os advogados Marcel Mascarenhas e Walfrido Warde: “Na iminência da solução de tudo estou percebendo comportamentos estranhos”.
No fim da tarde de 16 de novembro, fez sua última pesquisa registrada no ChatGPT: “Quais são as varas criminais federais de Brasília”.
No dia seguinte, Vorcaro organizou a saída do Brasil com David, um dos pilotos de seus jatos, responsável também pela logística dos voos. Às 14h49, pediu que a partida fosse programada para as 20h30. Às 19h15, mudou o horário para meia-noite. O piloto alertou que o Aeroporto de Guarulhos tinha restrições operacionais após as 23h e que a decolagem precisaria ocorrer até as 22h59.
Às 22h27, já no aeroporto, Vorcaro escreveu: “To na porta aqui / Gat gru / Nao tem ninguem portao”. David respondeu que estava ligando e que alguém estava a caminho. Pouco depois, o banqueiro foi preso pela Polícia Federal, encerrando uma sequência de consultas à inteligência artificial que documenta suas dúvidas e preocupações nos meses anteriores à detenção.