Política
Publicado em 16/10/2026, às 07h47 Deivid Santana / BNEWS Redação Bnews
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam conversas do vice-presidente do União Brasil e ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, com o banqueiro após uma reunião em São Paulo, além de relatos de pressão de intermediários envolvidos na captação de recursos de fundos de previdência estaduais. As informações são do colunista Fábio Serapião, do Uol.
Em um dos diálogos, ACM afirma que a articulação política em Brasília havia avançado como esperado. Em outro, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, relata cobranças de pessoas ligadas ao político baiano. Os registros também mostram um pedido do presidente do União Brasil, Antônio Rueda, para que o banqueiro apagasse mensagens durante uma crise que ameaçava uma operação de R$ 400 milhões no Amapá.
Em sua defesa, ACM Neto classificou os vazamentos como “seletivos, manipulados e fora de contexto” e afirmou que haveria uma tentativa do governo federal de provocar desgaste político.
Em outubro de 2024, ACM Neto pediu a Daniel Vorcaro uma conversa entre os dois e Antônio Rueda. O encontro ocorreu em uma sala privada de uma charutaria em São Paulo.
Nove dias depois, o vice-presidente do União Brasil enviou uma mensagem ao banqueiro com uma avaliação sobre o andamento das articulações políticas em Brasília.
“As coisas em Brasília estão consolidadas e, felizmente, saiu tudo como desejávamos na política”, disse Neto.
Na semana seguinte, Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, informou ao banqueiro que estava sendo procurado por pessoas ligadas a ACM Neto.
“Marcos Moura (ACM) me chamando. O que eu faço?”, escreveu Zettel. Vorcaro respondeu: “Pega com Gustavo / E Minas”.
Marcos Moura é o empresário conhecido como “rei do lixo”, investigado por suspeita de desvio em licitações controladas por políticos do União Brasil e integrante da Executiva do partido. Já “Minas” é o apelido de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado na proposta de delação premiada de Vorcaro como responsável por gerar dinheiro em espécie.
Nos dias seguintes, Zettel voltou a relatar cobranças. “Cara do ACM está aqui em SP na minha cola”. Em outra mensagem, perguntou: “Gustavo me encontrou. Minas tenho que buscar também?”.
As conversas não esclarecem o que teria sido entregue nem os valores envolvidos.
Os diálogos também registram a atuação de Antônio Rueda nas articulações para captar recursos de institutos de previdência estaduais para o Banco Master.
Em abril de 2024, a operação com a previdência dos servidores do Amapá avançou. Fernando Mascarenhas, diretor comercial do banco, escreveu a Vorcaro: “Amapá, confirmado 400”, em referência à captação de R$ 400 milhões.
O banqueiro respondeu: “Quero ver nosso amigo apertar o enter”.
A aprovação ocorreu em 12 de julho daquele ano. No mesmo dia, uma reportagem revelou uma crise na Caixa Asset envolvendo títulos do Master, e o tesoureiro do banco, Alberto Felix, informou a Vorcaro que a operação não sairia naquela data por causa da notícia.
Felix também relatou que Rueda havia dito que seguraria as operações.
Às 11h45, Rueda apagou dez mensagens seguidas na conversa com Vorcaro e, em seguida, escreveu: “Apaga essas mensagens”.
Cerca de uma hora depois, Mascarenhas informou ao banqueiro: “Aprovado 200 M agora no Amapá. Nesse minuto”.
Ainda em julho, Felix perguntou sobre a comissão da consultoria atribuída aos intermediários Ricardo e Raphael pela operação no Amapá. Ele informou que o valor havia chegado a R$ 8,9 milhões e que já haviam solicitado o pagamento.
No dia seguinte, Vorcaro autorizou uma nota de R$ 8 milhões. Em 1º de agosto, a tesouraria do Master registrou o pagamento de R$ 11 milhões em contas a pagar, referente à comissão do Amapá.
Naquele momento, a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões ao banco.
As mensagens mostram que as articulações envolvendo Rueda e o Banco Master incluíam viagens em jato executivo para reuniões em diferentes estados.
Em novembro de 2023, Fernando Mascarenhas informou a Vorcaro que o político havia entrado em contato e que haveria um encontro no banco. Dois dias depois, pediu autorização para uma viagem com destino a estados onde a instituição pretendia captar recursos de institutos de previdência.
“Aquele nosso amigo marcou de irmos segunda final da tarde em Porto Alegre e terça em Rondônia e Amazonas! Posso confirmar?”, escreveu Mascarenhas.
Vorcaro respondeu que organizaria a logística. A viagem ocorreu no jato do banqueiro. Entre os passageiros estavam Mascarenhas, Rueda e dois intermediários identificados como Ricardo e Raphael. O roteiro previa reuniões em Rondônia e Manaus.
Na noite de 21 de novembro, Mascarenhas comemorou os resultados esperados da articulação. “Irmão, o negócio vai ficar gigante, nosso amigo até final do ano resolve 1,2 b”. Vorcaro respondeu: “Foguete”.
Em junho de 2024, Mascarenhas voltou a informar ao banqueiro sobre uma captação no Amazonas: “Amazonprev 50 M líquida amanhã”, em referência a uma operação de R$ 50 milhões.
Em julho de 2025, o lobista Julio Cezar Avelino, que buscava aplicações de fundos de previdência para o Master, escreveu a Vorcaro: “No Amazonas vai dar certo, porque Rondônia é o mesmo grupo de influência”.
Na sequência, acrescentou: “Lá é sócio do Rueda”.
O executivo Luiz Rennó também mencionou a influência do presidente do União Brasil ao tratar de operações no Rio de Janeiro. “Rueda seria nosso cara! Precisaria ter entrado no banco mais cedo! Ele tem alguns estados”, escreveu a Vorcaro.
Na proposta de delação premiada, rejeitada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Vorcaro afirmou que Rueda e ACM Neto teriam atuado para facilitar a aplicação de recursos de fundos estaduais de previdência no Banco Master em troca de uma comissão de 10% sobre os valores investidos.
As mensagens extraídas do celular mostram que a consultoria atribuída a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, praticava uma comissão de 10% com o banco. A PF aponta Ricardo Gordo como lobista de Vorcaro no Rioprevidência.
Os registros, porém, não mostram pagamentos de comissão diretamente a Rueda ou ACM Neto. O Banco Master repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto.
As mensagens também indicam que Vorcaro oferecia benefícios a Rueda. Em dezembro de 2023, colocou seus jatinhos executivos à disposição do político e escreveu: “Usa como seu”. Em maio de 2024, enviou um avião para transportar a família de Rueda a Miami, onde acompanharia a Fórmula 1.
Em março daquele ano, após Rueda pedir “cuida de mim”, Vorcaro respondeu: “Arrumei o apto? arrumei o Rosewood”, em referência a um hotel de luxo em São Paulo.
Em agosto de 2024, o departamento jurídico do Master apresentou a Vorcaro a contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados para atuar em quatro ações, em um total de R$ 15,4 milhões.
Procurado, ACM Neto classificou os vazamentos como “seletivos, manipulados e fora de contexto” e afirmou que haveria uma tentativa do governo federal de provocar desgaste político.
O ex-prefeito de Salvador negou ter atuado para que institutos de previdência aplicassem recursos no Banco Master, incluindo a Amapá Previdência. Também afirmou que não participou do governo federal, o que, segundo ele, afastaria a possibilidade de interferência em decisões administrativas do Ministério da Previdência ou na inclusão do banco na lista de instituições elegíveis para receber recursos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS).
ACM Neto disse ainda que não conhece Fabiano Zettel e considerou “absurda e criminosa” qualquer tentativa de associá-lo a diálogos dos quais não participou. Segundo ele, os valores recebidos do Master decorreram de serviços de consultoria efetivamente prestados, por meio de contrato mensal iniciado em janeiro de 2023, com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos.
O político afirmou que, desde março de 2026, está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Rueda declarou que sua relação com o Banco Master era “eminentemente profissional” e que os serviços advocatícios foram prestados com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos. Em nota, disse lamentar “o uso político de trechos isolados de informações que deveriam estar sob sigilo, mas que foram retirados de contexto com o propósito de criar suspeitas infundadas e atingir sua reputação”.
O presidente do União Brasil também afirmou que adotará medidas para resguardar sua honra e imagem diante da divulgação de acusações que classificou como falsas e de distorções dos fatos.
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro embasaram um pedido da Polícia Federal de busca e apreensão em endereços ligados a Rueda e ACM Neto. A operação, no entanto, não chegou a ser autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A proposta de delação de Vorcaro cita a atuação de Rueda para abrir portas ao Banco Master em institutos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).
Os três estados tiveram órgãos de previdência entre os alvos de desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes envolvendo o Master.
No Rio de Janeiro, o ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes foi preso pela PF em fevereiro de 2026. Segundo a investigação, ele teria sido indicado ao cargo por Rueda, em articulação com o governador Cláudio Castro (PL). O órgão destinou cerca de R$ 2 bilhões ao Banco Master, de acordo com a PF.
No Amapá, o aporte de R$ 400 milhões foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que o indicou para o cargo.
No Amazonas, a autorização para uma aplicação de R$ 50 milhões foi assinada por um presidente empossado 28 dias antes, ex-contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).