Política
Publicado em 15/07/2026, às 07h58 - Atualizado em 20/07/2026, às 00h00 Carlos Moura/Agência Senado Redação Bnews
A Polícia Federal (PF) afirma que recursos desviados de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) foram usados para bancar despesas pessoais e de luxo de integrantes do esquema investigado na Operação Sem Desconto. A informação é de O Globo.
Segundo o relatório final do inquérito sobre o núcleo da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), obtido pelo jornal, uma cirurgia plástica feita por Bruna Braz de Souza Santos, esposa do presidente da entidade, Carlos Roberto Ferreira Lopes, teria sido paga, segundo a investigação, com recursos de uma empresa ligada aos operadores financeiros do grupo.
De acordo com a investigação, o pagamento do procedimento teria sido feito pela Santos Consultoria, empresa controlada por Cícero Marcelino de Souza Santos, apontado pela PF como operador financeiro do esquema. Os investigadores afirmam que a conclusão foi baseada em mensagens encontradas nos celulares dos envolvidos.
Em nota enviada ao BNEWS, a defesa de Carlos Roberto Ferreira Lopes afirmou que as informações reproduzidas na reportagem têm como base conclusões de um relatório policial que ainda estão sob análise das instituições competentes e sujeitas ao contraditório, não representando uma decisão judicial de mérito.
Os advogados destacaram ainda que a realização de pagamentos ou transferências por uma empresa investigada, isoladamente, não comprova a origem ilícita dos recursos, a finalidade da operação, o conhecimento do destinatário ou a configuração de lavagem de dinheiro (Leia a íntegra no fim da publicação).
PF cita pagamento de cirurgia em mensagens apreendidas
Segundo o relatório, em uma conversa de 16 de novembro de 2021, a secretária do médico responsável pela cirurgia enviou informações sobre o procedimento para Bruna. Na sequência, a esposa de Carlos Roberto teria encaminhado um comprovante de pagamento que, conforme a investigação, saiu de recursos da empresa de Cícero.
Para a Polícia Federal, de acordo com o jornal, o episódio faria parte de uma estrutura usada para custear despesas particulares da família do presidente da Conafer. A investigação aponta que empresas ligadas aos operadores financeiros recebiam valores e, depois, realizavam pagamentos de gastos pessoais do casal.
Empresas seriam usadas como “conta corrente” da família, diz PF
No relatório, a PF afirma que, sob o comando de Carlos Roberto Ferreira Lopes e com participação da esposa, valores obtidos por meio de descontos associativos considerados irregulares eram distribuídos entre empresas como Santos Consultoria, To Hire Cars, Solution, Impacto e MN Apoio Administrativo.
Segundo os investigadores, essas empresas funcionavam como uma espécie de “conta corrente unificada” da família.
A PF afirma que a estrutura teria sido utilizada para pagar boletos escolares, passagens aéreas, salários e a cirurgia plástica de Bruna. A quebra de sigilo bancário também teria identificado que ela recebeu diretamente mais de R$ 1,75 milhão de contas controladas pelos operadores financeiros investigados.
Investigação aponta suspeita de lavagem de dinheiro
Para a Polícia Federal, os elementos reunidos indicam suspeita da prática de lavagem de dinheiro e apontam que parte dos valores desviados de aposentados teria sido usada para financiar despesas pessoais dos investigados.
Carlos Roberto e Bruna estão entre os 48 investigados indiciados pela PF no primeiro relatório conclusivo da Operação Sem Desconto, encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
A Procuradoria-Geral da República (PGR) decidirá se apresenta denúncia contra os investigados.
Conafer diz que indiciamento não representa condenação
Em nota ao jornal, a Conafer afirmou que respeita o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário, mas destacou que o indiciamento ocorre ainda na fase de investigação.
"A Conafer e a defesa de seu presidente, Carlos Roberto Ferreira Lopes, analisarão integralmente o relatório e os elementos que o acompanham, tão logo seja assegurado acesso completo ao seu conteúdo. Após essa avaliação, serão apresentadas, nos autos e perante as autoridades competentes, as manifestações jurídicas, documentais e técnicas necessárias ao esclarecimento dos fatos".
A entidade também afirmou que "considera inadequada qualquer tentativa de transformar uma etapa investigativa em condenação antecipada".
"Eventuais imputações dirigidas a determinadas pessoas deverão ser examinadas de forma individualizada, com base em provas juridicamente válidas, sem generalizações e sem desconsiderar a autonomia da instituição e o trabalho realizado por seus profissionais e representados".
Leia a nota da defesa de Carlos Roberto Ferreira Lopes na íntegra:
"A defesa de Carlos Roberto Ferreira Lopes esclarece que as afirmações reproduzidas na reportagem decorrem de conclusões constantes de relatório policial, ainda submetidas à análise das instituições competentes e ao contraditório, não constituindo decisão judicial de mérito. A referência a R$ 1,75 milhão diz respeito, segundo a própria matéria, ao montante global de transferências atribuído pela investigação, e não ao custo da cirurgia ou da despesa escolar mencionadas na manchete. A existência de pagamento ou transferência realizado por empresa investigada não demonstra, isoladamente, a origem ilícita final do numerário, a causa da operação, o conhecimento do destinatário ou a configuração de lavagem de dinheiro. O indiciamento é ato da fase investigativa e não equivale a denúncia, julgamento ou condenação."