Política

“Já tenho que estar fora?”: Vorcaro questionou Moraes dois dias antes de ser preso pela PF

Mensagens obtidas pela PF mostram Vorcaro questionando ministro sobre deixar o país dois dias antes da operação que terminou com sua prisão em Guarulhos  |  Rosinei Coutinho/STF e Divulgação

Publicado em 11/09/2026, às 05h41 - Atualizado às 05h42   Rosinei Coutinho/STF e Divulgação   Redação Bnews

A Polícia Federal (PF) apontou que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro tinha conhecimento antecipado da Operação Compliance Zero e planejou deixar o Brasil no dia anterior à deflagração da ação, segundo documento cujo sigilo foi retirado na noite desta quinta-feira (10).

O relatório detalha articulações de Vorcaro com advogado, jornalista e servidores do Banco Central nos dias que antecederam a prisão, ocorrida em 17 de novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.

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Segundo a PF, os elementos reunidos reforçam a suspeita de que Vorcaro pretendia fugir do país. Para os investigadores, é "improvável que sua viagem ao exterior, na noite imediatamente anterior à data do cumprimento dos mandados, seja mera coincidência".

As mensagens, divulgadas pela Folha de S.Paulo, estão no relatório da Polícia Federal enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e tornados públicos na noite desta quinta-feira (10).

O ministro André Mendonça acatou a determinação do presidente da Corte, Edson Fachin, e levantou o sigilo dos processos relacionados às investigações do caso Master. Ao todo, são 15 processos: dois inquéritos, uma reclamação e 12 petições.

Segundo a decisão de Fachin, apenas as diligências em que o sigilo for “imprescindível” permanecerão protegidas. Os documentos já começaram a ser disponibilizados.

Registros antes da operação

A sequência apontada pela PF começa em 21 de outubro de 2025. Naquele dia, Vorcaro registrou no aplicativo “Notas” os nomes de representantes da Polícia Federal que haviam participado de uma reunião reservada com o Banco Central, o que, segundo os investigadores, indicaria acesso antecipado a informações reservadas.

Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, Vorcaro fez um novo registro questionando uma eventual proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra o ex-banqueiro. Para a PF, como o inquérito era sigiloso, a anotação reforça a suspeita de vazamento de informações.

Na manhã de 17 de novembro, um dia antes da deflagração da operação, Vorcaro recebeu, às 7h28, mensagens urgentes do advogado Walfrido Warde. Pouco depois, às 8h48, informou que agendaria um voo com saída de Congonhas.

Ainda naquela manhã, Vorcaro manteve conversas com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada. Após as 11h, recebeu o link da matéria e o encaminhou imediatamente a Warde.

A reportagem mencionava a existência de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília. No mesmo dia, Warde protocolou uma petição na 10ª Vara Federal do Distrito Federal pedindo acesso ao conteúdo da investigação e citando expressamente a reportagem como fonte da informação.

Reunião com servidores do Banco Central

Também em 17 de novembro, Vorcaro manteve contato, desde as 6h34, com os servidores do Banco Central Paulo Sérgio e Belline. Segundo a PF, os interlocutores consideraram "fundamental" que o banqueiro conversasse com o diretor do Banco Central, Ailton Aquino.

A reunião foi articulada para a tarde daquele mesmo dia. Vorcaro propôs 13h, Paulo Sérgio confirmou 13h15 e Belline enviou o link às 13h35.

Depois do encontro, circulou uma reportagem sobre a venda do Banco Master ao Grupo Fictor. Segundo a PF, os servidores não demonstraram surpresa com a publicação, o que, para os investigadores, sugeriria um alinhamento prévio.

A PF afirma que Vorcaro, "ciente da futura e iminente atuação policial, se utiliza de servidores do Banco Central que lhe são subalternos (em razão do pagamento de vantagens indevidas) para forçar uma reunião virtual, no dia imediatamente anterior à operação policial".

Prisão no aeroporto

Na noite de 17 de novembro de 2025, forças policiais interceptaram Vorcaro no aeroporto de Guarulhos, quando ele estava prestes a embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes.

A Operação Compliance Zero foi oficialmente deflagrada no dia seguinte, 18 de novembro, após decisão judicial favorável aos pedidos da Polícia Federal.

Cerca de dez dias depois, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos do Banco Master.

Segundo a PF, um dos argumentos utilizados para defender a liberdade do banqueiro foi justamente o teor da reunião realizada com o Banco Central.

No documento, a Polícia Federal afirma que havia "fortes elementos indicativos" de que Vorcaro e associados atuavam para proteger o núcleo dirigente de uma organização criminosa por meio de conhecimento antecipado de atos processuais, articulações com interlocutores em órgãos de controle e planejamento para deixar o país.

As informações foram utilizadas pela PF para embasar um novo pedido de prisão preventiva de Vorcaro, assinado em 27 de fevereiro de 2026. Em março, o ex-banqueiro foi preso novamente.

Mensagens com Alexandre de Moraes

Outro conjunto de informações envolve uma troca de mensagens entre Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Daniel Vorcaro.

Segundo relatório enviado pela PF ao STF, os diálogos indicam que Moraes discutia com o ex-dono do Banco Master a possibilidade de uma operação da Polícia Federal que teria Vorcaro como alvo.

As mensagens tiveram o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro.

Em 15 de novembro de 2025, um sábado, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal ao tentar deixar o país em um avião particular.

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