Política

Lula assina pacto com líderes mundiais para reformar a ordem global

Manifesto reúne Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia em defesa do multilateralismo e de uma maior cooperação entre países  |  Foto: Adriano Machado/Reuters

Publicado em 21/09/2026, às 09h22   Foto: Adriano Machado/Reuters   Gustavo Leal

Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia lançaram neste domingo (20) um manifesto em defesa do multilateralismo. A iniciativa foi anunciada em um artigo publicado no jornal Financial Times, às vésperas da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que será realizada nesta semana, em Nova York.

OBJETIVO DO PACTO

O documento é assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, pelo primeiro-ministro canadense, Mark Carney, e pelo presidente do Quênia, William Ruto.

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O principal objetivo da iniciativa é criar um espaço aberto para que países de diferentes regiões atuem em conjunto pela reforma dos organismos globais. A proposta não cria um bloco fechado nem uma nova burocracia internacional.

O manifesto destaca que 65 conflitos armados envolvendo Estados foram registrados em 2025, o maior número desde 1946. Os gastos militares globais também atingiram um recorde, chegando a US$ 2,9 trilhões.

O texto menciona ainda o aumento da desigualdade e o uso de relações econômicas como instrumento de pressão e coerção. Com o objetivo de enfrentar esse cenário, o documento, batizado de P4M, defende a cooperação multilateral para lidar com desafios como a emergência climática, o avanço acelerado da inteligência artificial (IA), o risco de novas pandemias, choques financeiros e guerras capazes de desestabilizar regiões e provocar deslocamentos em massa.

O lançamento do P4M ocorre em um momento de crise na Organização das Nações Unidas, que enfrenta restrições financeiras e dificuldades para solucionar conflitos atuais. O impasse sobre a escolha do próximo secretário-geral, a três meses do fim do mandato de António Guterres, também é citado no contexto da crise.

O QUE DIZ O MANIFESTO
O presidente Lula publicou em seu perfil no X, antigo Twitter, o conteúdo do manifesto.

À medida que os líderes mundiais seguem para a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nesta semana, nos deparamos com um paradoxo. A comunidade internacional está mais interdependente do que nunca, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais fragmentada e polarizada.

Nossas economias estão profundamente interligadas. A tecnologia conecta bilhões de pessoas para além das fronteiras nacionais, enquanto capital, bens, dados e ideias circulam em velocidades que seriam inimagináveis quando as Nações Unidas foram fundadas, em 1945. O comércio global atingiu o recorde de US$ 35 trilhões no ano passado, e seis bilhões de pessoas – quase três quartos da humanidade – estão conectadas à internet.

No entanto, a geopolítica caminha na direção oposta. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde 1946, enquanto os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões. O direito internacional está sob pressão. A linguagem das esferas de influência e da política de poder está de volta. As relações econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro dos países quanto entre eles.

Alguns podem concluir, portanto, que o sistema multilateral fracassou. Em parte, essa crítica é compreensível. Um sistema multilateral que não reflita as realidades de hoje não resistirá ao tempo. Mas a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva. O mundo do pós-guerra há muito ficou para trás, mas a lógica fundamental que justificou a cooperação multilateral é mais evidente do que nunca.

A emergência climática está superando até mesmo as previsões mais alarmantes. A inteligência artificial avança mais rapidamente do que nossa capacidade de controlá-la. Pandemias podem se espalhar por continentes em questão de semanas, e choques financeiros podem abalar os mercados em poucas horas. Conflitos armados podem desestabilizar regiões inteiras e obrigar milhões de pessoas a fugir de suas casas. Pontos de estrangulamento das rotas marítimas globais, como o Estreito de Ormuz, quando afetados por conflitos, podem paralisar cadeias de abastecimento em todo o mundo. Nenhum país, por mais poderoso que seja, pode enfrentar esses desafios sozinho. A cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática. A questão não é saber se o multilateralismo pode sobreviver, mas como ele deve evoluir para responder às realidades do nosso tempo.

É nesse contexto que nos unimos em torno de uma nova iniciativa: “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M, na sigla em inglês). A P4M não pretende criar mais um bloco exclusivo nem outra burocracia internacional. Seu propósito é justamente o oposto: oferecer uma estrutura flexível e aberta a países de diferentes regiões e tradições políticas que estejam dispostos a atuar para além de suas diferenças, formar coalizões em favor de reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas. A P4M apoiará a reforma das Nações Unidas e de outras instituições multilaterais, para torná-las mais representativas, legítimas, eficazes e confiáveis. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a cooperação entre organizações regionais, contribuir para a paz e a segurança, aprimorar a governança econômica global e desenvolver abordagens comuns para desafios contemporâneos, da inteligência artificial e das mudanças do clima à segurança sanitária e à transformação digital.

A P4M buscará renovar e fortalecer o sistema multilateral, e não o substituir, além de construir pontes e aproximar países que podem discordar em muitas questões, mas que compartilham o compromisso com os princípios básicos consagrados na Carta da ONU. São princípios inegociáveis, como a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição da ameaça ou do uso da força, o direito internacional humanitário, o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos e as liberdades fundamentais.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou recentemente que "as superpotências estão descobrindo seus limites". Acreditamos que a comunidade internacional precisa redescobrir o extraordinário potencial da ação coletiva.

Classificação Indicativa: Livre


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