Política
Publicado em 12/09/2026, às 07h45 Senador Jaques Wagner - Devid Santana/Bnews Eduardo Costa
Um documento detalhado da Polícia Federal, que teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na noite de sexta-feira (11), detalhou como as investigações apontaram que o senador e candidato à reeleição, Jaques Wagner (PT), utilizava a sua influência política para beneficiar o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
De acordo com a PF, Jaques teria colocado sua influência política em Brasília a serviço de Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, em troca de uma rotina de "mimos", presentes caros e favores financeiros.
O documento aponta que Wagner mantinha uma relação de muita proximidade com o empresário. Para a PF, a contrapartida por essa relação vinha com o senador usando do seu peso político para acompanhar projetos de interesse do setor financeiro no Congresso e destravar portas institucionais para o grupo.
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Apartamento no Horto Florestal
A lista de supostas vantagens descritas pela PF começa no mercado imobiliário de Salvador. A apuração aponta que Augusto Lima comprou um apartamento de luxo no prédio Poème Horto, no bairro do Horto Florestal, avaliado em cerca de R$ 2,45 milhões.
De acordo com o relatório, o imóvel foi colocado no nome de uma empresa de fachada para esconder o verdadeiro beneficiário e seria destinado ao uso de Wagner. A negociação, segundo a PF, contou com a participação do enteado do senador, Guilherme Sodré, conhecido como "Tio Guiga".
Além disso, a investigação identificou repasses de dinheiro feitos por Lima diretamente para a conta da BN Financeira, empresa ligada ao próprio Guilherme, sem que houvesse qualquer registro ou prova de que algum serviço real tenha sido prestado para justificar os pagamentos.
Jatinhos, vinhos e ingressos para show
O relatório também mapeou pelo menos quatro viagens em que Jaques Wagner e familiares usaram jatinhos e aviões particulares ligados aos alvos da operação, sem desembolsar nada por isso. O roteiro incluiu folgas em paraísos turísticos, como a "Ilha da Paixão", no litoral da Bahia, além de pontes aéreas entre Brasília e o Rio de Janeiro.
A corporação apontou que o ex-sócio do Master bancou garrafas de vinhos raros e caros entregues ao petista, além de ingressos VIP e camarotes para a turnê da cantora norte-americana Taylor Swift. O pacote de entradas para os shows incluiu apresentações tanto no Brasil quanto no exterior, em Los Angeles, onde as despesas com tíquetes passaram de R$ 63 mil.
Mensagens revelam voo reservado e Wagner citado por Vorcaro
As conversas extraídas dos celulares dos alvos revelaram os bastidores dessa relação. Em um dos diálogos, Daniel Vorcaro e um intermediário trataram sobre o transporte de Jaques Wagner para Salvador em 11 de setembro de 2024.
Após o avião decolar, Vorcaro orientou cautela para não chamar atenção na chegada à capital baiana, perguntando o horário do pouso e recomendando discrição na escolha do hangar onde o jatinho ficaria guardado. O interlocutor respondeu que já havia mudado a aeronave para outro local justamente para evitar exposição.
Em outra troca de mensagens, Daniel Vorcaro citou o senador diretamente ao ser questionado sobre quais autoridades davam respaldo às negociações do Banco Master com o Banco de Brasília (BRB). O banqueiro escreveu categoricamente: "Rui, Jaques, Alexandre Silveira".
O relatório também transcreve uma mensagem de áudio enviada pelo próprio Jaques Wagner a Augusto Lima em 11 de outubro, combinando uma viagem em que utilizariam helicóptero e aeronaves do grupo: "Bom dia, Guga. Tudo indica que Fatinha topa ir no sábado. Aí a gente combina mais pra frente, abraço".
A proximidade de Wagner com o núcleo do banco também aparece em diálogos em que Augusto Lima enviou para o parlamentar a frase: "Você faz parte disso", além de conversas internas entre executivos em que afirmavam: "Vou mandar então pra tio Guiga e Jaques", tratando o senador e seu enteado como canal direto de interlocução.
Alerta sobre CPI do Master e ligação de mais de 7 minutos
A PF também localizou articulações em torno da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os negócios do Banco Master. Diante do avanço dos pedidos e da pressão de parlamentares no Congresso, Augusto Lima enviou mensagens a Jaques Wagner tratando diretamente do risco de abertura da comissão e alertando sobre o tema.
Logo após o envio da mensagem sobre a CPI, os dois iniciaram uma chamada de voz pelo WhatsApp. Segundo a quebra de dados e registros telefônicos catalogados pelos investigadores, Wagner e o ex-sócio do Master permaneceram por mais de 7 minutos em conversação direta.
74 ligações e pressão em projetos
Em troca desse tratamento, segundo sustenta a PF, Wagner teria atuado para defender pautas de interesse dos executivos. Entre elas, discussões no Congresso sobre regras de crédito consignado, mudanças nas normas do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e até tentativas de aproximação do banco com instituições públicas, como o BRB (Banco de Brasília).
Para demonstrar a proximidade da dupla, o relatório registrou 74 chamadas telefônicas entre o senador e Augusto Lima em um período de um ano e meio. A maioria das ligações ocorria por WhatsApp, o que, na avaliação dos investigadores, era uma tentativa de não deixar rastros, justamente em datas de votações importantes ou movimentações no meio financeiro.
O que diz a defesa
Desde que o caso veio à tona, Jaques Wagner nega qualquer irregularidade, crime ou recebimento de propina. O senador afirma que sua relação com Augusto Lima é estritamente pessoal e decorrente de uma amizade antiga entre as duas famílias, sem qualquer relação com seu mandato político ou com votos no Senado.
A defesa do líder petista declarou ainda ao STF que todas as acusações e operações financeiras mencionadas no relatório serão devidamente esclarecidas e contestadas, garantindo que o parlamentar jamais usou o cargo público para favorecer interesses de empresários.
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