Saúde
Publicado em 16/09/2026, às 16h20 - Atualizado às 18h20 Becky Jones/Arquivo pessoal/BBC Sophia Souza
Mais de 40 pacientes estão movendo uma ação judicial contra o University Hospitals Coventry and Warwickshire (UHCW) NHS Trust, na Inglaterra, por conta de tratamentos desnecessários ou prolongados contra o câncer.
📲 Clique aqui e inscreva-se no canal do BNews no Youtube!
Alguns pacientes comentaram com a BBC que receberam medicamento quimioterápico temozolomida (TMZ) durante anos, o que causou diversos problemas graves de saúde.
Uma paciente chegou a acreditar que o medicamento a tinha deixado infertil, enquanto outro desenvolveu leucemia após passar por 100 ciclos desnecessários.
As conclusões preliminares da investigação do Royal College of Physicians (RCP) indicam que esses pacientes recebiam rotineiramente tratamentos prolongados com medicamento, sem nenhuma evidência de benefício.
A investigação também apurou que falhas da equipe do hospital eram equivalentes a uma “traição da confiança dos pacientes” e questionou porque as equipes da farmácia oncológica não contestaram o fato de pacientes receberem quimioterapia oral continuamente por 10 a 15 anos.
O UHCW declarou que não conseguiria comentar casos individuais, mas afirmou que foram adotadas medidas para garantir uma supervisão mais rigorosa da prescrição e do uso do medicamento.
O hospital, por meio de um porta-voz, ainda disse que todos os pacientes afetados foram avaliados por médicos experientes e que estão fazendo uma revisão independente dos processos internos.
"O hospital analisará a íntegra da investigação do RCP quando ela for publicada e tomará outras medidas apropriadas com base em suas conclusões. Queremos tranquilizar nossa comunidade de que a segurança, a experiência e o bem-estar dos pacientes continuam sendo nossas principais prioridades", acrescentou o hospital.
Becky Jones tinha 21 anos quando foi avisada que tinha um tumor cerebral terminal. O diagnóstico foi feito por um médico especialista em câncer e o tratamento quimioterápico durou 11 anos.
O médico Ian Brown, responsável pelo caso de Jones, diagnosticou um glioblastoma de grau 4, uma das formas mais agressivas de câncer cerebral.
Os exames de imagem, no entanto, não mostravam sinais de um tumor. Segundo Jones, o médico afirmava que o tumor dela não seria visível a olho nu.
A partir desse momento, Becky passou a tomar TMZ. Ela relatou que, durante o tratamento, sentia náusea constante, dores no estômago, úlceras na boca e cansaço no dia a dia. Ela ainda conta que o medo de infecções fez com que ela evitasse eventos sociais.
Até que em 2025, durante uma revisão dos quadros de câncer do hospital, ela descobriu a verdade. Na realidade, ela sofria de uma desmielinização tumefativa, ou seja, uma inflamação que normalmente é tratada com corticoides em altas doses.
A investigação do RCP, que não identificou o professor Ian Brown, mas se referiu a ele como "Dr. Y", chegou a conclusão que, dos 20 casos analisados, 15 foram considerados "insatisfatórios de modo geral".
As conclusões preliminares apontaram "curiosidade clínica insuficiente" em alguns casos e julgaram que a falta de colaboração com colegas de outras especialidades, permitiram que possíveis erros de diagnóstico persistissem.