Saúde
Publicado em 10/10/2026, às 06h00 Foto: Ilustrativa / Unsplash Cibele Gentil
O aumento do número de casos de câncer de mama no país é um dado que chama a atenção e preocupa especialistas da área da saúde. Começar o tratamento e combater a doença ainda nos estágios iniciais pode ser determinante para a cura, além de diminuir as consequências da enfermidade e do próprio tratamento. O processo de cura de um câncer pode ser agressivo e deixar marcas profundas no corpo, assim como no estado emocional, de mulheres que precisam enfrentá-lo.
De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), deverão surgir mais de 78 mil novos casos de câncer de mama no Brasil em 2026. O número previsto tem um acréscimo de 5 mil sobre os casos que surgiram em 2025, representando um aumento aproximado 6,8% no comparativo de um ano para o outro. Para encontrar o problema logo no início, profissionais e entidades médicas recomendam, de forma geral, que as mulheres realizem exames de rastreamento mamográfico e exames clínicos anualmente, a partir dos 40 anos de idade.
Conhecer o próprio corpo e ficar atenta às mudanças também pode contribuir para que o diagnóstico possa ser determinado precocemente. Além do surgimento de nódulos nos seios, outros sinais podem indicar que algo precisa ser investigado. Sintomas como alterações na pele, assimetrias repentinas ou secreção nos mamilos podem ser indicadores de que algo está errado. Estar alerta a esses sinais pode colaborar para a identificação da doença e salvar a própria vida.
Conforme explica a mastologista Sálvia Maria Canguçu, coordenadora do Curso de Oncoplastia e Reconstrução Mamária do Hospital Aristides Maltez, em Salvador, o câncer de mama, na maioria das vezes, é assintomático. A médica reforça que a principal forma de identificação da doença é com a realização de rastreamento por imagem, através de mamografia.
Contudo, a mastologista, integrante do Centro Estadual de Oncologia (Cican), ligado à Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), pondera que é possível que a doença surja durante o intervalo até a realização do próximo exame. “É o chamado câncer de intervalo e, às vezes, ele é agressivo, sim. Ele aparece naquele período entre uma mamografia e outra e cresce rapidamente”.
Por isso, o autoconhecimento é tão importante e pode salvar vidas. “Nesse cenário, se é uma mulher que faz seu autoexame, que conhece seu corpo, quando se examina, ela pode perceber: ‘Opa, apareceu isso aqui e não tinha, vou procurar meu médico’’, contextualizou a mastologista.
Há diversos sinais, além de nódulos, que podem indicar a manifestação de um câncer de mama. “São alterações de formato da mama, às vezes o tamanho, uma mama está ficando maior que a outra, retração de pele ou de mamilo. Às vezes não chega a ser um nódulo, mas uma área endurecida, com espessamento, uma pele mais endurecida, com mudanças nessa textura”, descreveu a mastologista, listando alguns aspectos que podem ser observados pela mulher.
Segundo Sálvia Canguçu, a pele pode apresentar uma textura semelhante a uma casca de laranja ou apresentar uma vermelhidão persistente, com o local permanecendo avermelhado ao longo dos dias, sem passar. Outra alteração que pode ser percebida é um abaulamento, um inchaço que pode aparecer em uma parte ou atingir toda a mama.
A médica também chama atenção para alterações que podem aparecer no mamilo, como um ferimento persistente ou uma descamação. Outra possibilidade é a ocorrência de descarga papilar. “É uma secreção pelo mamilo, quando é espontânea, que sai sem pressionar. Às vezes, a mulher acorda de manhã e vê a camisola suja de um líquido, principalmente quando esse líquido for sanguinolento e unilateral”, detalhou.
Perceber alguma dessas alterações não significa, necessariamente, que a mulher desenvolveu um câncer de mama. Por outro lado, ainda que o diagnóstico não indique a presença da doença, alterações como as indicadas pela médica são relevantes e é necessário avaliar seu surgimento e descobrir a causa. O aparecimento de um desses sinais merece atenção especial e uma investigação cuidadosa.
O ideal é que a mulher busque a avaliação de um especialista, para que seja constatado se o que se apresenta é ou não algo benigno. “Se for negligenciada e a alteração for algum tipo de câncer, ela perde um tempo com isso e pode ser que a doença seja diagnosticada mais tardiamente”, ponderou Sálvia Canguçu.
Por vezes, quando se trata de uma mudança na pele, como uma vermelhidão ou um espessamento, por exemplo, a mulher pode não associar a algo mais grave e acabar não buscando ajuda profissional. “Às vezes, elas passam uma pomadinha e deixam por isso mesmo, não procuram ajuda. Quando não tem caroço, assusta menos”, contou a médica.
Um ponto frisado por Sálvia Canguçu é o papel do autoexame na rotina mensal das mulheres. “O autoexame não é indicado como um método de rastreio, mas é indicado como um método de autoconhecimento das mulheres”, esclareceu.
Quando se fala em autoconhecimento ou autoexame, a questão não está apenas em perceber um caroço, mas em conseguir reconhecer mudanças que fogem do aspecto habitual da própria mama. A médica também orienta sobre como a mulher, periodicamente, deve observar o próprio corpo.
“Todo mês, aquela mulher que ainda menstrua, sete dias após a menstruação ter ido embora, ela deve fazer o seu autoexame”, aconselhou.
A médica ainda ressalta a importância de que a mulher mantenha essa rotina. “Ela vai saber como é aquela mama e ela vai perceber se houve alguma alteração nesse autoconhecimento. Se ela não se olha, ela não vai perceber.”
Perceber uma alteração não significa que a mulher tenha câncer, mas também não é recomendável esperar que ela desapareça sozinha. Diante do surgimento de algum sinal de que algo pode estar errado com seu corpo, a mulher deve buscar auxílio profissional para investigar o sintoma, mesmo quando não há um nódulo palpável.
Conforme esclarece Sálvia Canguçu, o especialista médico que cuida das mamas é o mastologista. Caso, no primeiro momento, a mulher encontre alguma dificuldade em agendar uma consulta para o ramo específico, ela também pode buscar atendimento com o seu ginecologista.
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza atendimento para ambas as especialidades. Para iniciar os exames e avaliações, o primeiro passo a ser dado é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Unidade de Saúde da Família (USF) mais próxima de sua residência.
"O médico das mamas é o mastologista. Mas se a mulher não conseguir acesso ao mastologista, ela pode marcar com o ginecologista dela em um posto de saúde. O ginecologista é apto e tem conhecimento suficiente para poder avaliar aquela mama e pedir os exames, pedir uma mamografia e um ultrassom, e indicar a necessidade de encaminhar para um especialista”, observou a médica.
Para Sálvia Canguçu, o ponto central da rotina da mulher deve estar no autocuidado. A mastologista explica que é um conjunto de hábitos que pode trazer mais saúde e qualidade de vida. De acordo com a mastologista, a prevenção ao câncer de mama vai muito além da realização de exames de rastreamento e autoconhecimento.
Conforme explicou a médica, alguns estudos demonstraram que manter hábitos saudáveis pode reduzir em cerca de 30% o risco de desenvolver algum tipo de câncer ao longo de toda a vida. “É alimentação saudável e atividade física, que podem reduzir esse risco em até 30% ao longo da vida de ter um câncer de mama, por exemplo. É dormir bem, é não fumar, é não beber”, listou a mastologista como alguns dos hábitos que contribuem para uma vida mais saudável.
A especialista ressaltou que se alimentar bem, dormir bem, tentar minimizar os fatores de estresse dentro do possível e fazer atividade física regular são fundamentais no dia a dia. “A rotina de autoconhecimento e fazer os exames são importantes, sim. Mas ainda mais importante é a rotina de autocuidado, de amor próprio, e adotar medidas de prevenção, tanto para o câncer de mama quanto os outros cânceres”, concluiu.