Saúde
Publicado em 18/09/2025, às 06h00 Reprodução / Freepik Leonardo Oliveira
Descrita como um transtorno mental grave na Classificação Internacional de Doenças (CID) e considerada um dos problemas de saúde mais recorrentes nos últimos anos, a depressão, muitas vezes, ainda é tratada como algo simples.
Segundo estudo epidemiológico do Ministério da Saúde, até 15,5% da população brasileira pode sofrer de depressão em algum momento da vida. Em dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS)/Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 10,2% dos adultos relataram diagnóstico médico de depressão.
Além disso, quase um em cada dez baianos convive com depressão e a Bahia lidera o número de afastamentos do trabalho por doenças emocionais no Nordeste. O estado tem taxas de ansiedade (14,9%) e depressão (8,3%) que superam a média nacional (12,2% e 6,5%, respectivamente), segundo a PNS.
Apesar desse cenário, ainda existem rótulos e uma visão equivocada à respeito da doença. Os sintomas podem ser vistos como um sinal de fraqueza ou tristeza temporária. E, por conta dessa falta de informação da população em geral, a doença acaba sendo vista e taxada como frescura e algo banal.
O que é depressão?
Classificada como transtorno depressivo, trata-se de um distúrbio mental que atinge os sentimentos da pessoa. O indivíduo começa a ter pensamentos negativos sobre quem ele é, com diminuição da autoestima, falta de prazer em atividades que antes eram prazerosas e, em casos mais sérios, começa a se questionar sobre a vida, com pensamentos suicidas.
“A depressão é uma doença complexa que inclui diversos sintomas além do sentimento de tristeza profunda. É importante observar outros sinais que indicam um episódio depressivo como alteração na alimentação e sono, isolamento, perda de interesse nas atividades antes prazerosas, negligência no autocuidado e higiene, irritabilidade ou maiores conflitos nas relações sociais e familiares e sentimento de desesperança”, conta Ethel Poll, psicóloga e coordenadora do Programa de Tratamento da Depressão da Holiste Psiquiatria, ao BNews Setembro Amarelo.
A especialista explica que é normal sentir tristeza em situações de perda, frustração ou estresse, mas esclarece que há discrepâncias em relação ao quadro depressivo. “A diferença da tristeza para um episódio depressivo pode ser identificada pela duração, intensidade dos sintomas e pelo impacto funcional. A presença de sintomas depressivos requer a avaliação e cuidado por uma equipe qualificada e especializada”, afirma.
Quando se fala em depressão, a primeira imagem que surge é a de alguém mergulhado em uma tristeza profunda. Mas a experiência nos mostra que ela pode se manifestar de formas menos óbvias e, justamente por isso, muitos sinais acabam sendo ignorados.
“Fadiga, cansaço, dores no corpo, irritabilidade, ansiedade, dificuldades cognitivas como falta de atenção, esquecimentos, lentificação do pensamento são sintomas que passam despercebidos e muitas vezes não são atribuídos a um quadro depressivo, mas são levados em consideração em uma avaliação mais criteriosa”, diz a psicóloga da Holiste Psiquiatria.
Alguns sintomas são comumente notados pelos familiares, como alteração na rotina, sono, alimentação, diminuição das atividades prazerosas e isolamento. Porém, sentimento de desesperança, vazio e falta de perspectivas de futuro podem indicar um agravamento da doença com a presença de pensamentos autodestrutivos e ideação suicida.
Importância do diagnóstico
Vários fatores envolvem o diagnóstico de depressão. Alguns dos aspectos a serem observados é a duração e a intensidade dos sintomas. “É importante destacar que esses sintomas não podem ser negligenciados se causam um prejuízo importante na vida do sujeito, seja no trabalho, nas relações sociais, na vida amorosa. Se os sintomas se apresentam de forma intensa, causando disfuncionalidade na vida do sujeito, e se duram mais de duas semanas, é importante buscar ajuda”, explica Ethel Poll.
A avaliação do diagnóstico de um quadro depressivo é baseada na observação clínica, relato do paciente e dos familiares. Avaliar o prejuízo na funcionalidade da pessoa é fundamental para um diagnóstico e tratamento adequado da doença. Durante a avaliação, também é importante observar quais são os fatores de risco e desencadeadores do episódio depressivo, assim como as fontes de proteção e rede de apoio desse paciente.
Não é frescura
Se partimos do princípio que a depressão é uma doença, um transtorno psíquico com muitos fatores envolvidos que compromete de forma global a vida e o bem estar de um indivíduo e que, nos casos mais graves, pode levar à morte, como pensar que algo desta magnitude pode ser frescura, falta de caráter, preguiça ou escolha pessoal?
“Existem muitos mitos e crenças associados a um quadro depressivo. Falta de vontade, preguiça e falta de Deus ou alguma religião são os mais comuns em nossa sociedade. Crenças como essas atrapalham o diagnóstico e o tratamento adequado, podendo prolongar ou intensificar o quadro sintomático”, explica a psicóloga Ethel.
Na tentativa de ajudar o paciente, familiares ou amigos podem se utilizar de falas que aumentam o isolamento do sujeito, os pensamentos negativos ou autodestrutivos e impedem que este busque ajuda profissional. A família e amigos que compõem a rede de suporte do paciente também necessitam de acolhimento e orientação justamente para desconstruir crenças enraizadas sobre a doença.
Centro de Valorização da Vida
O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias.
Ao ligar para o número 188, é possível ser atendido por um voluntário, com respeito, anonimato, que guardará estrito sigilo sobre tudo que for dito. Os voluntários treinados para conversar com todas as pessoas que procuram ajuda e apoio emocional.
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Atendimento gratuito
Para buscar apoio através de atendimento com profissionais de saúde mental, de forma gratuita, na capital baiana, basta recorrer aos serviços oferecidos pela prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Atualmente, o município, através da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dispõe de vários pontos de atenção à saúde mental.