Vida

Pais antes dos 30: geração Z transforma relação com a paternidade

Pais da geração Z relatam desafios de criar filhos antes dos 30 e mostram como presença, afeto e cuidado estão transformando a paternidade  |  Freepik

Publicado em 09/08/2026, às 06h00   Freepik   Analu Teixeira

Aos 20 anos, Davi imaginava que ainda havia uma longa lista de etapas a cumprir antes de se tornar pai. Primeiro viria a estabilidade financeira, depois o emprego dos sonhos, o casamento, uma casa, um cachorro e, somente então, os filhos. O planejamento, no entanto, tomou outro rumo quando ele descobriu que Maya estava a caminho.

“Eu imaginava uma família quase de novela, tudo planejado e perfeito. Mas a vida acaba pegando a gente de surpresa”, relembrou.

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Hoje, aos 23 anos, Davi é pai de Maya, de 3. A notícia da gravidez inesperada, porém, não foi recebida inicialmente com a tranquilidade que ele demonstra ao falar da filha atualmente. Na época, o medo de assumir uma responsabilidade tão grande enquanto ainda iniciava a vida adulta tomou conta dos pensamentos. “Minha primeira reação foi de desespero. Eu pensava: ‘Eu não sei como ser pai. Como vou cuidar de uma criança? Preciso trabalhar mais. Acabei com a minha juventude’”, contou.

Apesar dos meses de gestação, Davi afirma que foi apenas no nascimento de Maya que compreendeu completamente a dimensão da mudança que estava vivendo.

“Quando peguei minha filha no colo nos primeiros segundos de vida dela, foi quando percebi: ‘Agora eu sou pai’.”

A partir daquele momento, segundo ele, mudaram a rotina, os sonhos, os planos e até a maneira de avaliar as próprias escolhas. A responsabilidade por outra pessoa fez com que o amadurecimento chegasse de maneira acelerada.

“Eu ouvi uma vez um ditado que diz: ‘O feijão cozinha mais rápido na panela de pressão’, e sinto que foi exatamente isso que aconteceu comigo. A pressão de uma responsabilidade tão grande fez com que algumas coisas amadurecessem muito mais rápido na minha vida.”

A experiência de Davi está inserida em uma geração de homens que começa a questionar modelos de paternidade reproduzidos durante décadas. Mais do que ocupar exclusivamente a posição de provedor financeiro e autoridade dentro de casa, parte dos pais mais jovens busca participar ativamente dos cuidados e estabelecer uma relação de maior proximidade emocional com os filhos.

Para a psicóloga Noemy Pereira, essa transformação pode ser percebida na maneira como muitos homens mais jovens passaram a compreender o próprio papel dentro da família.

“Existe hoje uma busca maior por uma participação mais ativa na vida dos filhos, não apenas no sentido de prover financeiramente, mas também de cuidar, acompanhar, brincar, conversar, demonstrar afeto e estar emocionalmente disponível”, explicou.

Segundo a profissional, durante muito tempo, o modelo de masculinidade predominante associou ao homem principalmente a responsabilidade de sustentar financeiramente a família, enquanto os cuidados e a educação dos filhos eram atribuídos às mulheres. Esse padrão, entretanto, passou a ser questionado.

Entre as razões apontadas por Noemy estão as transformações sociais, as novas configurações familiares, o crescimento das discussões sobre saúde mental e o maior acesso a informações sobre desenvolvimento infantil, vínculos e parentalidade

“Muitos pais estão percebendo que a presença paterna não se resume a estar dentro de casa, mas envolve disponibilidade emocional e participação efetiva”, destacou.

Ser presente mesmo morando longe

Na vida de Davi, essa reflexão aparece de maneira especialmente pessoal. Ele e a mãe de Maya são separados e precisam conciliar os cuidados com a filha com jornadas de trabalho diferentes. Davi trabalha durante a noite, das 19h às 7h, em escala 4x2.

Pela manhã, a mãe coloca Maya na van escolar. No fim da tarde, é Davi quem busca a menina na creche, localizada a cerca de uma hora e meia da casa dele. Pai e filha ficam juntos até próximo do horário de trabalho, quando Maya retorna para a mãe.

Nos dias de folga, a menina permanece com o pai. É quando os dois aproveitam para passear ou simplesmente passar o dia juntos. “Eu tento participar de tudo, mesmo com uma rotina apertada: reuniões na creche, consultas médicas quando precisa, passeios, banho, penteados, escolher o ‘look’ e todos aqueles cuidados que uma princesinha do papai precisa”, contou.

A busca pela presença tem relação direta com a experiência que Davi teve como filho. “Acho que uma das coisas que tento fazer diferente do modelo de paternidade que tive na infância é justamente a presença. Meu pai não era tão presente, mesmo morando na mesma casa. Eu tento fazer o contrário: estar presente de verdade, mesmo não morando na mesma casa que ela.”

A fala encontra eco na análise de Noemy. Segundo a psicóloga, a paternidade também pode provocar uma revisão das experiências vividas durante a infância.

“Homens que talvez tenham crescido com pais emocionalmente distantes hoje podem se questionar: ‘Que tipo de pai eu quero ser?’. E essa reflexão pode produzir uma paternidade mais afetiva e consciente”, explicou.

Noemy pondera, entretanto, que a mudança não pode ser atribuída automaticamente a todos os homens de uma geração.

“Não podemos generalizar, porque existem diferentes formas de vivenciar a paternidade e ainda há muitos homens que encontram dificuldade para expressar emoções ou assumir uma divisão mais equilibrada dos cuidados. Por isso, mais do que falar em uma nova geração de pais, eu diria que estamos vivendo uma transformação gradual no próprio significado de ser pai.”

“Nós crescemos junto com o Theo”

Se Davi precisou reorganizar individualmente os planos aos 20 anos, Mariana Alves e Lucas Alves descobriram juntos como construir uma família enquanto ainda tentavam descobrir os rumos da própria vida.

Hoje com 24 anos, os dois são pais de Theo, de 4. Mariana engravidou aos 19 anos e teve o filho aos 20, mesma idade em que Lucas se tornou pai. Eles já namoravam quando descobriram a gravidez, permaneceram juntos e atualmente são casados.

“Foi uma experiência muito intensa, porque, ao mesmo tempo em que eu estava aprendendo a ser mãe, o Lucas também estava aprendendo a ser pai. A gente tinha 20 anos, então ainda estávamos tentando entender a nossa própria vida, o que queríamos fazer profissionalmente, como seria nosso futuro… e, de repente, tinha uma criança que dependia completamente da gente”, contou Mariana.

O medo estava presente para os dois, mas aparecia de maneiras diferentes. Enquanto Mariana questionava se conseguiria ser uma boa mãe, Lucas demonstrava preocupação principalmente com a responsabilidade de oferecer estabilidade financeira à família.

“Enquanto eu pensava muito: ‘Será que vou conseguir ser uma boa mãe?’, ele pensava: ‘Será que vou conseguir sustentar minha família?’. E a gente precisou aprender a conversar sobre esses medos.”

A chegada de Theo também transformou o relacionamento. Os planos espontâneos de dois jovens namorados deram lugar a uma rotina que exigia organização, responsabilidade financeira e decisões tomadas pensando em uma terceira pessoa.

“Tivemos discussões, momentos de cansaço e situações em que um precisou segurar o outro, mas fomos aprendendo que não adiantava competir para saber quem estava mais cansado ou quem estava abrindo mão de mais coisas. Precisávamos funcionar como uma equipe”, afirmou.

Quatro anos depois, Mariana resume a experiência de forma simples: “Hoje, olhando para trás, sinto que nós crescemos junto com o Theo. Ele nasceu e, de certa forma, uma versão completamente nova de nós dois também nasceu naquele momento.”

Cuidar não é “ajudar”

Essa transformação também apareceu na divisão das responsabilidades. Mariana conta que Lucas participou dos cuidados com Theo desde os primeiros momentos, mesmo enquanto os dois aprendiam a exercer funções que nunca haviam desempenhado.

“Teve troca de fralda, banho, madrugada sem dormir, consulta, vacina… não existia muito essa ideia de que ele estava ‘me ajudando’, porque o filho também era dele.”

Durante a amamentação, algumas responsabilidades naturalmente ficaram concentradas em Mariana. Quando ela passava a noite acordada, porém, Lucas buscava assumir outras tarefas para que a companheira pudesse descansar. Conforme Theo cresceu, a divisão passou a acompanhar a rotina de cada um.

“Não é uma divisão perfeita de 50% para cada um todos os dias, porque tem dias em que um está mais ocupado ou cansado, mas a gente tenta equilibrar”, explicou.

Para Mariana, a geração à qual os dois pertencem teve influência na maneira como decidiram criar Theo.

“A gente cresceu vendo muitas mulheres assumindo praticamente tudo dentro de casa e muitos homens sendo elogiados simplesmente por fazer o básico com os próprios filhos. Então nós conversamos muito para não repetir isso.”

Mais do que dividir tarefas, o casal também busca construir para Theo uma referência diferente de figura paterna. “Para mim, sempre foi importante que o Theo enxergasse o pai como alguém que cuida dele de verdade, e não só como a pessoa que trabalha ou coloca limites”, afirmou Mariana.

Paternidade em meio à construção da vida adulta

Assumir a criação de um filho enquanto carreira, estabilidade financeira e identidade adulta ainda estão sendo construídas pode tornar a experiência especialmente desafiadora.

Segundo Noemy, sentimentos aparentemente contraditórios podem coexistir nesse processo. Amor e felicidade não eliminam medo, insegurança, preocupações financeiras ou até a sensação de perda da liberdade.

A psicóloga destaca ainda que homens jovens podem enfrentar uma dificuldade adicional: admitir que não sabem lidar com todas as exigências da nova realidade. 

“Ainda existe uma cobrança social para que o homem seja forte, resolva os problemas e não demonstre fragilidade. Só que a paternidade também desperta dúvidas e vulnerabilidades, e reconhecer isso não diminui o homem — pelo contrário, pode favorecer uma vivência mais saudável da própria paternidade”, explicou.

Para ela, tornar-se pai cedo também não deve ser encarado necessariamente como o fim dos projetos individuais. O desafio passa a ser incorporar a existência do filho aos planos que antes eram pensados individualmente.

Davi conhece bem essa reorganização. Entre jornadas noturnas, deslocamentos para buscar Maya na creche e dias de folga transformados em momentos ao lado da filha, ele admite que conciliar trabalho, vida pessoal e paternidade continua sendo seu maior desafio.

Mesmo assim, calcula que Maya fica com ele em pelo menos cinco dos sete dias da semana. A presença da menina se tornou tão incorporada à rotina que sair sem ela provoca uma sensação estranha. “Quando faço alguma coisa sem a Maya, às vezes até sinto como se estivesse ‘nu’, como se estivesse esquecendo alguma coisa.”

Três anos depois daquele primeiro pensamento de que havia “acabado com a juventude”, a forma como Davi descreve a própria vida é outra. 

“Sou pai de primeira viagem e estou longe de ser perfeito. Ainda estou aprendendo todos os dias. Mas tento ser, para a minha pequena, o melhor pai do mundo.”

Classificação Indicativa: Livre


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