Economia e Mercado

O Comércio Internacional e as Cadeias Globais de Valor

[O Comércio Internacional e as Cadeias Globais de Valor]
11 de Junho de 2019 às 23:11 Por: Cairo Andrade 0comentários

O processo de restruturação produtiva do sistema capitalista teve como características a transformação no sistema monetário internacional, marcado pelo fim do acordo de Bretton Woods instaurando-se a liberalização financeira e o fim da paridade ouro/dólar a partir da década de 1980. O segundo elemento é a liberalização comercial dos anos 1990 e a predominância das políticas neoliberais como orientação hegemônica. E por fim, a intensificação da fragmentação da produção em várias etapas, fenômeno este que além de integrar diversas economias em torno da produção passou a ganha mais força a partir dos anos 2000 com a entrada da China no comércio internacional. 

O processo de fragmentação da produção vai passar a ser objeto de pesquisa de inúmeros autores do campo da organização industrial que vão buscar entender o quanto de valor é agregado por nação em cada etapa da produção, cunhando o nome de Cadeias Globais de Valor (CGVs).

A CGVs só foi possível graças ao advento da microeletrônica, internet e da tecnologia de informação que acabou por transformar o padrão de gestão das grandes empresas transnacionais. Na prática, o desenvolvimento de tais tecnologias possibilitou a redução de custos operacionais com transporte e comunicação, ao mesmo tempo, permitiu que as grandes empresas fragmentassem e transferissem algumas etapas da produção para países vizinhos através de acordos regionais entre países ou empresas. Como afirmam Estevadeordal e Blyde (2013), a lógica do comércio de acordo com a CGV é uma maneira de explicar a participação dos países nas cadeias de fornecimento globais, rastreando o valor agregado de cada país de origem em uma rede de produção globalmente integrada. 

Os indicadores utilizados para mensurar a inserção dos países em CGVs revela o percentual das exportações de um país que integram as CGVs. O indicador “para trás” demonstra o valor adicionado por economias estrangeiras nas exportações do país, enquanto o indicador “para frente” é o valor adicionado doméstico do país nas exportações de outros países. A soma dos dois indicadores gera uma estimativa sobre a participação do país nas CGVs. Quando a posição CGV é alta, o país tende a participar mais como fornecedor de valor agregado do que como receptor de valor agregado estrangeiro.

De acordo com os padrões de produção globalizados do século XXI, um produto pode ser projetado em um país, fabricado em outro e os componentes podem ser provenientes de vários outros. O caso do iPod da Apple pode ser tomado como exemplo. Na verdade, o produto é projetado e comercializado por uma empresa americana, montada por fabricantes taiwaneses na China e inclui muitos componentes-chave de fornecedores japoneses, coreanos e norte-americanos.

Neste exemplo, sugere-se que os EUA capturem a maior parte do valor criado, especialmente quando o produto é vendido no mesmo país, fornecendo-nos uma primeira indicação muito importante sobre cadeias de valor globais: questões de nacionalidade. Isso se deve ao fato de que a empresa líder nessa cadeia de valor global, a Apple, mantém todas as atividades de maior qualificação e maior valor agregado, como design, desenvolvimento de software e marketing em seu país de origem. De acordo com Estevadeordal e Blyde (2013), estudos revelaram, por exemplo, que apesar de a China exportar o iPod e incluir em suas estatísticas de comércio o valor total do produto, o país só contribui com 3,8% do valor total do bem, uma vez que muitos outros países também participam da produção. 

Já os países periféricos integram-se à CGVs por meio de sua vasta e crescente força de trabalho, o que dá a esses países uma vantagem, especialmente em indústrias e atividades de trabalho intensivo. Porém, não é apenas os baixos custos com mão de obra que gera atratividade das economias emergentes dentro das CGVs. Além de seus custos trabalhistas mais baixos, as economias também estão se tornando grandes mercados consumidores.

Apesar do termo global a arena das CGVs e do comercio internacional realiza-se a partir de acordos comercias entre empresas e países em regiões geograficamente próximas e atualmente expressam-se em três grandes centros: América do Norte (EUA), Ásia (China) e Europa (Alemanha). Estudos mostram que, quando se calcula o valor agregado estrangeiro nas exportações de cada região,  identifica-se que os países da Europa são os que exibem o maior valor agregado estrangeiro, seguidos pela Ásia-Pacífico e pela América do Norte, ou seja, a lógica do comércio sob a perspectiva da CGV mantêm um processo assimétrico da inserção dos países no comércio internacional, com alguns países se beneficiando mais do que outros. 

Esse processo assimétrico pode ser constatado quando verificamos que a Alemanha, o Japão, a China e os EUA são os únicos países que fornecem uma quantidade globalmente relevante de bens intermediários para um grande número de parceiros e, do lado da oferta, esses quatro países também são os que apresentam o maior número de fluxos relevantes de importação.  Além disso, podemos observar como a maior parte dos fluxos de intermediários acontece entre os países pertencentes à mesma região. Esses países apresentam um grande número de parceiros comerciais com os quais se envolvem em fluxos bilaterais globalmente significativos, o que significa que eles estão no centro nas CGVs e definem os padrões dos fluxos internacionais de intermediários.

De fato, os únicos fluxos de vendas significativos da Alemanha são aqueles que ocorrem em um contexto regional, enquanto a China e os EUA têm suas vendas mais difundidas em todo o mundo, sendo o primeiro o fornecedor dominante de insumos intermediários no mundo.

Em um dos últimos relátorios da OCDE sobre comércio internacional e cadeias globais de valor, os dados OCDE confirmam a importância das interdependências comerciais entre países vizinhos, a China por exemplo, tem a maior parte dos valores adicionados as suas importações finais no continente asiático (16,2%). Já os Estados Unidos têm um valor adicionado nas suas exportações de 19,3% dentro do continente norte americano. A Alemanha tem a maior parte do valor adicionado as suas importações na França, Reino Unido e Itália com mais de (17%).

O caráter regional na formação das CGVs impõe um desafio para os países em desenvolvimento que desejam participar das CGV, mas se encontram distantes dessas integrações industriais. No caso brasileiro a discussão evidencia a catastrófica política de comércio internacional que subestima a relação comercial do Brasil com os países sul americano, além de ter uma inserção nas cadeias globais de valor sustentada em produtos de baixa intensidade tecnológica, deixando nítido a fragilidade de sua inserção no comércio mundial. 
 

*Cairo Andrade é pesquisador do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestrando em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (FE/UFBA). Graduado em Ciências Econômicas.  

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