
Walter Pinheiro nasceu em Salvador em 1959 e debutou na política dentro do movimento sindical. Tomou gostou pela coisa e - já na “trincheira” do PT - foi vereador, deputado federal e secretário de estado. Hoje, aos 52 anos, é senador da República. Em 2008, se tornou um dos nomes mais fortes do “campo de esquerda” após obter mais de 500 mil votos durante a disputa pela prefeitura de Salvador. Nesta entrevista ao Bocão News, Walter Pinheiro fala sobre o trabalho no Congresso, aponta falhas na articulação política do governo Dilma e diz que o ministro Palocci deve explicações à sociedade. Além disso, ele garante que não pretende concorrer ao Thomé de Souza na próxima eleição e acusa o conselheiro Pedro Lino, do TCE, de ser negligente no acompanhamento do processo da Arena Fonte Nova. Leitura indispensável! O senhor tem uma larga experiência na Câmara dos Deputados e também teve passagem marcante em cargo no Executivo, mas sabemos que o Senado tem um funcionamento bastante peculiar. Como o senhor foi recebido? Já está adaptado? O que tem feito?
É uma passagem bastante interessante. Ocupo um espaço que oferece boas condições de trabalho, mas realmente não se trata de uma continuidade do que é feito na Câmara. Na verdade, é muito diferente. É um espaço reduzido, com um número pequeno de integrantes, mas que passou por uma grande renovação. Então, o nível de cobrança é muito maior. No Senado existe um equilíbrio na correlação de forças. Por outro lado, apesar da grande demanda, há uma facilidade maior para desenvolver os trabalhos. Estou entrando no quinto mês, ainda é pouco tempo. Mas, diria que foi uma chegada bastante intensa, já convivendo com o processo de aceleração do próprio governo.
E quanto à bancada baiana na Casa, qual avaliação o senhor faz do trabalho desempenhado por Lídice da Mata (PSB) e João Durval (PDT)?
Diria que essa é a primeira mudança. Pela primeira vez na história da Bahia, nós temos três senadores do nosso campo político. Nós sempre nutrimos uma cultura de trabalho conjunto e, felizmente, tem sido feito. Até para efeito de espaço físico, nossos três gabinetes são coladinhos um no outro. O meu é o 13, o de Lídice 15 e o de João Durval é o 9.
O 13 era de César Borges, né?
Isso mesmo.


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Há pouco, o Senado reinaugurou o túnel do tempo. Inicialmente, por alguma razão inaceitável, tiraram o impeachment sofrido por Fernando Collor. Depois da pressão da imprensa, voltaram atrás e o episódio ganhou espaço no mural que retrata a história política do país. Como o senhor analisa isso tudo: foi um acidente ou uma estratégia para não constranger o ex-presidente, que agora é senador pelo PTB de Alagoas?
Não acredito nesta tese do “acidente”, levantada pelo presidente José Sarney. Me parece que foi mesmo uma tentativa de evitar constrangimentos para o senador Collor, que é uma atitude errada. Aí, paciência, né! Não se pode rasgar a história para proteger quem quer que seja. Então, não existe justificativa para fazer um atentado dos mais perversos à história do país só para tratar um colega com delicadeza. Foi um erro, que foi corrigido graças a liberdade de expressão do Brasil.
Depois de muito embate, discussão e polêmica, a Câmara aprovou o Código Florestal. Mas, por um deslize da articulação política do governo, o PMDB conseguiu agregar uma emenda “bancada” pelos ruralistas, que trata de anistia para grandes agricultores e libera o plantio em áreas de ocupação permanente. De maneira geral, como o senhor vê o texto aprovado pelos deputados? Há orientação para excluir alguns pontos? Desta vez, o Palácio do Planalto terá habilidade para acompanhar a tramitação?
Olha, diria até que o governo terá que fazer uma nova organização da sua articulação política. Não necessariamente mexendo nas peças, mas na forma de atuação. É preciso um grau maior de presença no Senado, o que, de fato, não houve na Câmara. Não dá para o governo apenas determinar o que quiser, tem que estar junto com o relator do começo ao fim. Entregar um pacote pronto, é o mesmo que estabelecer uma guerra entre as duas casas. Não dá para colocar a situação da seguinte forma: “o Senado vai corrigir o que foi feito pela Câmara”. Não é assim.
Então, o senhor diria que o governo foi negligente e abandonou o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), relator do Código na Câmara?
Acho que não houve negligência, mas faltou um nível maior de acompanhamento. Houve também uma desagregação da base na discussão do tema. O que, na verdade, é natural. No Parlamento é comum a diversidade de opiniões. No Senado, primeiro se faz necessária uma discussão com todos para saber a importância do Código Florestal. Ele é uma ferramenta indispensável para tratar da questão ambiental, tão em voga no mundo inteiro. Segundo, vai ser importante para honrar os compromissos que foram assumidos pelo país na Conferência de Copenhague. E terceiro, temos que preparar o Brasil para as próximas gerações.

E quanto à anistia de quem já cometeu crimes ambientais?
Na minha avaliação, não se trata de discutir se vai anistiar ou não. Acho que o melhor a ser feito nestes casos não é o governo aplicar multas. Por que não se faz a restauração dessas áreas? A melhor coisa é a recomposição, o replantio da mata nativa. Pagar multa não vai trazer aquele ecossistema de volta.
Mas, senador, o senhor acha que o governo tem “cacife” para comprar essa briga com a bancada ruralista?
A bancada vai precisar de maturidade para entender que a “anistia” não deve ser tratada pela ótica de problemas anteriores. Eles sabem disso e têm uma capacidade técnica muito boa para fazer o reflorestamento. Precisamos colocar a carga em cima deles. Mas, a articulação política é fundamental. Não haverá avanços se a condução for feita só para trombar. Se a gente faz guerra, será respondido com guerra também. O interesse coletivo tem que ficar em primeiro lugar. Esse processo não se estabelece da noite para o dia, é preciso regras claras e firmes para que isso se consagre.
Já existe um cronograma?
O Senado tem seu tempo. Não adianta acreditar que faremos a toque de caixa. Se fizermos isso vai ser a história da fábrica de sandálias que produz peças em larga escala, mas algumas soltam tiras e outras deixam mau cheiro. Não dá pra ser desse jeito, com guerra e queda de braço entre governo e oposição ou entre governo e Parlamento. Nesta etapa do Senado, é preciso envolver muito mais a sociedade nas discussões.
O senhor falou em articulação política do governo, mas esse papel é feito (principalmente) pelo ministro Antônio Palocci, pivô de escândalos sobre suposto enriquecimento ilícito e tráfico de influência. O senhor tem dito que é preciso dissociar a atuação de Palocci do segmento privado do governo Dilma. Mas, o senhor não acha que os problemas do chefe da Casa Civil podem trazer complicações para a “máquina” federal? Além disso, o senhor não acha que ele deve ser afastado do cargo até que as investigações sejam concluídas?
Nunca peço afastamento de ministro de ninguém. Não fiz isso nem no governo FHC. Quem nomeia é quem pode afastar. Desde o começo tenho dito que apenas Palocci pode falar sobre o caso Palocci. Sou plenamente solidário, mas não posso falar sobre algo que não fiz e que não tenho maiores informações. Outro ponto: essa é uma situação muito pessoal. Se Palocci auferiu ganhos a partir da venda da sua mão de obra, isso não é um “problema” do governo e nem do PT. Quem julga se houve alguma ilicitude ou se tudo está dentro da lei é a Procuradoria Geral da República e o Ministério Público Federal.
O Congresso pode fazer uma CPI.
Sim, realmente pode. Mas, o resultado da CPI vai para onde? Procuradoria Geral da República e o Ministério Público Federal. Não estou dizendo que o problema é só de Palocci. Agora, se ele fez algo errado foi enquanto indivíduo e não como membro do governo. Mas, entendo que a cobrança é natural para uma pessoa que era deputado e teve esse tipo de enriquecimento. Mesmo assim, todos nós na vida pública devemos satisfação à sociedade. Não tem jeito! A falta de esclarecimento deu margem a ilação, politização e foi usada como arma para que as pessoas colassem isso no governo e no partido.
Até que ponto a “blindagem” colocada no ministro pode prejudicar e expor o governo?
A CPI tem sido realmente evitada para não criar uma nova instância para discutir o fato. Volto a dizer: não é a CPI que vai resolver a questão. Agora, não há “blindagem”. Eu, por exemplo, não fui chamado uma única vez pelo governo para discutir o caso Palocci. Recentemente, participei de um almoço com a presidenta Dilma e ela não pediu nada neste sentido. Entretanto, acredito que há prejuízo para o governo quando o chefe da Casa Civil fica tão exposto a esse tipo de acusações. Com certeza, existe um ambiente de dificuldade. A oposição está no seu papel. Quando estive do outro lado eu ia pra cima mesmo, botava pra quebrar. Fazia até mais do que eles estão fazendo. Deu uma brecha, tem que agir mesmo. É muita ingenuidade pensar de outra forma. Achei até que o PSDB ficou caldo demais... Será que houve medo do efeito Orloff? Sabe qual é?
Não.
Aquela propaganda que dizia “eu sou você amanhã” (risos).

Agora, esse reaparecimento de Lula está associado ao desgaste do governo? Ele entrou em campo para suprir uma carência de Dilma Rousseff?
Na realidade, o ex-presidente não se movimentou neste sentido. Ele teve uma agenda com os líderes dos partidos aliados, o que é natural. Acho, inclusive, que Lula deveria ir mais vezes. Ele tava até se segurando muito para ninguém dizer exatamente isso.
Ele não é a “eminência parda” do governo Dilma?
Rapaz, isso não cola! Quem conhece Dilma e quem acompanhou o desempenho dela nos Ministérios das Minas e Energia e na Casa Civil sabe disso. Ela tem capacidade de gerenciamento, sabe tocar o governo e tem poder de decisão. Mesmo assim, acho que ninguém pode desprezar a ajuda de um homem como Lula. Fernando Henrique Cardoso também não entrou em campo para fazer a defesa de um dos seus aliados? Então! Se bem que teve outro que não deixou nem ele falar, né (risos). No nosso caso é diferente. Todos nós achamos que Lula tem que ir à Brasília sempre que puder. Lula é sempre bem-vindo.
Então, Lula não voltou para remendar a articulação política do governo?
Olha, Dilma foi mais hábil do que Lula em alguns aspectos.
Quais?
Por exemplo, em nenhuma das duas candidaturas vitoriosas Lula conseguiu colocar o PMDB na chapa.
O cenário era diferente e mesmo assim ele foi eleito as duas vezes.
Verdade. Mas, não esqueça que na primeira disputa havia o interesse de que o PMDB estivesse ao nosso lado. As discussões foram feitas, mas fomos negociando, negociando, negociando e no final não deu em nada. Dilma acabou virando ministra por causa disso. Ao PMDB foram prometidos dois ministérios: Saúde e Minas e Energia. Eles ficaram conversando tanto que deu atrito. Aí, Lula foi lá e disse: “nomeia Humberto Costa para a Saúde e Dilma para Minas e Energia”. Portanto, Dilma virou ministra por causa da ruptura nas negociações com o PMDB.
Agora, até que ponto é bom ter um aliado como o PMDB, já que o partido tensiona muito na cobrança por espaços dentro do governo?
Não vejo problema algum. Aliança não significa substituição e nem absorção. Aliança é compartilhar e fundir projetos. Em qualquer relação sempre haverá tensão, cobrança e desentendimentos. Isso é da gênese da política.
Vamos sair um pouco do Congresso e de Brasília. A discussão sobre a sucessão eleitoral em Salvador tomou conta da cidade. O PT já lançou até o deputado Nelson Pelegrino como pré-candidato. Mas, o nome do senhor sempre surge como uma alternativa. Existe possibilidade de o senhor disputar uma prévia ou vai trabalhar para que o candidato seja mesmo Pelegrino?
Vamos lá. Primeiro, estou brigando dentro do PT para evitar prévias. Acho que o melhor é construir uma candidatura de consenso. Não desejo para outro o que aconteceu comigo.
A prévia enfraqueceu sua candidatura em 2008?
Não enfraqueceu, mas retardou. Por exemplo, eu só fui para a rua em 13 de julho, enquanto todo mundo já estava trabalhando. Para quem não lembra, sai da prévia em 25 de maio. Aí, até o final de junho tive que costurar alianças. Então, é barra pesada. Não desejo ao meu candidato para Salvador a mesma “sorte” que tive. As três vezes que Pelegrino disputou eu não disputei com ele. Uma das quais, inclusive, fiquei ao seu lado e contra Wagner. Acho que Nelson pode ser o nome de consenso. É importante que eu cumpra o mandato no Senado. Não seria justo sair depois de apenas um ano e meio. Assim, seria até “desonesto” com os eleitores que confiaram essa responsabilidade em mim e a Lídice.
Por ser um profundo conhecedor dos anseios do PT, o senhor acha crível que o partido possa abrir mão de uma candidatura própria para apoiar o projeto de um aliado?
É importante pegar o nome de Nelson, que é um bom nome, e discutir com os parceiros. Ninguém pode iniciar uma discussão em busca de alianças colocando um nome goela a baixo. A primeira discussão gira em torno de programas e projetos. É preciso construir bases sólidas para uma disputa que tem como principal objetivo tirar Salvador da situação que a cidade se encontra. Esses passos, portanto, devem ser feitos sem muita afobação, agonia e muito menos arrogância. Não pode ser da forma “venha a nós, ao nosso reino”.
Existem muitas criticas ao modo estabelecido pelo governo Wagner para construção da Arena Fonte Nova. Ao invés da PPP, dizem que uma licitação diminuiria os custos da obra, que já está avaliada em R$ 2 bilhões. O senhor acredita que foi um equívoco a escolha da modalidade? Além disso, o estádio realmente pode ser o mais caro do Brasil?
Pelo contrário, a PPP foi um acerto. Se fosse uma obra pública, não teríamos condições de fazer. É só ver o caso de São Paulo, que transferiu a responsabilidade ao Corinthians. É um negócio complicado. A PPP é importante, até mesmo para discutir o modelo de gestão. O que vai ser da praça esportiva após os jogos da Copa? Temos que discutir também o que vai ser feito no entorno da Fonte Nova e como vai ser tratada a questão da mobilidade urbana. Além disso, temos que lembrar da necessidade de construir um espaço para multiuso. Pituaçu, por exemplo, só serve para a prática do futebol. Mesmo assim, não atende à demanda da torcida do Bahia, que lotou o estádio para ver o jogo contra o Flamengo. A gente podia até ter dado uma surra no time do Ronaldinho Gaúcho.

Fomos roubados! Lembra do pênalti em Ávine?
Pois, é! Pênalti claro! Puxaram a camisa de Ávine na cara do juiz. Infelizmente, não pude ir ao jogo por que estava mal da coluna, mas vi pela TV.
Quem ficou mal da coluna foi Ávine, após aquele puxão.
Verdade!
E quanto aos R$ 2 bilhões?
Essa conta é muito exagerada. Temos que fazer um pacto para tocar as obras. Mas, não estou pedindo aqui para perder o rigor fiscalizatório. Pelo contrário! É preciso o acompanhamento pelos Tribunais de Contas e Ministérios Públicos durante a execução da empreitada. Mas, por que o TCE deixou pra reclamar só agora quando estamos numa etapa bem avançada? Será que não houve negligência? Ele só enxergou agora? O Tribunal teve acompanhamento de todas as fases desde março de 2008. Se ele está dizendo que houve erro agora, ele negligenciou. Nesses termos, não era nem para permitir a assinatura do contrato.
Em suma, o senhor engrossa o coro daqueles que defendem que o conselheiro Pedro Lino está perseguindo o governo do estado?
Não falo em perseguição política, mas se ele diz que está correto, faz com uma dose de atraso. Por que ele não enxergou isso antes? Será que não teve tempo? Um dos papéis do TCE é acompanhar as coisas no nascedouro para evitar prejuízos aos cofres públicos. Por que ele não embargou no início do contrato?
Então, o senhor também acha correta a decisão do governo em levar a situação ao Judiciário? Essa posição não pode atrapalhar ainda mais o andamento das obras?
A ideia de ir para Justiça é procurar um árbitro criterioso para avaliar se o processo do TCE não está recheado de questões políticas. Alguém vai ter que dizer qual dos dois lados está com a razão.
E para finalizar, o senhor acha que temos chances de fazer a abertura da Copa?
Embora trabalhe para isso, acho muito difícil. Não tenha dúvida que haverá muita pressão para realizar o evento na maior cidade do país. Tenho quase certeza que São Paulo vai ter estádio e vai fazer a abertura.
Fotos: Roberto Viana // Bocão News