Entrevista

Mesmo com pandemia, cadeia produtiva do algodão rendeu R$ 4,6 bilhões na Bahia em 2020

[Mesmo com pandemia, cadeia produtiva do algodão rendeu R$ 4,6 bilhões na Bahia em 2020]
14 de Março de 2021 às 08:00 Por: Eliezer Santos

A safra baiana de algodão 2019/2020 não foi significativamente impactada pela pandemia do novo coronavírus. Contudo, o setor prevê que haverá impacto para a safra 2020/2021 - cujo plantio já foi finalizado -, em virtude de uma redução da área cultivada. Esta é a avaliação do presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Luiz Carlos Bergamaschi, durante entrevista ao BNews. 

Bergamaschi explica que quando os produtores realizaram o planejamento do plantio os preços não “remuneravam” bem a produção, o que fez com que áreas de algodão fossem migradas para soja e milho. 

"A projeção, até este momento, é de área plantada de 267.858 mil hectares, produtividade de 300 arrobas por hectare e produção de 1.207.571 milhão de toneladas de algodão - pluma e caroço. A previsão é que a colheita e o beneficiamento da pluma ocorram a partir de junho", estima. 

A Bahia é o segundo maior produtor de algodão do Brasil, e sua cadeia produtiva rendeu R$ 4,6 bilhões em valor bruto no ano passado - resultado que posicionou o produto como o segundo maior Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) do Estado. 

Durante a entrevista, o presidente da Abapa também comentou, entre outros assuntos, a expectativa dos produtores em torno da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), entre as cidades de Ilhéus e Caetité, na Bahia, cujo edital de concessão foi aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) no final do ano passado. 

O leilão deve acontecer no primeiro semestre deste ano. "Cerca de 90% da produção exportada do estado ainda é escoada pelo porto de Santos, em São Paulo, diante de uma operação de uma rota já estabelecida e direta para a Ásia. Para nós, produtores baianos, a saída por Salvador seria vantajosa, ao encurtar em cerca de 800 km o trajeto pela rodovia, reduzindo ao mesmo tempo o custo do frete e o tempo", avalia. 

Confira a entrevista: 

BNews: A pandemia impactou a cadeia de produção e escoamento do algodão na Bahia? 

Luiz Carlos Bergamaschi: Na safra 2019/2020 encerrada no ano passado, na produção não houve nenhum impacto significativo já que as lavouras já estavam instaladas e em fase de manejo quando surgiu a pandemia, assim com todos os cuidados e recomendações sobre a prevenção de combate e enfretamento ao coronavírus estipuladas pelas autoridades e seguidas pelas fazendas, foram conduzidas as lavouras como também a colheita e beneficiamento e escoamento da produção tanto da pluma como caroço. Com o agravamento da pandemia o grande impacto inicial foi a redução de consumo de vestuário e consequente a queda do preço da pluma, porém grande parte do algodão produzido já tinha sido comercializado, assim o produtor fez as entregas para cumprimentos de contratos. Em meados de novembro/2020 os preços da pluma voltaram a reagir no mercado interno e externo como até o momento os preços são vantajosos. Para a safra 2020/2021 haverá impacto na Bahia como também no Brasil com redução da área cultivada, visto quando o produtor lá atras fez o planejamento de plantio os preços não remuneravam bem a produção, assim áreas de algodão foram migradas para soja e milho. A redução de área na Bahia será da ordem de 15% e no Brasil em 16% conforme levantamento de dez/2020 da Abrapa. Os produtores baianos deverão retomar gradualmente os investimentos no algodão, caso a conjuntura do mercado se mantenha satisfatória. 

BNews: E sobre a colheita da safra 2020/2021? 

Luiz Carlos Bergamaschi: A Bahia finalizou o plantio do algodão da safra 2020/21. A projeção, até este momento, é de área plantada de 267.858 mil hectares, produtividade de 300 arrobas por hectare e produção de 1.207.571 milhão de toneladas de algodão (pluma e caroço). A previsão é que a colheita e o beneficiamento da pluma ocorram a partir de junho. A perspectiva até o momento é que ocorram boas perspectivas climáticas, boa condução da lavoura, dedicação de todos no controle fitossanitário, em especial ao bicudo do algodoeiro é de otimismo com a safra. 

BNews: Como estão as ações da Abapa durante a pandemia. Vi que houve doações de equipamentos a unidades de saúde... 

Luiz Carlos Bergamaschi: Os produtores de algodão da Bahia, por meio da Abapa, investiram cerca de R$ 1,5 milhão em doações e ações que apoiaram o poder público e a população no combate à Covid-19, como equipamentos e insumos para três mil testes para montar o laboratório para UFOB [Universidade Federal do Oeste da Bahia], em maio de 2020, e foi um grande diferencial pois todos os testes laboratoriais de cidades da regional do Oeste passaram a ser feitos aqui e não mais enviados ao Lacen em Salvador, o que agilizou o processo e ajudou a prevenção e salvar vidas; Doação de 70 km tecidos 100% algodão para confecção de no mínimo 700 mil máscaras de proteção distribuídas ao longo de 2020 em torno de 100 municípios da Bahia; Doação de 8 mil toalhas 100% algodão para unidades hospitalares sendo 6mil doados a Secretaria de Saude do Estado e demais 2 mil nas secretarias municipais de municípios do Oeste como exemplo de Barreiras, Luís Eduardo Magalhães, Correntina; Doação de equipamentos hospitalares como monitores paramétricos e eletrocardiograma; Doação de materiais hospitalares e de EPIs para os profissionais de saúde dos municípios do Oeste da Bahia, como máscaras, luvas, álcool gel, dentre outros. 

BNews: como está a relevância do Agro, e especialmente do algodão, na economia do estado nesse cenário de pandemia? 

Luiz Carlos Bergamaschi: Como segundo maior produtor de algodão do Brasil, a cadeia produtiva do algodão rendeu em 2020, com um dado já consolidado, R$ 4,6 bilhões em valor bruto da produção sendo o segundo maior VBP dos produtos agropecuários da Bahia. Para obter o produto final, é preciso investimento por parte do produtor em todas as fases do processo de produção: plantio, manejo de pragas, colheita, beneficiamento, pesquisa, adoção de tecnologia, transporte e comercialização. É toda uma gama de profissionais que se dedicam diariamente e contribuem com o produtor ao garantir mais produtividade e qualidade. Estima-se, por exemplo, que somente o setor do algodão movimente uma rede de 30 mil empregos diretos e indiretos, na região Oeste. 

BNews: Como estão as tratativas para ampliação dos canais de escoamento e exportação do algodão baiano? Como está a expectativa em torno da Fiol? Além dela, quais outros pontos de infraestrutura precisam ser melhorados? 

Luiz Carlos Bergamaschi: A Abapa promoveu reuniões e encontros nos últimos anos com representantes  de todos os elos ligados à operação para a exportação da fibra, como o governo do Estado, por meio da Companhia de Docas do Estado da Bahia (Codeba) e Casa Civil, Terminal de Contêiners do Porto de Salvador (Tecon), armadores e proprietárias dos navios, como MSC, traders e produtores, com o objetivo de alinhar as expectativas entre a demanda e a logística para o estabelecimento de uma rota de exportação da fibra produzida pelo estado pelo litoral baiano.
Cerca de 90% da produção exportada do estado ainda é escoada pelo porto de Santos, em São Paulo, diante de uma operação de uma rota já estabelecida e direta para a Ásia. Para nós, produtores baianos, a saída por Salvador seria vantajosa, ao encurtar em cerca de 800 km o trajeto pela rodovia, reduzindo ao mesmo tempo o custo do frete e o tempo.  Para intensificar o tráfego das exportações do algodão baiano por Salvador, é preciso que seja viável atender a logística exigida por nossos compradores internacionais, em que pesam variáveis como o tempo entre o embarque e a chegada do produto até o destino e o preço de toda esta operação logística. 

Quanto à FIOL, sem dúvidas tratará muitos benefícios logísticos para região, mais teremos que aguardar início das operações para melhor mensurar. 

BNews: Do ponto de vista da tecnologia, quais novidades têm sido acrescentadas à produção e colheita na Bahia? 

Luiz Carlos Bergamaschi: Em todos os anos, existem novas tecnologias no campo e que vem trazendo um diferencial competitivo, tornando o algodão mais produtivo e de qualidade. São inovações em sementes, muitas transgênicas, crescimento dos defensivos biológicos, difusão do plantio direto para a proteção do solo, máquinas como plantadeiras, colheitadeiras, pivôs, a maioria que hoje vem com conectividade à internet buscando melhor desempenho, controles e otimização dos recursos humanos e materiais em todos os processos. Temos também aplicativos de celular e plataformas de softwares de monitoramento de pragas, gestão das propriedades, logística e controle de estoque, e de comercialização, que vem sendo gradativamente adotadas pelos produtores, visando uma administração ainda mais moderna mirando na complexidade da gestão de uma propriedade rural. 

BNews: Como a Abapa avalia o reagendamento da Bahia Farm Show pelo segundo ano seguido? 

Luiz Carlos Bergamaschi: A 16ª edição da Bahia Farm Show foi reprogramada para os dias 31 de maio a 4 de junho de 2022 por causa das incertezas e instabilidades ainda geradas pela Covid-19. A decisão teve amparo pelas entidades de agricultores, expositores, e empresas do setor agrícola, principalmente de máquinas e implementos agrícolas, que foram ouvidos pela organização do evento: a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA). Como apoiadora oficial da feira, a Abapa acredita que a decisão foi acertada, ao agir com transparência e ética, prezando pela segurança e bem estar de todos os envolvidos.

BNews: Como estão os preparativos para o Congresso do Algodão previsto para acontecer no segundo semestre em Salvador? 

Luiz Carlos Bergamaschi: Para nós, é com grande orgulho que o maior evento da cotonicultura nacional seja realizado em Salvador. A 13ª edição do Congresso está programada para acontecer entre os dias 17 e 19 de agosto de 2021, no Centro de Convenções de Salvador. Realizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o congresso é organizado a cada dois anos sendo um grande fórum de conhecimento, tecnologia, intercâmbio e relacionamento voltado para o setor de algodão. O evento abrange uma grade científica de palestras, salas temáticas e workshops além de conferir o que há de mais moderno sendo demonstrado pelas empresas e instituições de pesquisa dedicadas ao setor.  A última edição ocorreu em 2019, em Goiânia, reunindo cerca 3 mil participantes.


*Colaborou Marcos Maia

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