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Projeto “antissacrifício”: Mãe Jaciara diz que Marcell Moraes deveria ser preso

[Projeto “antissacrifício”: Mãe Jaciara diz que Marcell Moraes deveria ser preso]
02 de Maio de 2013 às 00:00 Por: Marivaldo Filho 0comentários
A mágoa dos representantes das religiões de matriz africana com a proposta do vereador Marcell Moraes (PV), que apresentou projeto de lei na Câmara Municipal de Salvador para a criminalização dos sacrifícios de animais, foi o ponto principal da entrevista que o Bocão News fez com a ialorixá Jaciara Ribeiro dos Santos, ou simplesmente Mãe Jaciara, um dos ícones da luta contra a intolerância religiosa em todo o país. O ressentimento de Mãe Jaciara e do povo de candomblé contra o vereador é tão grande que, durante toda a entrevista, ela não conseguiu nem pronunciar o nome de Marcell Morais. “Chega a me dar arrepios”, explicou. A ialorixá também falou sobre o histórico de luta da Casa Axé Abassá de Ogum pela liberdade de culto religioso e sobre a mobilização das religiões de matriz africana, em todo o Brasil, para combater o projeto do vereador. Mãe Jaciara fez um emocionante desabafo ao Bocão News e disse que o autor da proposta “antissacrifício” deveria ser preso pela afronta ao povo de candomblé.
 
Para quem não sabe, a história de combate do Terreiro Axé Abassá de Ogum à intolerância religiosa foi reconhecida com a instituição do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado no dia 21 de janeiro em todo o Brasil. Após tantas lutas pela liberdade de culto, qual foi o sentimento do povo de candomblé com a proposta do vereador Marcell Moraes para criminalizar o sacrifício de animais?
 
Mãe Jaciara - É impossível falar dessa proposta ridícula desse vereador sem recuperar toda a nossa história. O Abassá de Ogum tem um caso emblemático, como você disse, que é o de mãe Gilda, minha mãe biológica que foi agredida dentro do nosso terreiro que foi invadido pelos seguidores da Igreja Assembleia de Deus. Eles agrediram Mãe Gilda, jogaram uma bíblia na cabeça dela e, em seguida, a Igreja Universal do Reino de Deus usou a imagem dela de maneira indevida, maculando a imagem de Mãe Gilda. Chamaram de “macumbeira” e “charlatã”. Minha mãe assinou uma procuração dia 20 e no dia 21 ela saiu e não voltou mais. Teve um infarto fulminante. Esse caso deu origem ao Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Não só o caso de Mãe Gilda, presenciamos vários outros casos. A minha preocupação não é só falar do projeto desse vereador. O candomblé é uma religião milenar. A gente foi arrancada da África de forma sub-humana, tivemos que ocultar a nossa fé. Não éramos escravos, mas nos fizeram escravos. Chegamos ao século XXI, num estado laico, e ainda vemos esse tipo de coisa. A perseguição na Bahia e no Brasil não para de crescer. São vários casos de intolerância. A perseguição não está só nos terreiros, está em outros campos. Nas escolas, uma criança não pode dizer que é do candomblé que o professor evangélico diz que ela está cultuando o diabo. Na saúde, o próprio Sistema Único de Saúde, se tiver uma enfermeira evangélica, ela que tirar os adereços africanos das pessoas. Me preocupa aonde vai chegar tudo isso.
 
Sobre o ritual de sacrifícios e oferendas, a senhora acha que há muita desinformação?
 
Mãe Jaciara - Esse projeto de lei é uma grande aberração. O que eu posso falar em relação ao sacrifício e as oferendas do candomblé? Antes de falar do candomblé, gostaria de lembrar, por exemplo, que a Igreja Católica faz isso em nome de Deus. Vários carneiros foram mortos em nome de Deus. O mundo todo tem que se tornar vegetariano? Eu estou muito triste. A Bahia e todos os terreiros de candomblé têm que levantar e pedir respeito. A gente não precisa estar falando o que é a oferenda no terreiro de candomblé. Cultuamos a força da natureza. Tudo o que oferecido ao orixá, seja em forma de oferenda, erva, cântico ou vela é para harmonizar a nossa comunidade e os nossos filhos. Satanizar o sacrifício dentro do candomblé é errado e isso é uma opinião equivocada desse vereador. Não consigo nem citar o nome dele que chega a me dar arrepios.

 
A senhora falou sobre as lutas contra a intolerância e a perseguição que os terreiros ainda continuam sofrendo. Mas quais foram os principais avanços alcançados no sentido de garantir a liberdade de expressão religiosa?
 
Mãe Jaciara - Além da força que o candomblé teve para reverter essa situação, destaco Estatuto da Igualdade Racial, a atuação do movimento negro, e a Secretaria da Reparação. Hoje, o povo negro e o povo de candomblé estão ocupando espaços do poder dentro do próprio estado. Isso é importante. Precisamos nos sentir inseridos num espaço que fomenta políticas públicas para o povo de candomblé. O secretario Elias Sampaio (Promoção da Igualdade Racial) tem tido um trabalho árduo em relação aos povos tradicionais. O racismo tem matado muitos jovens. As mulheres negras sofrem triplamente: por ser mulher, por ser negra e por ser de candomblé. Temos a Secretaria de Políticas para Mulheres do Estado da Bahia, onde a secretária Vera Lúcia Barbosa faz um trabalho belíssimo. Os avanços maiores são essas políticas públicas. O mandato de vereadores como Silvio Humberto (PSB) e Suíca (PT) também são importantes. Precisamos avançar nas pessoas que estamos escolhendo para nos representar. Precisamos ter a mídia a nosso favor. Era muito difícil quando o povo de candomblé era afrontado e não tínhamos um espaço como esse que estou tendo agora para dar uma resposta. Há uma perversidade muito grande por parte de muitas pessoas. Querem matar a nossa religiosidade. É um crime. Não só o povo de candomblé, mas todos os que bebem desta fonte deveriam pedir essa reparação, como os blocos afros e afoxés. Esse vereador (Marcell Moraes) tinha que ser exonerado. Temos a nossa particularidade. Ele tem que fazer uma reunião com todas as empresas que matam animais em série de forma criminosa. No candomblé, é diferente. A gente planta a árvore, planta as folhas e tira as folhas. Criamos os animais e eles são ofertados aos orixás de forma perfeita, que não me cabe falar agora. A comida não é jogada fora. As partes nobres são para o orixá e para a comunidade. Na verdade, o candomblé é uma religião que acolhe, agrega e está preocupada com a formação do ser humano. Tanto na parte intelectual, quanto na formação psicológica e também com o corpo. O candomblé se preocupa com a alimentação e o que comemos dentro dos terreiros.
 
 
A senhora citou alguns dos avanços conquistados ao longo do tempo. Acha que esse projeto de Marcell Morais vai na contramão de tudo o que já alcançado?
 
Mãe Jaciara - Esse vereador está com algum problema espiritual. Acho que ele tem que procurar o equilíbrio. Não tem como desfazer de uma religião milenar desta forma. O candomblé não começou hoje e é cultuado com muito respeito. Ele não conhece o que é candomblé. Ele poderia se preocupar, por exemplo, com os nossos problemas sociais. Ele está querendo ter visibilidade. Mas nós, das religiões de matriz africana, precisamos entender que é um momento ímpar para o nosso povo. Ele não vai nos derrubar. Pelo contrário, está nos fortalecendo para a gente lutar e buscar esta reparação. O próprio orixá está se levantando, seja da nação Ketu, da nação Angola, do povo de umbanda, seja qualquer religião de matriz africana que esteja envolvida nesse processo.


 
A senhora acha que este projeto foi criado por falta de conhecimento da religião ou  intolerância religiosa?
 
Mãe Jaciara - Um vereador nunca é desinformado. Acho que isso aí é perseguição. Esse vereador tem que ser preso. O Estado tinha que mover uma ação contra ele. Infelizmente, as coisas para o nosso povo caminha morosamente. A hipocrisia existe em todo lugar e nós já estamos buscando uma resposta para isso. O povo do candomblé está de pé e os orixás já estão sendo aclamados para dar a reposta a este vereador.
 
Inclusive, uma manifestação contra o projeto está marcada para a próxima segunda-feira, no plenário da Câmara Municipal de Salvador. Como será esse protesto?
 
Mãe Jaciara - Já estou me mobilizando para isso e mobilizando as outras casas. Não queremos um confronto. A gente não está querendo briga. Queremos ser tratados com respeito à diversidade. Vai ser um ato muito importante para o povo de candomblé.  Vai ser um ato de repúdio. Não há nada mais justo do que querermos uma resposta. Ele tem que explicar o porquê de um projeto tão patético para o povo de candomblé. É uma religião que sempre foi açoitada e discriminada. Os filhos de santo, quando vão procurar emprego, dizem que não estão no padrão. Que estado laico é esse? Minha preocupação é que não ocorra uma guerra santa. O povo de candomblé está chateado com isso. Ele é um vereador e, ao invés de estar procurando resolver os problemas e harmonizar a cidade, ele está cavando uma confusão muito grande. Não só o povo da Bahia está chateado com isso, como o povo de outros estados. Recebi ligações de Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e sei que outros estados também estão se mobilizando por esta causa.

 

 
Como os povos de religiões de matriz africana esperam que os vereadores da Câmara Municipal se posicionem sobre este projeto?
 
Mãe Jaciara - É uma resposta bem difícil. Não sei quais os trâmites legais para que seja feita esta reparação que queremos e que o nosso povo precisa. Não tenho dúvidas de que essa aberração não será aprovada. Isso é patético. Acho que os parlamentares têm que se reunir e ouvir o povo de candomblé e acabar com essa aberração. Se isso fosse aprovado para as religiões de matriz africana, todo mundo teria que parar de comer carne no Brasil.
 
 
Quando a senhora coordenou o projeto federal Mulheres da Paz Avanços teve que lidar com a delicada situação de conviver com uma maioria evangélica. Sofreu com intolerância religiosa? Como foi a experiência?
 
Mãe Jaciara - Foi excelente. Sinto muito orgulho de ser mulher, negra, de candomblé, e ter coordenado esse projeto no âmbito federal. Das 700 mulheres do projeto, a maioria é evangélica e eu coordenando. Muitas dessas evangélicas falavam para mim: “Você é um anjo. Deus tem uma missão em sua vida”. E eu ia conseguindo contornar essa situação sem sofrer intolerância religiosa. Eu não quero que me tolere, como diz Makota Valdina. Eu quero que me respeite. Basta me respeitar e me deixar ser livre. Liberdade de expressão, para mim, é liberdade de orientação e sexual e de religiosidade. O projeto Mulheres da Paz me deu um novo olhar para toda a situação de mulheres negras da Bahia e me deu recorte do lado religioso. Enquanto mulher de candomblé, consegui agregar mulheres de outros segmentos religiosos.
 
Como a senhora avalia o nosso estágio atual em relação às políticas públicas para o povo do candomblé?
 
Mãe Jaciara - Percebo que tem crescido muito os casos de intolerância religiosa e acho que existem muitos casos que acabamos não sabendo. Precisamos de pessoas preparadas nas delegacias, por exemplo. Muitas pessoas não percebem que se trata de um caso de racismo ou de intolerância religiosa. Muitos delegados acham que se trata de uma simples briga de vizinhos. Por essas coisas, nunca teremos os dados exatos desse tipo de violência. A gente sente na pele. Todos os terreiros de candomblé da Bahia têm casos de intolerância. Mas as secretarias estão trabalhando para que políticas públicas sejam criadas. A gente consegue fazer um trabalho de combater a intolerância religiosa nas escolas da comunidade. A gente tem que começar na educação. A maior transformação do universo é na educação. Já vi várias crianças terem medo de dizer que é do candomblé porque a professora diz que é do diabo. Continuarei na luta. Tenho medo de que, por causa de um caso de intolerância, eu também não resista, como aconteceu com minha mãe. Mas continuarei lutando.

 
Para finalizar, a senhora, como representante do povo do candomblé e das religiões de matriz africana, daria qual recado para o vereador Marcell Moraes?
 
Mãe Jaciara - O recado é que ele precisa mentalizar mais a paz. Não sei qual é o segmento religioso dele, mas ele tem que entender que não pode mudar o mundo com violência. Isso é raiva, é ódio religioso. Ele não está preocupado com os animais porque ele deve comer galinha, deve comer pombo, deve comer peru no Natal. Ele tem que respeitar a nossa ancestralidade. O estado é laico e temos conviver com a diferença religiosa. Isso que ele está fazendo é crime e ele tem que ser julgado por isso. Não é só a Bahia que comprou essa briga. Ele mexeu com todo o Brasil que está indignado com que ele está querendo fazer.
 

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