Artigo
Publicado em 04/11/2026, às 18h21 *Marcelo Cerqueira
Outubro superou agosto. Foram trinta e um dias de lutas sem trégua, de ideias antidemocráticas espalhadas pelo mundo por regimes autoritários, em nome de Deus. As eleições me lembraram a noite de São Bartolomeu, quando Catarina de Médici e o Rei Carlos IX ordenaram a execução das lideranças protestantes, em 1572. O soldado com a chancela real executava, sem perguntar se o outro era católico ou protestante. No dia seguinte, Paris acordou com cheiro de sangue. Aqui, guardadas as proporções do segundo turno, foi bem isso.
A diferença é que agora o massacre não precisa de sino, nem de rua, nem de multidão. Basta um telefone.
Dei sorte. Não encontrei eleitores lunáticos; meu meio social é muito civilizado. Um preto baiano, amigo chique que mora em Paris, disse que eleição lá não é como aqui: “Ninguém tenta convencer ninguém. Nem o parceiro sabe em quem o outro votou.”
Em 2006 apresentei um trabalho na Universidade da Colômbia, em época de eleição. Bogotá era um deserto de gente, exceto o Exército e os cães de guarda. Só me restou jogar conversa com os soldados, moços de cara de bicho. Joguei o charme: “Qué perro tan lindo”, eu disse. “Esse é Hugo”, respondeu o soldado. Admoestei que era pecado batizar cachorro com nome de gente. Passei a noite com rapazes que perguntavam sobre o Brasil. Filho de militar, a convivência naturalizou a farda.
Durante o segundo turno, recebi um vídeo em que um influencer mostrava Lula dizendo que acabaria com a polícia. Era antigo e editado. Argumentei: um candidato não diria isso num país continental. A polícia não vai acabar, vai se modernizar.
O tema que as campanhas não trataram é outro: dados e privacidade. Nossos dados são a coisa mais preciosa, armazenados em tempo real por empresas privadas e não pelo Estado. Basta conectar-se a um aparelho plugado na rede. O soldado vai ser o algoritmo, e o desafio vai ser ficar longe dele. E da Alexa, desligue.
Em 2018, dados desagregados fizeram brasileiros se odiarem. Esses constitui-se saber o que você está pensando agora, seus desejos, vontades e necessidades, coisas que nem pensou o algoritmo já sabe. Uma tia agrediu o sobrinho depois do resultado, dizendo que um candidato era de Deus e o outro do Demônio. Invadiu-lhe a casa para dizer isso, e mais. O ódio não veio do nada: veio endereçado.
Vigilância é o nome contemporâneo da censura. A clássica proibia falar; a vigilância decide o que você ouve antes de saber que ouviu. Uma democracia que não regula a captura de dados não é frágil: é decorativa, com urnas de verdade e soberania de mentira. Enquanto o debate discute quem vestirá a farda, o algoritmo já está fardado, sem rosto para o ressentimento cobrar. Defender a democracia exige menos palanque e mais regulação: saber quem coleta, para quê e a serviço de quem.
MARCELO CERQUEIRA - Estrategista da Diversidade e Inclusão, gestor e escritor
Classificação Indicativa: Livre
Smartwatch top
Qualidade JBL
Super descontos
cinema em casa
som poderoso